Um zagueiro que não marca gols não existe — até o dia em que ele decide uma partida em São Januário. No domingo, 26 de julho de 2026, Igor Formiga converteu o único gol da vitória do Mirassol sobre o Vasco por 1 a 0, num estádio que raramente perdoa visitantes e que, naquela tarde, foi silenciado por um homem que usa a camisa 32 e passa a maior parte do tempo fazendo o que ninguém aplaude.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Igor Formiga disputou 31 partidas no Brasileirão Série A de 2026. Nenhum gol até domingo. Uma assistência. A frieza desses números esconde o que eles realmente dizem: um zagueiro de 27 anos, 177 cm, formado nas categorias de base do Nova Iguaçu, está presente em praticamente toda a temporada de um clube que subiu à elite do futebol nacional e precisa, acima de tudo, de solidez defensiva. Trinta e um jogos não é acidente. É escolha técnica. É confiança do treinador traduzida em minutos.
O gol em São Januário, marcado no dia 26 de julho, não veio do nada — veio de um jogador que estava em campo porque merecia estar. A produção ofensiva de um zagueiro não se mede em gols por temporada. Mede-se em quantas vezes ele está disponível quando o time mais precisa.
Como ele chega a esse número
A trajetória de Igor Formiga é a de quem construiu carreira por etapas, sem atalho e sem o holofote que o futebol reserva para quem estreia no Maracanã com 17 anos. Sua primeira aparição profissional foi em 22 de abril de 2018, entrando no intervalo de uma derrota por 1 a 0 do Nova Iguaçu para o próprio Mirassol, pela Série D — ironia que o destino guardaria para revelar anos depois.
Em julho de 2018, o Corinthians o contratou para o sub-20. A passagem pelo clube paulista foi longa e silenciosa: empréstimo ao Coimbra em janeiro de 2020 para o Campeonato Mineiro, uma única partida, retorno ao Timão, atuações pelo sub-23. Em 24 de janeiro de 2022, chegou à Ponte Preta por empréstimo. Três jogos no Campeonato Paulista depois, o clube assinou contrato permanente em 13 de abril daquele ano — sinal claro de que o que viram em campo convenceu mais do que o histórico no papel. Formiga foi titular regular na Série B de 2022, ajudando a Macaca a escapar do rebaixamento.
O salto seguinte foi para o Cruzeiro, clube que havia acabado de retornar à Série A. Formiga assinou em 13 de dezembro de 2022 e estreou na elite nacional em 14 de maio de 2023, numa goleada por 4 a 0 sobre o América-MG. Depois vieram o Portimonense, de Portugal — contrato anunciado em 21 de julho de 2023 —, o Novorizontino e, em 13 de agosto de 2025, a contratação pelo Juventude. O caminho até o Mirassol de 2026 passou por seis clubes em oito anos de profissionalismo. Cada etapa deixou marca. Nenhuma foi desperdiçada.
Os outros números que falam o mesmo idioma
A assistência registrada nesta temporada pode parecer irrelevante para um zagueiro, mas ela complementa o retrato de um jogador que participa do jogo além do setor defensivo. O Mirassol, clube do interior paulista que disputa sua primeira temporada consolidada na Série A, tem no volume de jogadores regulares um dos seus pilares. Formiga é um deles — 31 partidas em 2026 colocam-no entre os atletas com maior minutagem no elenco.
A vitória sobre o Vasco por 1 a 0, conforme registrado pelo SportNavo em 26 de julho, foi construída sobre exatamente esse tipo de contribuição que os números brutos não capturam: a presença constante de um defensor que, quando o momento exigiu, estava no lugar certo. São Januário é um teste de caráter. O Mirassol passou. Formiga foi o autor do placar.
Para efeito de comparação com pares na posição: zagueiros de clubes recém-chegados à Série A raramente acumulam 31 jogos numa temporada sem que o técnico confie plenamente neles. A rotatividade em equipes que brigam para não cair é alta. A permanência de Formiga no time titular fala mais do que qualquer estatística isolada.
O risco de confiar só nesse dado
Trinta e um jogos e um gol decisivo não garantem nada além do presente. Igor Formiga tem 27 anos — idade em que um zagueiro deveria estar no auge ou próximo dele — e ainda não acumulou títulos documentados na carreira profissional. A passagem pela Europa, pelo Portimonense, foi uma aposta que o próprio mercado fez nele em 2023; o retorno ao Brasil e o percurso pelo Novorizontino e Juventude antes do Mirassol sugerem que a estabilidade foi construída com esforço, não oferecida de bandeja.
O risco real para Formiga não é técnico — é narrativo. Jogadores que fazem bem o trabalho sujo raramente ganham manchetes, e sem manchetes o mercado não os enxerga. Um zagueiro de 177 cm não impressiona pelo físico. Precisa impressionar pela inteligência posicional, pela leitura de jogo, pela capacidade de estar no lugar certo antes que o perigo se instale. O gol em São Januário foi raro, mas o que sustenta Formiga não é a raridade — é a regularidade.
O Mirassol encerra a temporada da Série A em dezembro de 2026. Até lá, saberemos se Igor Formiga foi peça de uma campanha histórica do clube ou apenas um nome que o futebol brasileiro voltará a ignorar na janela de transferências de janeiro. A resposta está sendo escrita jogo a jogo, e o placar de São Januário foi um capítulo que o próprio Formiga assinou com a própria cabeça — ou os próprios pés. Até dezembro de 2026, há resposta.








