Aos 47 minutos do segundo tempo, Riyad Mahrez bateu no canto de Schlager, virou o placar para 3 a 2 e transformou o Arrowhead Stadium em Kansas City num caldeirão de ruídos contraditórios — vaias de segundos antes viraram grito de gol, e a Áustria estava, naquele instante, eliminada da Copa do Mundo. Três minutos depois, Sasa Kalajdzic cabeceou no contrapé de Benbot e o 3 a 3 foi decretado. Argélia e Áustria, que haviam sido vaiadas por jogar no piloto automático com o empate classificando os dois lados, terminaram a noite de sábado (27) como protagonistas de um dos desfechos mais dramáticos da fase de grupos.
O jogo que começou sob suspeita e ganhou seis gols
Antes da bola rolar, a aritmética do Grupo J era transparente demais: Argélia e Áustria somavam três pontos cada, e um empate classificava ambas. O Irã, com um ponto, dependia de uma derrota argelina para avançar como melhor terceiro. O cenário alimentou comparações imediatas com o episódio mais vergonhoso da história entre as duas seleções — o chamado "Jogo da Vergonha" de 1982, quando Alemanha Ocidental e Áustria combinaram um resultado que eliminou exatamente a Argélia. Quarenta e quatro anos depois, os papéis estavam embaralhados, e a desconfiança era palpável nas arquibancadas do Missouri.
O primeiro tempo confirmou parte do temor: muitos erros de passe, poucas finalizações e um ritmo que beirava o entorpecimento. A partida só ganhou forma depois da parada para hidratação. Aos 27 minutos, David Alaba acertou um lançamento preciso para Marko Arnautovic, que dominou meio caindo e tocou na saída do goleiro Benbot para abrir o placar. O gol colocava a Áustria na segunda posição do grupo e empurrava a Argélia para fora da zona dos melhores terceiros — o que, na prática, significava eliminação para os africanos.
A resposta argelina veio antes do intervalo. Mahrez manteve a bola viva pela direita, Chaïbi acertou a trave em tentativa anterior, e Rafik Belghali apareceu para completar e deixar tudo igual. O 1 a 1 no descanso recolocava as duas seleções na zona de classificação e tirava o Irã da disputa — ao menos provisoriamente.
Sabitzer abre, Mahrez empata e o marasmo toma conta
O segundo tempo começou com a Áustria mais agressiva, fruto de três substituições feitas pelo técnico Ralf Rangnick no intervalo. Aos nove minutos, Konrad Laimer ganhou a disputa pela direita, chegou à linha de fundo e cruzou rasteiro. A bola passou por Gregoritsch e encontrou Marcel Sabitzer, que bateu de primeira no canto esquerdo de Benbot para fazer 2 a 1. A Argélia voltava a ficar fora da Copa.
Cinco minutos depois, Houssem Aouar fez boa jogada pela esquerda, cruzou rasteiro e encontrou Mahrez livre na segunda trave. O capitão argelino empurrou para o gol vazio — seu primeiro gol na partida — e restabeleceu o 2 a 2. Com o empate garantindo a classificação de ambos, o jogo esfriou visivelmente. As equipes passaram a trocar passes no meio-campo, evitando qualquer risco, e as vaias tomaram conta do Arrowhead Stadium. O Irã, que acompanhava o placar de longe, estava eliminado.
Quantas vezes na história da Copa um jogo que parecia morto ressuscitou tão completamente nos últimos cinco minutos?
Mahrez vira, Kalajdzic empata e a história muda em três minutos
Aos 47 minutos, após longa troca de passes, Mahrez recebeu dentro da área, ficou cara a cara com o goleiro Alexander Schlager e finalizou no canto para fazer 3 a 2. O gol que parecia improvável — afinal, a Argélia estava classificada com o empate — colocou a Áustria à beira da eliminação e, por consequência, reabriu as portas para o Irã avançar como melhor terceiro colocado. As vaias se transformaram em euforia argelina.
Rangnick jogou tudo na mesa e lançou Kalajdzic em campo. Aos 50 minutos, no último lance da partida, Sabitzer cruzou, Gregoritsch escorou e o recém-entrado Kalajdzic cabeceou no contrapé de Benbot para decretar o 3 a 3. O Irã voltou a ser eliminado. A Argélia seguiu classificada. A Áustria respirou.
Em zona mista após o apito final, Mahrez foi questionado sobre o gol nos acréscimos que quase eliminou os austríacos.
"Sinceramente, sei que foi um pouco estranho. Tenho que respeitar o futebol, e a bola chegou na frente do goleiro, então eu tinha que marcar", disse o camisa 7 argelino, que terminou a noite com dois gols e uma assistência — participando dos três tentos da Argélia.
O atacante também deixou claro que não via contradição em tentar vencer mesmo com o empate sendo suficiente.
"Tinha que tentar marcar, assim como eles também tentaram. Quando eles estavam na frente, estavam ganhando por 2 a 1. Sei que é uma situação delicada, mas é futebol. Nós dois nos classificamos, e isso é o mais importante hoje", completou Mahrez.
O que esperar de Argélia e Áustria no mata-mata
A Áustria encerrou a fase de grupos na segunda colocação do Grupo J, com quatro pontos, atrás apenas da Argentina, que terminou com nove. A classificação marca o retorno dos austríacos à segunda fase de uma Copa do Mundo pela primeira vez desde 1982 — o mesmo torneio do "Jogo da Vergonha". Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da fase de grupos, a seleção de Rangnick mostrou capacidade de reação, mas ainda apresenta fragilidades defensivas que a Espanha, seu próximo adversário, certamente explorará.
A Argélia somou os mesmos quatro pontos, mas avançou como uma das melhores terceiras colocadas — possibilidade criada pelo novo formato da Copa, disputada por 48 seleções. Com Mahrez em forma e participando diretamente de todos os gols argelinos na partida, as Raposas do Deserto chegam confiantes para enfrentar a Suíça no BC Place, em Vancouver, na sexta-feira (3 de julho) — a Áustria enfrenta a Espanha no mesmo dia, com o peso de saber que um novo milagre nos acréscimos dificilmente se repetirá.








