As sirenes que ecoaram por Bagdá na madrugada desta quarta-feira (1º) não anunciavam mais uma turbulência política ou social. Desta vez, música, fogos de artifício e até mesmo algumas rajadas de tiros para o alto celebravam algo que o povo iraquiano não experimentava há duas décadas: o retorno de sua seleção à Copa do Mundo. Pela segunda vez na história, o Iraque conquistou uma vaga no torneio mais importante do planeta, repetindo o feito de 1986, quando estreou no México.
Simultaneamente, a 2.500 quilômetros de distância, as ruas de Sarajevo testemunhavam cenas igualmente emocionantes. Centenas de torcedores tomaram a capital da Bósnia e Herzegovina para celebrar a primeira classificação do país para uma Copa do Mundo desde sua independência. A conquista representa não apenas um triunfo esportivo, mas um marco simbólico para uma nação que emergiu das cinzas de uma guerra civil devastadora nos anos 1990.
Bagdá revive a magia de 1986
Para compreender a dimensão da festa iraquiana, é necessário voltar 40 anos no tempo. Em 1986, sob o comando do técnico Evaristo de Macedo, o Iraque surpreendeu o mundo ao se classificar para a Copa do México. Naquela ocasião, a seleção comandada pelo craque Ahmed Radhi enfrentou Paraguai, Bélgica e México na fase de grupos, sendo eliminada sem vitórias, mas deixando uma marca indelével na memória de seu povo.
Desde então, o futebol iraquiano navegou por águas turbulentas. A invasão americana em 2003, a instabilidade política crônica e o surgimento do Estado Islâmico criaram um cenário onde jogar futebol se tornou quase um ato de resistência. Os estádios de Bagdá, outrora templos do esporte, transformaram-se em símbolos de uma normalidade perdida. O Al-Shaab Stadium, casa da seleção, chegou a ser utilizado como abrigo para refugiados internos durante os períodos mais críticos do conflito.
A classificação atual, portanto, transcende o aspecto puramente esportivo. Representa a possibilidade de uma geração inteira redescobrir o orgulho nacional através do futebol, algo que seus pais experimentaram brevemente nos anos 1980. Ali Hassan, meio-campista da atual seleção e nascido em 1994, nunca havia presenciado seu país em uma Copa do Mundo antes desta conquista.
Sarajevo e a ressurreição através do esporte
Se o Iraque celebra um retorno, a Bósnia e Herzegovina vive um momento inaugural. Formada oficialmente como estado independente em 1992, a jovem nação balcânica enfrentou imediatamente uma guerra civil que durou até 1995 e deixou mais de 100 mil mortos. Durante o cerco de Sarajevo, que se estendeu por 1.425 dias, jogar futebol era literalmente questão de vida ou morte, com franco-atiradores posicionados nas colinas ao redor da cidade.
O futebol bósnio renasceu das ruínas de maneira quase mística. Em 1996, apenas um ano após o fim da guerra, o país já disputava suas primeiras eliminatórias para a Copa do Mundo de 1998. Desde então, a seleção se tornou um símbolo de unidade em uma nação etnicamente dividida entre bósnios, sérvios e croatas. Jogadores como Edin Dzeko, Miralem Pjanic e Asmir Begovic carregaram essa responsabilidade simbólica ao longo de suas carreiras.
A festa nas ruas de Sarajevo reflete não apenas a alegria de uma classificação, mas a consolidação de uma identidade nacional que ainda se constrói. Para os jovens bósnios nascidos após a guerra, esta Copa do Mundo será a primeira oportunidade de ver seu país competir no maior palco do esporte mundial.
O desafio de estrear entre gigantes
Tanto Iraque quanto Bósnia enfrentarão desafios monumentais na Copa do Mundo de 2026. Historicamente, seleções estreantes ou com pouca tradição no torneio enfrentam dificuldades para avançar da fase de grupos. Desde 1998, apenas duas seleções em situação similar conseguiram passar da primeira fase: a Turquia em 2002 e a Croácia em 1998, coincidentemente vizinha balcânica da Bósnia.
Para o Iraque, o maior obstáculo será manter a estabilidade da equipe em meio às constantes turbulências políticas do país. Vários jogadores da seleção atuam no exterior e dependem de autorizações especiais para retornar ao país para os jogos da equipe nacional. Já a Bósnia terá que lidar com as expectativas elevadas de uma geração talentosa que inclui alguns dos melhores jogadores da história do país.
"Estou realmente triste pela ausência da Itália na Copa", declarou o técnico da Argentina, Lionel Scaloni, em referência à eliminação da tetracampeã mundial, contrastando com a alegria das seleções classificadas.
Enquanto potências tradicionais como Itália ficaram de fora desta edição, criando uma melancolia expressa até mesmo por técnicos rivais, as classificações do Iraque e da Bósnia trazem uma narrativa de renovação ao torneio. São histórias que lembram que o futebol, em sua essência, permanece sendo o esporte capaz de unir povos e criar esperança onde ela parecia perdida.
A Copa do Mundo de 2026 será realizada em junho nos Estados Unidos, Canadá e México, dando tempo suficiente para ambas as seleções se prepararem adequadamente e sonharem com feitos históricos em solo norte-americano.

