Quinta-feira, 19 de junho de 2026. Mal o árbitro apitou o fim de Suíça 3 x 1 Bósnia, no SoFi Stadium em Inglewood, na Califórnia, uma segunda equipe já ocupava o gramado. Não para celebrar nem para protestar — mas para cortar, escovar, semear e reparar uma superfície que havia sido maltratada por 22 atletas profissionais durante duas horas. A cena, registrada pela Reuters, resume o desafio silencioso que a Copa do Mundo de 2026 enfrenta antes mesmo de chegar à fase eliminatória: o gramado híbrido, inovação adotada em vários estádios-sede, virou protagonista indesejado da primeira rodada.

O que é o gramado híbrido e por que ele divide opiniões

A tecnologia consiste em instalar grama natural sobre uma base que normalmente suporta grama artificial — uma solução adotada porque vários estádios norte-americanos foram construídos para o futebol americano e não dispõem de infraestrutura permanente para gramados naturais. O resultado é uma superfície que se comporta de forma distinta dependendo do estádio, da altitude, da umidade e do histórico de uso recente de cada arena. Em Vancouver, no Canadá, o gramado recebeu elogios entusiasmados. O australiano Aiden O'Neill, após a vitória de 2 a 0 sobre a Turquia, foi direto:

"Acho que fizeram um ótimo trabalho para deixá-lo nas condições em que está. A bola rolou bem. Não estava muito dura. Acho que deixaram tudo perfeito, para ser sincero."
O problema é que Vancouver é exceção, não regra.

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No MetLife Stadium, em Nova York-Nova Jersey — o estádio que receberá a final em 19 de julho —, o cenário é outro. Comentaristas, jornalistas e telespectadores identificaram áreas descoloridas e irregularidades visíveis, especialmente na região frontal às goleiras. O estádio mais importante da Copa concentra as críticas mais graves.

Deschamps revela ajuste de chuteiras e Rabiot vai além

Após a vitória da França por 3 a 1 sobre o Senegal, no mesmo MetLife Stadium, o técnico Didier Deschamps não escondeu a estranheza. Segundo ele, nenhum jogador francês utilizou travas aparafusadas, mesmo sendo um recurso disponível nas chuteiras modernas. A decisão foi tática, mas motivada pela imprevisibilidade da superfície.

"Digamos apenas que é... é diferente. É incomum, então você tem que se acostumar. É diferente, então o rebote também é diferente", disse Deschamps.

O meio-campista Adrien Rabiot foi ainda mais contundente ao descrever a experiência:

"O gramado... nem sei se dá para chamá-lo assim. Parecia mais uma superfície artificial — bem dura e bastante rígida."
A fala de Rabiot é tecnicamente relevante: gramados duros aumentam o impacto nas articulações e nos tendões, especialmente em jogadores que realizam sprints explosivos e mudanças de direção em alta velocidade.

A diferença de percepção entre estádios é tão grande quanto a distância entre Manaus e Salvador — mais de 3.500 quilômetros — e revela que a Copa de 2026 não dispõe de um padrão único de superfície, ao contrário do que ocorreu em edições anteriores realizadas em países com infraestrutura futebolística consolidada.

Lesões, manutenção e o impacto nos dados da primeira rodada

A questão do gramado não existe no vácuo: ela se conecta diretamente aos números que a primeira rodada produziu. Foram 75 gols marcados em 24 partidas, dos quais cinco foram contra — recorde histórico para uma única rodada, superando as quatro ocorrências registradas na Copa da França em 1998, segundo a Fifa. Embora gols contra tenham múltiplas causas, superfícies irregulares que alteram o rebote da bola são um fator que especialistas em biomecânica esportiva consideram relevante.

O Grupo C, que reúne Brasil, Marrocos, Haiti e Escócia, registrou 74 faltas em dois jogos — média de 37 por partida, número que rivaliza com o Campeonato Brasileiro em semanas de clássico. O confronto entre Haiti e Escócia, em Boston, somou 44 infrações, com o atacante haitiano Pierrot e o escocês Ché Adams cometendo quatro faltas cada. Na partida entre Brasil e Marrocos, em Nova Jersey — exatamente no MetLife Stadium criticado por Deschamps —, foram 30 faltas, sendo 16 da seleção brasileira. Parte dessas infrações pode ser atribuída à dificuldade de controle de bola em superfícies de comportamento irregular, em matéria do SportNavo publicada com base nos dados da Fifa e da imprensa internacional.

As equipes de manutenção atuam imediatamente após cada jogo, com trabalho de reparação que inclui semeadura emergencial e escovamento das fibras. A Fifa não divulgou protocolo oficial detalhado, mas fontes ligadas à organização confirmaram que cada estádio-sede tem contratos independentes com empresas especializadas, o que explica a disparidade de qualidade entre arenas. O estádio de Vancouver, por exemplo, cultivou sua grama com um fornecedor local e recebeu suporte da comunidade, gerando um senso de responsabilidade coletiva que se refletiu na qualidade do campo.

A próxima rodada de jogos em Nova Jersey será o teste mais importante para a organização: se o gramado da final não apresentar melhora visível até o início da fase eliminatória, a pressão sobre a Fifa para adotar medidas estruturais — e não apenas cosméticas — deve escalar de forma significativa. O gramado do MetLife Stadium será inspecionado novamente antes da segunda rodada do Grupo C, quando Brasil e Haiti se enfrentam, e o resultado dessa avaliação técnica pode determinar se a questão vira crise institucional ou apenas desconforto administrável.

A Copa de 2026 tem o gramado como variável. A Fifa ainda não tem a resposta.