Diz-se que França e Inglaterra chegaram à Copa do Mundo de 2026 como as seleções mais completas do torneio. Mario Kempes discorda — e o motivo importa mais do que a opinião em si. O artilheiro que marcou seis gols no Mundial de 1978 e levantou a taça no Monumental de Núñez assistiu praticamente a todos os jogos da primeira rodada e chegou a uma conclusão que vai na contramão do consenso europeu: a Argentina de Lionel Messi foi a melhor seleção que ele viu em campo até agora.

O número que Kempes usou para fechar o argumento

A lógica do Matador não é sentimental. Em entrevista à Rádio Rivadavia AM 630, com Nelson Castro, Kempes foi cirúrgico na comparação: "França e Inglaterra sacaram os partidos adelante, Ecuador, Paraguay e Uruguay no pudieron, pero la mejor fue Argentina". Traduzindo para o contexto técnico: as europeias venceram, mas com dificuldade visível. A Argentina, diante da Argélia, não apenas venceu — apresentou um futebol que Kempes reconheceu como qualitativamente superior ao de qualquer outro candidato ao título na estreia.

Messi marcou três gols nessa partida de abertura. Três. Com 39 anos. Para quem acompanha a história das Copas desde os anos 70, o dado tem peso específico: nenhum jogador com essa idade havia entrado num Mundial como protagonista ofensivo desde que o torneio passou a ter 32 seleções, em 1998. O paralelo que vem à cabeça é o de Dino Zoff, que levantou a taça em 1982 com 40 anos — mas como goleiro, numa posição que envelhece de forma diferente.

"A Messi no le podés dar un metro. Pensás que está cansado o que está desconectado del partido, pero en una jugada te cambia el ritmo y te hace pasar vergüenza. Es increíble que a su edad siga manteniendo esa lucidez y esa velocidad mental para destrozar defensas."

Essa frase de Kempes captura algo que os números de xG e passes progressivos não conseguem medir completamente: a capacidade de Messi de existir em estado de semi-presença e, num segundo, reconfigurar toda a geometria defensiva adversária. Quem viu Romário fazer isso nos anos 90 — especialmente na Copa de 1994 — reconhece o padrão. O corpo desacelera, a mente não.

Scaloni entre Menotti e Bilardo, sem ser nenhum dos dois

A comparação que Kempes fez com os treinadores históricos da Argentina merece atenção redobrada, porque vem de alguém que jogou sob Menotti em 1978 e acompanhou de perto o ciclo de Bilardo nos anos 80. "Scaloni hizo una revolución de la Selección argentina como la hizo Menotti, pero no había tanta experiencia de los jugadores como hay ahora. En el 86 Bilardo tuvo a Diego, ahora Scaloni lo tiene a Messi como líder, lo utiliza pero no lo desgasta y eso es una gran virtud", analisou o ex-atacante do Valencia e do River Plate.

Quando Menotti chegou à seleção argentina em 1974, herdou um grupo sem identidade clara e levou quatro anos construindo uma filosofia. Quando Scaloni assumiu em 2018, após o fiasco da Copa da Rússia, o desafio era parecido — mas o elenco tinha uma diferença estrutural decisiva: jogadores com 200, 300, 400 partidas de Champions League nas pernas. Kempes enxerga essa maturidade coletiva como o fator que torna o ciclo atual singular na história recente da Albiceleste.

Quando Bilardo tinha Maradona em 1986, o utilizava como eixo absoluto de tudo — o argentino tocou em 90% das jogadas de gol da seleção no México. Quando Scaloni tem Messi em 2026, distribui a carga de forma diferente: o camisa 10 aparece menos nas construções intermediárias e mais nos momentos decisivos, o que preserva energia muscular sem reduzir impacto. É a diferença entre um maestro que rege todas as notas e um que escolhe quando entrar.

A pressão de 45 milhões de argentinos e o que ela revela sobre o torneio

No futebol, quem não tem cão caça com gato — e Kempes sabe disso melhor do que ninguém. Em 1978, a Argentina não tinha o melhor elenco do mundo no papel; tinha Kempes, tinha Ardiles, tinha Luque, e tinha 77.000 pessoas no Monumental empurrando cada jogada. A pressão virou combustível. Hoje, o Matador reconhece que o peso é ainda maior: "Los que están dentro de la cancha tienen una pequeña presión: 45 millones de argentinos están pendientes de lo que haga la Selección", disse, com a ironia seca de quem viveu isso na pele.

A diferença em 2026 é que essa pressão encontra um grupo temperado por três anos e meio de convivência — algo raro no futebol moderno, onde calendários com 70 jogos por temporada fragmentam a coesão de qualquer elenco. Kempes tocou nesse ponto com precisão: "Hoy se juegan muchos partidos en la temporada y se agrega uno más en el Mundial. El problema es que venís de tres años y medio". A frase soa como elogio disfarçado de alerta — e é exatamente isso.

O espanto de Kempes com o empate da Espanha diante de Cabo Verde também diz algo sobre o torneio: Copas com 48 seleções ampliam a margem para surpresas na fase de grupos, o que torna o rendimento da Argentina na estreia ainda mais revelador. Enquanto candidatos tropeçavam ou sofriam, a Copa do Mundo ganhou, logo de cara, uma seleção que parece saber exatamente o que quer. A Argentina enfrenta sua segunda partida na fase de grupos nos próximos dias, e Scaloni não deu sinais de que pretende alterar a estrutura que funcionou tão bem contra a Argélia.