"A Itália combina com meu estilo. Se eu soubesse, teria me mudado antes para cá." A frase é de Lukaku — dita tempos atrás, quando ainda construía sua identidade no futebol europeu. Hoje, o centroavante do Napoli não precisa mais explicar onde se encaixa: os números falam por ele com uma clareza que dispensa tradução.

90 gols e uma posição no ranking que a Europa não esquecerá tão cedo

Romelu Lukaku entrou em campo aos 27 minutos do segundo tempo no amistoso da Bélgica contra a Croácia, em 2 de julho, com a seleção já vencendo por 1 a 0 graças ao gol de Tielemans. Nos acréscimos, aos 50 minutos, o camisa 9 marcou o segundo gol da vitória por 2 a 0 — e, com ele, atingiu a marca de 90 gols em 125 jogos pela seleção belga. O número foi suficiente para ultrapassar Robert Lewandowski (89 gols em 166 jogos pela Polônia) e cravar o segundo lugar no ranking de artilheiros de seleções europeias, atrás apenas de Cristiano Ronaldo, que soma 143 gols em 226 partidas por Portugal.

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A diferença estatística entre Lukaku e Lewandowski vai além do placar: o belga precisou de 41 jogos a menos para alcançar a mesma faixa de gols, o que coloca sua média de conversão em patamar superior. Completam o top 5 europeu Ferenc Puskás (84 gols em 89 jogos por Hungria e Espanha) e Harry Kane (78 gols em 112 jogos pela Inglaterra).

A lesão na coxa e o teste de fogo antes do Mundial

O gol contra a Croácia teve peso duplo para a comissão técnica belga: além do valor histórico, foi a primeira resposta concreta de Lukaku após um período de incerteza física. O atacante não atuava desde 6 de março, quando sofreu uma lesão na coxa esquerda enquanto defendia o Napoli na Serie A. A gravidade do problema levou o staff médico a ser conservador: em março, Lukaku abriu mão dos amistosos da Bélgica contra Estados Unidos e México para focar exclusivamente na recuperação.

O contexto clubístico também preocupava: pelo Napoli na temporada 2025/2026, Lukaku havia marcado apenas um gol em sete jogos antes do amistoso. Números modestos para um centroavante de sua estatura, que funcionam como trator de espaços dentro da área — aquele tipo de jogador que não precisa tocar muito na bola para ser determinante, mas que, sem ritmo de jogo, perde a explosão nos metros finais. A Bélgica terá ainda o amistoso contra a Tunísia no próximo sábado para dar mais minutos ao atacante antes da estreia no Mundial.

Robert Lewandowski (Barcelona)
Robert Lewandowski (Barcelona)
"O Lukaku fala português fluentemente e tem enorme admiração e respeito pela cultura brasileira. Dentro de campo, sempre conseguiu unir força física, qualidade técnica e inteligência. É um dos principais atacantes do futebol mundial e um atleta extremamente dedicado", afirma Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management no Brasil, agência que administra a carreira do jogador.

O maior artilheiro belga em Copas do Mundo — e o que isso representa

A Copa do Mundo 2026 já elevou Lukaku a um patamar inédito na história do futebol belga. Com 4 gols marcados até as quartas de final, ele se isolou como o maior artilheiro da Bélgica em Mundiais, superando Marc Wilmots, que acumulava 5 gols ao longo da carreira. Lukaku agora soma 7 gols em Copas, distribuídos em quatro edições: estreou com gol em 2014, no Brasil; marcou quatro vezes em 2018, na Rússia, quando a seleção conquistou o bronze; ficou em branco em 2022, no Catar; e retomou a veia goleadora nesta edição.

Um dos momentos mais emblemáticos desta Copa veio na vitória dramática sobre o Senegal por 3 a 2. A Bélgica perdia por 2 a 0 quando Lukaku descontou aos 40 minutos do segundo tempo, após assistência de Tomas Meunier, iniciando a reação que culminou na classificação às oitavas. Antes disso, havia marcado de cabeça na goleada por 5 a 1 sobre a Nova Zelândia na fase de grupos.

"Eu sempre segui o Anderlecht. Com certeza vou retornar. A atração para um jogador que esteve lá quando jovem é muito grande", disse Lukaku ao canal belga VTM, revelando o desejo de encerrar a carreira no clube que o formou em Bruxelas.

A formação no Anderlecht e a conexão com o português

Revelado pelo Anderlecht, Lukaku iniciou sua trajetória profissional no clube belga ainda adolescente, percorrendo as categorias de base até se firmar no plantel principal. Foi no Anderlecht que construiu não apenas sua base técnica, mas também um vínculo inesperado com a cultura brasileira: a amizade com o ex-meia Fernando Canesin, seu companheiro em 2009, fez com que Lukaku aprendesse português fluentemente — detalhe que o tornou querido entre torcedores brasileiros ao longo dos anos. Depois do clube belga, acumulou passagens por Everton, Manchester United, Chelsea, Internazionale e Napoli.

A estreia da Bélgica na Copa do Mundo 2026 está marcada para 15 de junho, contra o Egito. Com Lukaku já nas quartas de final e em processo de recuperação de ritmo, a seleção belga chega ao mata-mata com seu principal trunfo funcionando — mesmo que ainda não em velocidade máxima. É o mesmo cenário que a Bélgica viveu em 2018, quando Lukaku chegou ao torneio com questões físicas e terminou como um dos centroavantes mais determinantes do torneio — só que agora a aposta é por um título que, em toda a história do país, ainda não veio.