— Cara, o Irã está jogando a Copa do Mundo no México.
— Como assim no México?
— A base deles é em Tijuana. Não conseguem entrar nos Estados Unidos direito.
Essa conversa, que parece piada de boteco, é a realidade mais estranha que a Copa do Mundo de 2026 produziu até agora — e olha que o torneio já entregou algumas surpresas. A Federação Iraniana de Futebol (FFI) formalizou uma reclamação oficial à Fifa denunciando que os Estados Unidos negaram o pedido iraniano de chegar dois dias antes a Los Angeles para a partida de domingo (21) contra a Bélgica, marcada para as 12h no horário local.
O campo minado antes mesmo do apito inicial
O documento enviado pela FFI aos canais oficiais da Fifa é direto ao ponto:
"A Federação Iraniana de Futebol considera que estas restrições são incompatíveis com o princípio de igualdade de condições para as equipes participantes e poderiam afetar a preparação técnica das seleções."
Não é a primeira vez nesta Copa que a delegação iraniana enfrenta esse obstáculo. No jogo anterior, contra a Nova Zelândia, as autoridades americanas permitiram a chegada apenas um dia antes do confronto. Agora, para o duelo contra os belgas, a federação queria dois dias de antecedência para aclimatação e descanso — pedido negado. O cenário se agrava quando se sabe que 15 integrantes da delegação, entre jogadores, membros da comissão técnica e diretores, sequer receberam autorização de entrada nos Estados Unidos.
Quinze pessoas. Não é um detalhe logístico — é uma amputação operacional.

A solução encontrada foi instalar o centro de operações em Tijuana, cidade mexicana na fronteira com a Califórnia, e cruzar para Los Angeles somente quando as autoridades americanas permitem. Há algo de kafkiano nisso: uma seleção que disputa o maior torneio do planeta gerenciando vistos e fronteiras como se estivesse tentando chegar a uma reunião de negócios num país com o qual não mantém relações diplomáticas — que é exatamente o caso.
Uma tensão com raízes mais fundas que qualquer Copa
Quem acompanhou a Copa de 1998, na França, lembra o peso simbólico do Irã x Estados Unidos na fase de grupos. Aquele 2 a 1 iraniano, no Stade de Gerland em Lyon, foi muito mais do que futebol: era o primeiro encontro oficial das duas seleções desde a Revolução Islâmica de 1979 e a crise dos reféns que congelou as relações bilaterais. Os jogadores iranianos presentearam os americanos com flores brancas antes do apito inicial. O mundo inteiro assistiu àquilo como um gesto de civilização dentro de um campo político inflamado.
Quase três décadas depois, o roteiro mudou de sinal. O que em Lyon foi um momento de distensão, em Los Angeles virou um nó burocrático que a Fifa agora precisa desembaraçar. A entidade que governa o futebol mundial escolheu os Estados Unidos como sede principal de uma Copa justamente por seu poder econômico e infraestrutura — mas não calculou, ou preferiu não calcular, o custo político de receber seleções de países sob sanção americana.
Lembro de um paralelo literário que serve bem aqui: em O Processo, de Kafka, o protagonista Josef K. é perseguido por uma burocracia que nunca explica suas regras, mas as aplica com rigor absoluto. O Irã vive algo parecido: as restrições existem, são reais, afetam o desempenho esportivo, mas nenhuma autoridade americana as assume publicamente como política deliberada contra a seleção.
O jogo de domingo e o que está em jogo na sequência
A partida contra a Bélgica é decisiva. O Irã chega a esta quarta edição consecutiva de Copa sem jamais ter passado da fase de grupos — um jejum que atravessa todas as suas sete participações no torneio. Para uma seleção que se preparou meses para este momento, dormir em Tijuana e cruzar a fronteira no dia do jogo não é apenas desconforto: é uma variável que nenhum adversário precisa administrar.
A Bélgica, por sua vez, não tem nenhum desses problemas logísticos. Viaja, treina e dorme nos Estados Unidos sem restrição alguma. Se o Irã perder ou empatar e for eliminado, a pergunta legítima — e incômoda para a Fifa — será até que ponto a desigualdade de condições contribuiu para o resultado.
A Fifa recebeu o protesto formal. Agora precisa responder com mais do que silêncio institucional. O regulamento do torneio garante igualdade de condições a todas as 48 seleções participantes, e a entidade assumiu contratualmente essa responsabilidade ao eleger os EUA como sede. Deixar a reclamação iraniana sem resposta concreta antes do domingo cria um precedente perigoso: o de que as regras do jogo valem para todos, exceto quando a geopolítica decide o contrário. O Irã entra em campo contra a Bélgica no domingo (21), às 12h horário local de Los Angeles, com a eliminação na fase de grupos como ameaça real — e com um processo aberto na Fifa que, independentemente do placar, não fecha com o apito final.








