Confesso: eu errei sobre a Copa do Mundo 2026 em 2024. Escrevi, naquele ano, que o formato expandido para 48 seleções e a tríplice sede — Estados Unidos, Canadá e México — garantiria um tsunami de turistas jamais visto em qualquer edição anterior. Eu me baseei na lógica: mais jogos, mais países representados, mais torcedores em movimento. Hoje, com os dados da American Hotel and Lodging Association na mesa, vejo onde a análise falhou.
O que os números das reservas revelam sobre a demanda real
A pesquisa da American Hotel and Lodging Association, divulgada pela NPR, é impiedosa: quase 80% dos estabelecimentos hoteleiros nas cidades-sede americanas registram níveis de ocupação inferiores ao previsto para o período do torneio. O dado mais emblemático vem de Kansas City, uma das 11 cidades dos Estados Unidos que receberão partidas — lá, as reservas estão abaixo do patamar de um verão típico, sem Copa nenhuma. Para um evento que já vendeu mais de cinco milhões de ingressos, a discrepância entre ingressos comercializados e quartos reservados é estatisticamente anômala e historicamente sem precedente nas últimas três edições realizadas em países desenvolvidos.
Para calibrar a dimensão do problema, recorro ao histórico. Na Copa da França de 1998, Paris registrou taxa de ocupação hoteleira de 97% durante a fase de grupos. Em Alemanha 2006, cidades como Berlim e Munique esgotaram a capacidade já em março daquele ano. No Brasil 2014 — com toda a infraestrutura precária e os protestos de junho — o Rio de Janeiro operou acima de 90% durante os jogos. A Copa 2026, a menos de semanas do apito inicial, apresenta um quadro que contraria décadas de comportamento do turismo esportivo global.
Os organizadores mantêm o discurso de que a demanda será "sem precedentes". Mas os números correntes não sustentam essa projeção.
Por que o torcedor internacional está ficando em casa
Especialistas consultados pela NPR apontam uma convergência de fatores que, isoladamente, seriam administráveis — juntos, formam uma barreira de entrada significativa. O primeiro é a política de vistos dos Estados Unidos, historicamente mais restritiva do que a de países europeus que sediaram o torneio. O segundo é o endurecimento nos controles de fronteira, que cria uma percepção de risco entre torcedores de países da América Latina, África e Ásia — exatamente as regiões que mais cresceram em representação no formato de 48 seleções. O terceiro fator é o custo: diárias hoteleiras em cidades americanas durante grandes eventos costumam triplicar em relação à média anual.
Há ainda um elemento conjuntural que eu não havia ponderado corretamente em 2024: a queda generalizada no volume de viagens internacionais para os Estados Unidos, fenômeno que antecede a Copa e que especialistas em turismo vêm documentando desde o início de 2026. Esse declínio afeta diretamente a base de torcedores que fariam as reservas com maior antecedência — os europeus e os sul-americanos de classe média que planejam viagens com seis a doze meses de antecedência.
Havia também uma aposta dos organizadores no calendário cívico americano: 2026 marca os 250 anos da assinatura da Declaração de Independência, o que deveria atrair um fluxo adicional de visitantes. Esse efeito multiplicador, até agora, não se materializou nas reservas hoteleiras.
A Fox aposta no milagre enquanto os hotéis esperam pelo torcedor
Num cenário de demanda aquém do esperado, a Fox Sports escolheu uma resposta cultural ousada. A emissora lançou a campanha "Miracle", um filme que projeta uma final entre Estados Unidos e Brasil, decidida por Christian Pulisic no minuto 97, após empate em 2 a 2 no tempo regulamentar. A peça reúne Tim Weah, Weston McKennie e o próprio Pulisic, além de nomes como Bruce Arena, Tom Brady, Michael Strahan e Zlatan Ibrahimović — hoje comentarista da emissora.
"Você não acredita em milagres?" — Mike Eruzione, ex-jogador americano de hóquei no gelo, na campanha "Miracle" da Fox Sports.
A escolha de Eruzione não é casual. O jogador é o símbolo do "Miracle on Ice", a vitória de uma equipe universitária americana sobre a União Soviética nos Jogos Olímpicos de Lake Placid, em 1980 — episódio que inspirou o filme "Desafio no Gelo" e popularizou a pergunta que agora ancora a campanha da Fox. A trilha escolhida, "The Impossible Dream" na voz de Elvis Presley, reforça o tom de epopeia improvável.
A presença do Brasil como adversário na final do roteiro não é arbitrária. A Seleção Brasileira é a maior campeã da Copa do Mundo, com cinco títulos — 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 — e 73 gols marcados em Copas até a edição de 2022, quando caiu nas quartas de final para a Croácia nos pênaltis. Colocar o Brasil como obstáculo final é um recurso dramatúrgico que a Fox usa para elevar o peso simbólico de uma eventual conquista americana. A Seleção dos EUA, por comparação, tem como melhor resultado o terceiro lugar na primeira edição, em 1930, no Uruguai.
"A criação da Special US escolheu cada detalhe, desde o roteiro à música, visando tratar o improvável como algo possível dentro do esporte", descreve a Fox Sports sobre a concepção da campanha.
A campanha é sofisticada e culturalmente bem calibrada para o público interno americano. Mas ela também expõe, involuntariamente, a equação que o torneio precisa resolver: o torcedor que encheria os hotéis de Kansas City não é o americano que assiste à Fox no sofá de casa — é o argentino, o mexicano, o senegalês, o marroquino e o brasileiro que precisam de visto, de passagem aérea acessível e de uma percepção de acolhimento na fronteira para fazer as malas.
A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, com a fase de grupos distribuída pelas 11 cidades americanas, mais Toronto e Guadalajara. Kansas City recebe sua primeira partida já na semana de abertura. Se as reservas hoteleiras não acelerarem nas próximas semanas, a cidade que em fevereiro de 2024 celebrou o bicampeonato do Kansas City Chiefs na NFL pode viver o paradoxo de sediar um jogo de Copa do Mundo com quartos de hotel mais vazios do que numa terça-feira de agosto qualquer.
Cinco títulos mundiais do Brasil não salvam hotel vazio em Kansas City.









