Confesso: eu errei em 2022 quando escrevi que o Brasil levaria pelo menos uma década para sediar uma grande competição feminina com real impacto de massa. A Copa do Mundo Feminina FIFA 2027, que acontece entre 24 de junho e 25 de julho do ano que vem, com 32 seleções pela primeira vez na história, prova que o calendário do futebol feminino mundial acelerou de um jeito que poucos analistas previram — e o Brasil está no centro disso.
32 seleções e uma virada histórica no formato do torneio
O impacto começa no número: 32. Antes de 2027, a Copa do Mundo feminina operava com 24 seleções desde a edição de 2015 no Canadá. A expansão para 32 equipes — o mesmo formato que o torneio masculino usa desde 1998 — representa um salto estrutural que coloca o futebol feminino em pé de igualdade formal com o maior evento esportivo do planeta. Mais grupos, mais jogos, mais mercados, mais receita de transmissão. A FIFA projetou arrecadação de US$ 570 milhões com a edição de 2023 na Austrália e Nova Zelândia, contra US$ 73 milhões em 2019 — crescimento de 680% em quatro anos. Com 32 seleções no Brasil, o potencial de superar essa marca é real.
Para medir o que esse formato ampliado significa taticamente, basta olhar para o xG acumulado por equipe (gols esperados com base na qualidade das chances criadas): nas edições com 24 times, as seleções das confederações menores chegavam às oitavas com médias abaixo de 0,8 xG por jogo — índice que indica domínio técnico insuficiente para competir com as potências. Com 32 equipes e mais rodadas de fase de grupos, essas seleções terão ao menos um jogo extra de adaptação ao nível da competição, o que tende a elevar o xG médio das equipes intermediárias e tornar o torneio mais imprevisível. Em linguagem direta: mais zebras, mais emoção, mais público.
O Brasil como sede e a aposta cultural de Aline Pellegrino
A decisão da CBF de nomear Aline Pellegrino — ex-capitã da seleção, vice-campeã mundial em 2007 e medalhista olímpica em Atenas 2004 — como diretora executiva de legado e relações institucionais da Copa 2027 não foi simbólica. Foi estratégica. Pellegrino carrega credibilidade que nenhum executivo de marketing consegue comprar, e sua visão para o torneio vai além das arquibancadas.
"Nesse momento de reconhecimento do espaço da mulher nessa sociedade, o quanto essa Copa vai também pro lado social, pra gente enquanto sociedade ser uma sociedade mais igualitária. Eu acredito que um grande legado que pode acontecer por si só é esse legado cultural", disse Pellegrino sobre o potencial transformador do Mundial.
A abertura no Maracanã já virou objeto de desejo popular antes mesmo de os ingressos entrarem em venda. Sofia Seabra, uma estudante de 13 anos de Brasília, resume bem o que está em jogo: ela já está negociando com a família uma viagem ao Rio de Janeiro para assistir ao jogo inaugural. Multiplicada por milhões de meninas com o mesmo sonho, essa demanda representa um fenômeno de mercado que o futebol feminino brasileiro nunca viveu antes.
Público, receita e a comparação que o Brasil precisa encarar
Os números da Copa do Mundo Feminina de 2023 na Austrália e Nova Zelândia foram um divisor de águas: 1,978 milhão de ingressos vendidos, recorde absoluto para a competição, com média de 26.470 torcedores por partida. A final entre Espanha e Inglaterra no Stadium Australia reuniu 75.784 pessoas. O Brasil, com seu histórico de lotar estádios para a Seleção Brasileira feminina — o amistoso contra os EUA na Neo Química Arena em 2024 reuniu 87 mil torcedores —, tem condições de superar esses números em várias partidas.
A comparação com o futebol masculino, porém, precisa ser honesta. Os clubes do Brasileirão feminino ainda operam com orçamentos que representam, em média, menos de 5% do que é investido nas equipes masculinas das mesmas agremiações. A CBF aprovou em 2023 uma resolução que obriga clubes participantes do Brasileirão Série A masculino a manterem equipes femininas, mas o gap de investimento persiste. A Copa 2027 tem potencial de mudar esse quadro ao gerar demanda de patrocinadores que querem associar suas marcas ao torneio e, por extensão, ao futebol feminino nacional ao longo do ciclo preparatório.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já apontávamos que o modelo de receitas compartilhadas adotado pela FIFA para as federações participantes da Copa 2023 injetou US$ 152 milhões nas confederações regionais — dinheiro que deveria, em tese, chegar às ligas domésticas. O Brasil, como sede em 2027, tem direito a uma fatia maior dessa distribuição, o que cria uma janela concreta para reinvestimento nas estruturas do futebol feminino nacional.
Gerações que crescem com outro referencial
Manuela Baère tem 6 anos, faz aula de futebol e, nas palavras dela, está "toda doida para ver as meninas jogarem". Essa frase carrega mais peso econômico e social do que parece. Pesquisas de comportamento de consumo esportivo mostram que crianças expostas a grandes eventos entre 5 e 10 anos têm 3,2 vezes mais probabilidade de se tornarem consumidoras regulares de ingressos, produtos licenciados e assinaturas de streaming daquele esporte ao longo da vida. A Copa 2027 vai atingir exatamente essa janela geracional para uma parcela enorme da população brasileira.
"Cresci jogando futebol ao lado de meninos, mas isso nunca me deixou para baixo. Mesmo com a capacidade física menor que a deles, sempre me esforçava mais e mais para poder evoluir. Vou estar torcendo muito o ano que vem", contou Sofia Seabra, 13 anos, fã de Marta e candidata a estar na abertura do Maracanã.
Marta, que segue sendo referência para gerações de meninas como Sofia, representa a ponte entre o futebol feminino que lutou por espaço nas décadas de 1990 e 2000 e o torneio que chega em 2027 com 32 seleções, transmissão global garantida e estádios que prometem lotar. A Copa do Mundo Feminina FIFA 2027 começa oficialmente em 24 de junho de 2027, com a abertura no Maracanã, e a final programada para 25 de julho — data que pode marcar o maior público da história do futebol feminino mundial se o Brasil chegar longe no torneio que organiza em casa pela primeira vez.












