Quem faz questão de parecer calmo no banco de reservas quase sempre está fervendo por dentro. Jair Ribeiro Ventura não faz questão de parecer nada — e é exatamente isso que o torna diferente dos técnicos que o Brasileirão Série A de 2026 já descartou neste primeiro semestre.

Como ele lida com a estrela do elenco

O argumento mais fácil contra Ventura é que ele não tem um histórico de títulos que justifique autoridade sobre jogadores de alto valor de mercado. É um ponto válido, mas ignora uma variável concreta: treinadores sem troféus recentes frequentemente compensam com clareza de discurso e rigidez de critério — e Ventura opera exatamente nesse eixo.

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No Vitória, a estrela do elenco não recebe tratamento diferenciado na organização tática. O que ela recebe é responsabilidade explícita. Ventura não poupa os seus melhores quando o time perde posição — ele os expõe à pressão da coletividade, o que é, paradoxalmente, uma forma de respeito. Jogador que não é cobrado, não é considerado decisivo.

Essa postura tem custo: gera atrito pontual no vestiário. Mas o custo oposto — proteger a estrela e perder a confiança do restante do grupo — é infinitamente mais caro no longo prazo de uma Série A com 38 rodadas.

Como ele lida com o jovem em ascensão

Aqui mora o ponto mais revelador da gestão de Ventura. Treinadores que chegam a clubes de médio porte sem uma identidade tática consolidada tendem a apostar nos jovens por necessidade, não por convicção. Ventura faz diferente: ele usa o jovem como instrumento de pressão sobre o veterano, não como substituto de emergência.

O jovem em ascensão no elenco do Vitória sabe que tem uma janela real, mas também sabe que ela fecha se ele não entregar consistência. Essa dupla mensagem — oportunidade genuína com exigência real — é o que diferencia um ambiente de desenvolvimento de um ambiente de esperança vaga. Ventura não trabalha com esperança vaga.

A lógica é sustentada por um princípio simples: jovem que sente conforto demais para de crescer. O desconforto controlado, administrado por um treinador que sabe até onde empurrar, é o insumo mais valioso que um clube de menor orçamento pode oferecer. O Vitória, neste Brasileirão, depende disso.

Como ele lida com o veterano em queda

Este é o teste mais difícil para qualquer treinador — e onde muitos fingem que o problema não existe. O veterano em queda carrega capital político dentro do clube, tem relação com a torcida e, frequentemente, com a diretoria. Poupá-lo é politicamente seguro. Escalá-lo quando não está em condições é tecnicamente suicida.

Jair Ribeiro Ventura (Vitória)
Jair Ribeiro Ventura (Vitória)

Ventura resolve esse dilema com uma ferramenta simples: a conversa direta antes da decisão pública. O veterano que vai perder espaço soube disso no corredor, não na escalação publicada nas redes sociais. Esse detalhe parece protocolar, mas tem efeito concreto no clima do grupo — o jogador não se sente humilhado, e o restante do elenco percebe que o treinador tem coragem de falar o que pensa, o que, por si só, já é raro no futebol brasileiro.

A gestão do veterano em queda, quando feita com essa combinação de honestidade e antecipação, evita o maior problema de vestiário que existe: o ressentimento silencioso que contamina reuniões, treinos e, eventualmente, resultados. Num campeonato publicado em matéria do SportNavo como um dos mais equilibrados dos últimos anos, contaminar o ambiente interno é sentença de rebaixamento.

O ambiente que ele cria no vestiário

O contra-argumento mais recorrente sobre técnicos com carreira ainda em construção é que eles não têm a gravidade necessária para segurar um vestiário em crise. A premissa é falsa. Gravidade não vem de currículo — vem de coerência entre o que se fala e o que se faz. E Ventura, aos 47 anos, já entendeu isso.

O ambiente que ele constrói no Vitória em 2026 é baseado em três pilares concretos: hierarquia clara (todo mundo sabe quem decide), critério explícito (todo mundo sabe por que foi escalado ou não) e consequência real (quem não entrega perde espaço, independentemente do nome). Esses três pilares são básicos na teoria, mas raros na prática do futebol nacional.

O risco do modelo é a rigidez excessiva. Um vestiário que funciona como hierarquia pura pode perder capacidade de improvisação nos momentos em que o jogo exige soluções fora do roteiro. Ventura precisa demonstrar, nas rodadas que restam do Brasileirão Série A, que sabe quando abrir exceção sem destruir a regra.

Até o final de outubro de 2026, saberemos se o ambiente que ele construiu resiste à pressão de uma reta final de campeonato — que é, em última análise, o único teste que importa.