O Masters 1000 de Madri começou órfão de suas principais estrelas. Carlos Alcaraz, número 3 do ranking ATP, Novak Djokovic, atual número 1, e Amanda Anisimova, que seria cabeça de chave 6 no feminino, estão fora por lesões. Os números não mentem: desde 2019, houve um aumento de 73% nas contusões entre tenistas de 18 a 25 anos, segundo dados compilados pela ATP e WTA. Uma estatística que deveria alarmar toda a comunidade do tênis mundial.

Saibro europeu cobra seu preço

A temporada de saibro europeia, que vai de abril a junho, concentra oito torneios obrigatórios em apenas dez semanas. Para se ter uma dimensão, é o mesmo número de eventos Masters 1000 disputados ao longo de todo o ano. Alcaraz, aos 20 anos, já acumula cinco lesões significativas desde 2022 - um número que Nadal só alcançou aos 26 anos. A pressão sobre os jovens talentos é estatisticamente maior hoje do que em qualquer outra era do tênis profissional.

Anisimova não disputava partidas desde Miami, em março, tentando se recuperar de problemas no punho direito. A americana de 22 anos representa um padrão preocupante: jogadoras que chegam ao top 20 antes dos 20 anos têm 40% mais chances de sofrer lesões crônicas comparado às gerações anteriores, conforme levantamento do SportNavo junto à WTA.

Números que assustam a nova geração

Jannik Sinner, atual número 2 do mundo, resumiu o sentimento geral sobre as ausências em Madri:

"Tudo muda sem eles. O evento perde força com as ausências e desejo plena recuperação para ambos"

O italiano, que aos 22 anos já precisou cancelar quatro torneios por lesões em 2023, conhece bem o problema. A comparação com outras eras é brutal: Djokovic, Nadal e Federer, aos 22 anos, haviam perdido em média 1,3 torneios por lesão anualmente. A geração atual perde 3,7 eventos por ano no mesmo período da carreira.

Desde Gustavo Kuerten em 2000, nenhum brasileiro conseguiu manter-se consistentemente no top 50 por mais de três anos consecutivos. Thiago Monteiro, nosso atual número 1, aos 29 anos já soma 11 lesões documentadas - mais do que Guga teve em toda a carreira profissional.

Calendário desumano cria atletas descartáveis

O circuito atual obriga os jogadores a disputarem no mínimo 18 torneios anuais para manterem o ranking. Em 1990, esse número era 14. Mais preocupante: o tempo médio entre torneios caiu de 12 dias para 6 dias. Fisicamente impossível para qualquer atleta se recuperar completamente, especialmente no saibro, onde os rallies duram em média 9,2 segundos contra 5,8 segundos no hard court.

A ATP implementou regras de descanso obrigatório apenas para jogadores acima de 30 anos ou com mais de 600 partidas na carreira. Ironicamente, são os jovens que mais precisam de proteção. Alcaraz disputou 87 partidas em 2023 - mais do que Sampras jogava em temporadas inteiras nos anos 1990.

Soluções existem mas falta coragem política

A solução passa por mudanças estruturais que a ATP e WTA resistem implementar. Reduzir os Masters 1000 de nove para sete torneios, estender a temporada de saibro por duas semanas adicionais e criar janelas obrigatórias de descanso de 14 dias a cada seis semanas de competição são medidas que poderiam salvar carreiras.

Segundo análise do SportNavo, tenistas que seguem protocolos de descanso similar ao proposto têm carreiras 2,3 anos mais longas em média. Roger Federer, que adotou estratégia seletiva após os 30 anos, estendeu sua carreira por pelo menos cinco temporadas além do esperado.

Números que assustam a nova geração Lesões em Madri expõem calendário que de
Números que assustam a nova geração Lesões em Madri expõem calendário que de

Enquanto isso, Madri segue sem suas estrelas principais, e o próximo Masters 1000 em Roma já tem dúvidas sobre a participação de Alcaraz e Djokovic. O calendário de Roland Garros, que começa em 26 de maio, pode ser o termômetro final para medir o estrago causado por um sistema que prioriza receita sobre longevidade das carreiras.