A trajetória de Israel Adesanya no octógono passou por uma transformação radical nos últimos dois anos. O nigeriano-neozelandês, que já ostentou o cinturão dos pesos-médios do UFC por mais de três anos, acumula agora quatro derrotas consecutivas - um cenário impensável durante seu período de dominação entre 2019 e 2022, quando manteve 85% de striking accuracy e defendeu o título cinco vezes consecutivas.
Análise Técnica: O Declínio de um Striker de Elite
O último nocaute sofrido por Adesanya expôs limitações que vinham se acumulando desde sua primeira derrota para Alex Pereira em novembro de 2022. Durante seus anos de reinado, The Last Stylebender mantinha uma média de 4.2 strikes significativos por minuto e uma defesa de takedown de 94%, números que caíram drasticamente para 3.1 strikes por minuto e 78% de defesa nos últimos confrontos.
A evolução do jogo dos oponentes também contribuiu para essa queda. Enquanto Adesanya se especializou no striking de longa distância com sua envergadura de 203cm, adversários passaram a explorar o clinch e o ground game de forma mais efetiva. Sua defesa contra o rear naked choke, que antes era impecável, mostrou falhas cruciais nas duas últimas derrotas por finalização.
Sequência de Derrotas: Números que Preocupam
O cartel de Adesanya hoje mostra 24 vitórias e 4 derrotas, mas é a concentração dessas quatro derrotas que chama atenção. Desde setembro de 2022, ele não consegue embalar uma sequência de vitórias, algo que não acontecia desde seus primeiros anos no UFC. Seu finish rate despencou de 67% no período entre 2018-2021 para apenas 12% nos últimos oito confrontos.
A striking differential, métrica que mede a diferença entre golpes aplicados e recebidos, também revela o declínio: de +2.8 por round em seu auge para -0.7 nas últimas quatro lutas. Esses números indicam que Adesanya não apenas perdeu efetividade ofensiva, mas passou a absorver mais dano significativo.
Dados do período de declínio (2022-2024):
- Takedown accuracy: 33% (anteriormente 71%)
- Tempo médio no ground: 3min47s por luta (antes era 47 segundos)
- Submissions attempts sofridas: 11 (em toda carreira anterior: 3)
- Knockdowns sofridos: 4 (anteriormente 1 em toda carreira)
Reações do Mundo do MMA e Futuro Incerto
Veteranos como Daniel Cormier e Chael Sonnen foram categóricos ao afirmar que "a era de Adesanya terminou". Cormier, ex-campeão de duas categorias, destacou que lutadores com mais de 34 anos raramente conseguem reverter sequências negativas dessa magnitude no UFC moderno. Dos últimos 15 ex-campeões que sofreram quatro derrotas consecutivas, apenas dois conseguiram retomar o cinturão.
O próprio presidente do UFC, Dana White, sinalizou que uma pausa pode ser necessária. White mencionou que Adesanya precisa "reavaliar seu treinamento e possibly consider new camps", referindo-se à necessidade de mudanças estruturais em sua preparação.
A situação de Adesanya reflete um padrão comum no MMA de elite: a dificuldade de manter o nível quando o jogo evolui ao redor do lutador. Sua dependência excessiva do striking externo, combinada com uma ground game que não evoluiu na mesma proporção, criou um gap técnico explorado pelos oponentes atuais.
Especialistas em biomecânica do esporte também apontam para sinais de desgaste físico. Aos 35 anos, com 28 lutas profissionais no MMA e mais de 100 combates no kickboxing, Adesanya apresenta reflexos 15% mais lentos que em 2020, segundo análises de movimento realizadas pelo UFC Performance Institute.
Para retomar a elite da categoria, Adesanya precisará de ajustes fundamentais: desenvolvimento do wrestling defensivo, melhoria no clinch work e, principalmente, adaptação de seu striking game para cenários onde não pode manter a distância ideal. O caminho de volta ao topo passa necessariamente por uma reformulação técnica profunda, algo que poucos lutadores conseguem executar com eficácia após os 35 anos.
O legado de The Last Stylebender como um dos maiores strikers da história do MMA permanece intacto, mas sua capacidade de adaptar-se ao jogo moderno será o fator determinante para definir se esta sequência representa apenas uma fase ruim ou o fim definitivo de sua era como contender ao título dos pesos-médios do UFC.

