Não, Igor Thiago não é o atacante mais badalado desta convocação. Não tem o histórico de Rodrygo, não carrega o peso simbólico de Neymar, não chegou ao Huntington Bank Field Stadium, em Cleveland, com holofotes apontados para si. Mas é exatamente esse anonimato relativo que torna sua estreia como titular contra o Egito, neste sábado (6), às 19h (horário de Brasília), o episódio mais intrigante do último ensaio brasileiro antes da Copa do Mundo.

O laboratório de Ancelotti antes de Marrocos

Carlo Ancelotti deixou claro, antes mesmo do apito inicial, que o amistoso contra os egípcios funcionaria como experimento. Com Neymar em recuperação de lesão na panturrilha e Gabriel Magalhães poupado por desgaste físico, o técnico italiano aproveitou as ausências para testar variações que não coube testar na goleada sobre o Panamá, no domingo passado (31). Naquele duelo, o time do primeiro tempo — com Vinicius Júnior, Raphinha, Wesley e Bruno Guimarães — foi descrito pelo próprio Ancelotti como mais adequado para o jogo em transição.

"O time do primeiro tempo é mais de ida e volta, porque temos jogadores mais rápidos, fortes no um contra um. Jogar um futebol de posse não vai evidenciar as características dos jogadores", analisou o treinador após o Panamá.

Contra o Egito, a lógica se inverte. Com Lucas Paquetá entre os titulares, a expectativa é que o Brasil adote maior controle de bola e uma estrutura tática diferente nos momentos com posse — mantendo o 4-4-2 apenas nas situações defensivas. É nesse contexto que Igor Thiago entra em cena: não como substituto de luxo, mas como peça central de um segundo estilo de jogo que Ancelotti quer ter à disposição no Mundial.

De novato convocado a titular no momento decisivo

Há algo de histórico no padrão. Em junho de 1994, Mazinho foi preterido durante boa parte da preparação e terminou campeão do mundo titular. Em 2002, Ronaldo chegou ao Japão e Coreia com a saúde em dúvida e balançou as redes oito vezes, tornando-se artilheiro do torneio. A Copa tem o hábito cruel e fascinante de elevar exatamente aquele que parecia secundário. Igor Thiago, 23 anos, formado nas categorias de base do Club Brugge e hoje no Bayer Leverkusen, pode estar escrevendo o primeiro parágrafo de uma dessas histórias.

Contra o Panamá, ele não foi titular. Entrou no segundo tempo, quando o placar já estava construído pela enxurrada de gols da etapa final — a goleada por 6 a 2 que animou o Maracanã depois de vaias na primeira parte. Sua participação foi limitada, mas o suficiente para Ancelotti mantê-lo nos planos. Agora, diante dos egípcios, a missão é diferente: provar que consegue ser referência ofensiva desde o início, com o jogo ainda em aberto e a responsabilidade sobre os ombros.

O laboratório de Ancelotti antes de Marrocos Igor Thiago titular contra o Egito
O laboratório de Ancelotti antes de Marrocos Igor Thiago titular contra o Egito

Rayan, outro novato do grupo, também deve ser acionado. O jovem atacante marcou seu primeiro gol pela Seleção nos últimos amistosos e chega ao duelo desta noite querendo confirmar a boa fase. A concorrência interna, portanto, é real — e isso só favorece Ancelotti.

O que Igor Thiago precisa mostrar para colocar dúvida na Copa

A liderança do grupo, como de costume, passa por Marquinhos. O capitão da Seleção e do Paris Saint-Germain, aos 32 anos, chega ao seu terceiro Mundial com a braçadeira e a responsabilidade de guiar uma geração que busca encerrar 24 anos sem título. Em campo, sua presença estabiliza. Nos bastidores, sua voz organiza. Mas a Copa se decide no ataque — e é ali que Igor Thiago precisa falar mais alto do que qualquer discurso de vestiário.

De novato convocado a titular no momento decisivo Igor Thiago titular contra o E
De novato convocado a titular no momento decisivo Igor Thiago titular contra o E

O que Ancelotti quer ver esta noite é simples de enunciar e difícil de executar: movimentação inteligente dentro da área, capacidade de segurar a bola quando o Brasil precisar de apoio e, claro, a frieza que define centroavantes de nível mundial na hora da finalização. Se Igor Thiago entregar isso em Cleveland, o treinador italiano terá um problema gostoso para resolver antes da estreia contra Marrocos, no próximo sábado (13), às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

"Centroavante de Copa não é o mais técnico, nem o mais veloz. É o que suporta o peso do silêncio antes do gol", definiu um analista tático durante a cobertura dos amistosos preparatórios.

A torcida brasileira, que andou mais preocupada com a discussão sobre o retorno de Neymar do que com a própria escalação, tem neste sábado a última oportunidade de ver Ancelotti montar um quebra-cabeça antes que as peças precisem se encaixar de verdade. Se Igor Thiago balançar as redes contra o Egito, o debate sobre quem ocupa a referência ofensiva do Brasil na Copa ganha um personagem novo — e o treinador italiano terá, finalmente, a dúvida que todo técnico experiente deseja carregar para um Mundial. É o mesmo cenário que Ronaldo Fenômeno viveu em 1994, quando chegou jovem, sem titularidade garantida, e deixou a Copa como promessa confirmada — só que agora a aposta tem nome, posição e 90 minutos para se apresentar.