Três coisas: Catar 2022, Copa do Mundo 2026 e o placar de 1 a 1 no grupo. Tudo que separa o Brasil de Marrocos no futebol mundial contemporâneo se explica a partir dessas três coordenadas — e a conclusão, para quem acompanha seleções desde a era Zagallo, é mais incômoda do que qualquer derrota isolada.

O que Marrocos construiu enquanto o Brasil girava em falso

Reparemos no detalhe que a euforia pós-Copa frequentemente obscurece: Marrocos não chegou às quartas de final da Copa do Mundo de 2026 por acidente. A seleção comandada por Walid Regragui é o produto de uma construção sistemática que começou a ganhar forma visível no Catar, em dezembro de 2022, quando os marroquinos eliminaram Portugal por 1 a 0 nas quartas — com gol de Youssef En-Nesyri — e só pararam diante da França de Mbappé nas semifinais. Naquela edição, tornaram-se a primeira seleção africana a alcançar as quatro últimas equipes de um Mundial.

Quatro anos depois, em 2026, o roteiro se repetiu com variações: empate por 1 a 1 com o Brasil na fase de grupos, avanço consistente no mata-mata e eliminação nas quartas justamente contra a França, adversário que expôs os limites físicos do esquema marroquino sem, contudo, apagar o mérito da campanha. Como observou Juca Kfouri no programa Posse de Bola, do Canal UOL:

"Foi semifinalista da última Copa. Jogou nas quartas de final nessa, contra a poderosa França. Finalista da Copa Africana. Então quando a gente falava, até há algum tempo atrás, na Marrocos, Marrocos está muito melhor do que a gente, pessoal."

Dois Mundiais seguidos entre os oito melhores do planeta. Esse dado, por si só, já coloca Marrocos numa faixa de desempenho que o Brasil não atinge desde 2002, quando Ronaldo marcou dois gols na final contra a Alemanha e garantiu o pentacampeonato em Yokohama. Nas quatro edições seguintes — 2006, 2010, 2014 e 2018 —, o Brasil chegou ao máximo às quartas de final, sendo que em 2014 sofreu o histórico 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, em Belo Horizonte, e em 2018 foi eliminado pela Bélgica por 2 a 1, em Kazan.

A eliminação para a Noruega e o peso de uma expectativa sem fundamento

A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, terminou para o Brasil nas oitavas de final, diante de uma Noruega que tem em Erling Haaland seu símbolo mais evidente de uma geração construída com critério. A derrota doeu não apenas pelo placar, mas pelo que revelou sobre o estágio real da seleção comandada por Carlo Ancelotti: um grupo que chegou ao torneio em processo de reconstrução, não de consolidação.

Historicamente, o Brasil foi ao Mundial de 2006 com um elenco que incluía Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Kaká, Ronaldo e Roberto Carlos — talvez a última geração que justificava o rótulo de favorita com base em futebol, e não em tradição. Naquele torneio, caímos para a França de Zidane nas quartas, por 1 a 0, gol de Thierry Henry. Desde então, o que se viu foi uma sequência de ciclos incompletos: o pragmatismo de Dunga em 2010, o trauma de Belo Horizonte em 2014, a campanha tecnicamente sólida mas taticamente limitada de Tite em 2018 e 2022.

O jornalista José Trajano, em análise publicada no Posse de Bola e reproduzida em matéria do SportNavo, foi categórico ao situar o Brasil numa hierarquia que muitos torcedores relutam em aceitar:

"Aquele patamar que está a França lá em cima, talvez a Espanha, um pouco abaixo é a Inglaterra, ou a Argentina. Nós não estamos na mesma prateleira de Marrocos, nós estamos bem abaixo."

Ronaldo (Bahia)
Ronaldo (Bahia)

A frase é dura, mas os números a sustentam. Nos últimos dois Mundiais, Marrocos acumulou seis vitórias, dois empates e duas derrotas em dez partidas. O Brasil, no mesmo período, somou cinco vitórias, dois empates e três derrotas — com eliminação nas quartas em 2022, para a Croácia nos pênaltis, e nas oitavas em 2026, para a Noruega.

Categorias de base e o fosso que ninguém quer ver

A comparação entre as duas seleções não se limita às equipes principais. Trajano citou explicitamente o desempenho nas divisões de base como critério de avaliação — e esse é um campo onde o Brasil, que venceu o Mundial Sub-20 em 2003 (com Robinho e Diego) e em 2011 (com Oscar e Neymar), não conquista o título desde há mais de uma década. Marrocos, por sua vez, tem investido sistematicamente nas categorias jovens, com jogadores formados em academias europeias retornando para defender as cores nacionais — um modelo que a França utilizou com êxito desde os anos 1990 e que os marroquinos adaptaram com inteligência.

Ronaldo (Bahia)
Ronaldo (Bahia)

O analista Danilo Lavieri trouxe uma nuance relevante ao debate ao comparar o comportamento tático de Marrocos nos dois jogos que disputou na Copa de 2026 — contra o Brasil e contra a França:

"Eu vi diferente. Eu não acho que o Marrocos não quis ter a bola, eu acho que o Marrocos não conseguiu. Então eu acho que o plano de jogo de Marrocos era o mesmo do plano contra o Brasil, só que eles não conseguiram executar. Tem uma diferença entre querer e poder."
A observação de Lavieri é pertinente: Marrocos jogou da mesma forma contra adversários de níveis distintos, o que revela identidade tática — algo que o Brasil de Ancelotti demonstrou com muito menos clareza ao longo do torneio.

O que o Brasil precisa reconstruir antes do próximo ciclo

Veja-se isto: entre 1994 e 2002, o Brasil disputou três finais de Copa do Mundo — perdendo para a França em 1998, por 3 a 0, e vencendo a Alemanha em 2002, por 2 a 0 — e construiu uma hegemonia que justificava o favoritismo. Nos 24 anos seguintes, o país mais vitorioso da história do torneio não chegou sequer a uma semifinal. São quatro eliminações consecutivas antes das quartas ou nas quartas, e agora uma nas oitavas.

A questão estrutural mais urgente não é o técnico — Ancelotti, com toda sua experiência em clubes como Real Madrid, Bayern de Munique e Milan, chegou ao cargo sem tempo hábil para imprimir uma identidade consistente. O problema está na ausência de um projeto de formação que conecte as categorias de base à seleção principal com critério e continuidade. Marrocos resolveu isso ao criar uma ponte entre os jogadores que atuam na Europa — Hakim Ziyech, Achraf Hakimi, Sofyan Amrabat — e uma estrutura nacional coerente. O Brasil, ao contrário, ainda depende de talentos individuais como Vinicius Jr. e Rodrygo para criar desequilíbrio, sem um sistema que amplifique essas qualidades.

A CBF tem pela frente uma decisão que vai muito além da escolha do próximo técnico: definir se o Brasil quer competir com projetos de médio prazo ou continuar apostando em ciclos de quatro anos que chegam aos Mundiais mais como esperança do que como realidade. O próximo torneio continental, a Copa América de 2027, será o primeiro termômetro real dessa reconstrução — e o calendário das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030 já começa a pressionar a federação por respostas concretas antes do fim de 2026.