Aos 30 minutos do segundo tempo no Estádio Brinco de Ouro, em Campinas, um cruzamento de Wendell encontrou Luciano na área e encerrou qualquer discussão sobre o placar — e abriu uma nova conversa sobre o lugar do atacante na história do São Paulo. O gol que selou o 1 a 0 sobre o Mirassol, na 13ª rodada do Campeonato Brasileiro, foi também o de número 66 do camisa 10 pelo Tricolor no torneio, superando os 65 de Rogério Ceni, ídolo máximo e ex-goleiro artilheiro que virou referência para toda uma geração são-paulina.

O peso simbólico de superar um mito

Rogério Ceni não era um artilheiro convencional. Seus 65 gols pelo São Paulo no Brasileirão foram marcados majoritariamente em cobranças de falta e pênaltis ao longo de quase duas décadas com a camisa tricolor — números construídos numa posição em que marcar um único gol já seria extraordinário. Superar esse total como centroavante diz menos sobre Ceni e muito mais sobre a consistência de Luciano desde que chegou ao clube em 2020. Em cinco temporadas, o atacante acumula 110 gols com a camisa do São Paulo em todas as competições, uma média que, segundo levantamento do SportNavo, o coloca entre os cinco jogadores mais produtivos do clube no século.

"Fico muito feliz, estou atingindo grandes marcas no clube, espero que não pare por aí. São grandes jogadores, grandes ídolos da história do São Paulo, que não dá nem para comparar. Fico feliz em fazer o meu trabalho", disse Luciano em entrevista após a partida contra o Mirassol.

A fala do jogador revela uma postura estratégica diante da comparação inevitável. Ao recusar o confronto direto com os nomes históricos, Luciano se protege da pressão simbólica e mantém o foco no acúmulo — exatamente o que tem funcionado para ele dentro de campo.

A lista e o que os números revelam

Com 66 gols, Luciano ocupa agora isoladamente a terceira posição na artilharia histórica do São Paulo no Brasileirão. Acima dele estão apenas Serginho Chulapa, com 83 gols — grande parte marcada no formato de pontos corridos ainda embrionário nos anos 1980 —, e Luis Fabiano, com 108, o maior artilheiro do clube na competição. No recorte específico da era dos pontos corridos, iniciada em 2006 no modelo atual, Luciano já figura como vice-artilheiro, atrás apenas de Luis Fabiano. A distância para Chulapa é de 17 gols; para o Fabuloso, outros 25 além disso.

A sequência recente do atacante alimenta qualquer projeção. O gol contra o Mirassol foi o quarto consecutivo marcado por Luciano, que também balançou as redes diante de O'Higgins, Vasco e Juventude. Na temporada de 2025, são oito gols e três assistências em 23 jogos — números que sustentam uma média de participação direta em gol a cada dois jogos e meio.

O cenário tático e a sombra da lesão

A vitória sobre o Mirassol foi construída num ambiente politicamente delicado para o São Paulo. Os 15.700 torcedores presentes no Brinco de Ouro — palco alternativo adotado pelo clube por conta de uma manutenção no gramado do Morumbis para um evento musical — vaiaram o técnico Roger Machado apesar do triunfo. Luciano usou o microfone do pós-jogo para blindar o treinador, sinalizando que o elenco está alinhado internamente mesmo diante da pressão externa. A coesão do grupo, nesse contexto, é um ativo que Roger Machado precisa preservar para sustentar o G4, onde o Tricolor chegou com 23 pontos após 13 rodadas.

"Os jogadores estão fechados com o treinador diante das críticas externas", afirmou Luciano, deixando claro o posicionamento do elenco em relação à comissão técnica.

O único sinal de alerta veio no final da partida, quando Luciano deixou o gramado com uma bolsa de gelo aplicada na panturrilha direita. A comissão médica do clube avalia a extensão do problema, e a tendência, conforme apuração do SportNavo, é que o atacante seja poupado do próximo compromisso para preservar condições físicas a médio prazo.

A perseguição a Luis Fabiano e o que está em jogo

Alcançar os 108 gols de Luis Fabiano no Brasileirão exige que Luciano mantenha uma regularidade severa por mais duas ou três temporadas. Com 66 tentos, a distância é de 42 gols — um número que, à média atual de aproximadamente 12 a 14 gols por campeonato em anos completos, sugere um prazo de três a quatro anos. O atacante tem contrato vigente com o São Paulo, e qualquer renovação ou extensão será determinante para tornar essa perseguição factível.

O São Paulo volta a campo na próxima terça-feira, dia 28, às 21h30, quando enfrenta o Millonarios-COL em Bogotá, na fase de grupos da Copa Sul-Americana, defendendo a liderança da competição continental. A presença ou ausência de Luciano nesse jogo será o primeiro termômetro real sobre a gravidade do desconforto na panturrilha — e, consequentemente, sobre o ritmo em que o camisa 10 seguirá sua caçada à história do clube.