Segunda-feira, 22 de junho de 2026. Em Dallas, no AT&T Stadium, Lionel Messi bateu uma bola ao chão nos nove minutos do primeiro tempo, correu em direção à marca do pênalti e chutou para fora. Não foi defendida. Simplesmente saiu pela linha de fundo, sem que o goleiro austríaco Alexander Schlager precisasse se mover. Trinta e um minutos depois, o mesmo jogador recebia um passe de Facundo Medina, aproveitava um corta-luz de Thiago Almada e finalizava de primeira para se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, com 17 gols em seis edições do torneio. A distância entre o erro e o recorde coube dentro de um único tempo de jogo — e essa tensão diz tudo sobre o fenômeno que estamos tentando compreender.
A narrativa do pênalti perdido e o que ela distorce
Circula nas redes sociais, e em parte da imprensa, a ideia de que Messi tem um problema crônico com cobranças de pênalti em Copas. Os números alimentam essa leitura: em cinco cobranças na competição, ele converteu apenas duas — um aproveitamento de 40%, muito abaixo dos 78% registrados ao longo de sua carreira em clubes e seleção em outros torneios. Messi se tornou, segundo levantamento da Revista Placar, o primeiro jogador da história a perder pênaltis em três Copas consecutivas, superando o ganês Asamoah Gyan no ranking negativo de cobranças desperdiçadas no tempo regulamentar do Mundial.
Mas reduzir esse dado a um "problema psicológico" ou a uma "fraqueza técnica" seria uma simplificação metodologicamente preguiçosa. Cada uma das três cobranças perdidas ocorreu em contextos radicalmente distintos. Em 2018, na Rússia, o goleiro islandês Hannes Halldórsson — que também trabalha como cineasta fora das quatro linhas — defendeu um chute colocado no canto esquerdo. Foi uma defesa de mérito. Em 2022, no Qatar, o polonês Wojciech Szczęsny antecipou a direção da cobrança e fez a defesa que, curiosamente, não impediu a vitória argentina por 2 a 0 sobre a Polônia. Em 2026, contra a Áustria, não houve intervenção do goleiro: a bola saiu pela linha de fundo. Três erros, três mecanismos distintos de falha.
O que os três pênaltis perdidos têm em comum
Há um fio condutor que conecta as três cobranças, e ele é estrutural, não técnico. Messi cobra pênaltis com uma abordagem que prioriza a colocação sobre a potência — uma escolha estilística que maximiza o aproveitamento quando executada com precisão milimétrica, mas que oferece margem de erro menor do que cobranças de força. Goleiros que estudam seu histórico identificam uma preferência pelo canto direito do goleiro (esquerdo de Messi, que bate com a perna esquerda), padrão que Halldórsson explorou em 2018. A resposta de Messi, nas edições seguintes, foi variar a direção — mas a variação, sob pressão extrema, aumenta a incidência de erros de execução.
Xavi Hernández, seu ex-companheiro no Barcelona de Pep Guardiola, ofereceu uma chave interpretativa relevante em entrevista ao New York Times durante esta Copa:
"A mentalidade dele é extraordinária. Para mim, é isso que o diferencia. Ele não suporta perder. Tem o temperamento perfeito para o futebol e o físico perfeito: seu corpo é feito sob medida para o esporte."
A observação de Xavi, que conhece Messi desde os 16 anos do argentino no clube catalão, aponta para uma dimensão que os dados brutos não capturam: a intolerância à derrota pode, paradoxalmente, amplificar a tensão em situações de alta responsabilidade individual. O pênalti é o momento mais solitário do futebol coletivo — e Messi é, acima de tudo, um jogador construído para o jogo coletivo.
O recorde que recontextualiza tudo
Quantos dos maiores artilheiros da história das Copas tiveram aproveitamento perfeito em cobranças de pênalti ao longo de seis participações no torneio?
O desempenho de Messi nas Copas não pode ser lido sem o contexto de quem o comandou. A coluna da ESPN apontou dado revelador: sob o comando de Lionel Scaloni, Messi acumula 11 gols em apenas nove jogos de Copa. Sob Jorge Sampaoli, em 2018, marcou apenas uma vez em quatro partidas. Sob Diego Maradona, em 2010, foram cinco jogos e nenhum gol. A variável técnica — a qualidade do treinador e do entorno tático — explica uma parcela considerável da oscilação estatística que a narrativa do "problema com pênaltis" tende a obscurecer.
Com 17 gols em seis Mundiais, Messi ultrapassou o alemão Miroslav Klose, que encerrou sua trajetória com 16. Igualou também a marca de Just Fontaine e Jairzinho ao marcar em seis jogos consecutivos de Copa — feito que Fontaine alcançou em 1958 e Jairzinho em 1970, ambos dentro de uma única edição. Messi precisou conectar 2022 e 2026 para chegar ao mesmo número, o que, em certa medida, torna o feito ainda mais revelador de longevidade. Aos 39 anos, na sexta Copa de sua carreira — participação que divide apenas com Cristiano Ronaldo e Guillermo Ochoa nesta edição de 2026 —, ele lidera a artilharia do torneio com quatro gols em dois jogos.
A Argentina de Scaloni enfrenta sua terceira rodada da fase de grupos do Grupo J com a classificação praticamente encaminhada. Se Messi converter o próximo pênalti que receber — e a probabilidade estatística de 78% de aproveitamento na carreira sugere que sim —, a narrativa do "problema" se dissolverá tão rapidamente quanto surgiu. Se errar de novo, o debate voltará com mais força. De qualquer forma, o recorde de 17 gols já está gravado nos registros oficiais da FIFA, indiferente às cobranças que saíram pela linha de fundo.
No vestiário do AT&T Stadium, depois do apito final, Messi trocou a camisa com um adversário austríaco e caminhou em direção ao túnel. Do lado de fora, 70 mil pessoas ainda cantavam seu nome — e a bola do pênalti perdido já havia sido recolhida por um funcionário do estádio, como se nunca tivesse existido.








