Errou. Na tarde desta segunda-feira (22), em Dallas, Lionel Messi desperdiçou um pênalti no primeiro tempo contra a Áustria — e ainda assim saiu de campo como o maior artilheiro da história das Copas do Mundo. Dois gols convertidos, placar de 2 a 0, e um recorde que Miroslav Klose levou 16 anos para construir foi ultrapassado em 90 minutos. O argentino chega a 18 gols em cinco edições do Mundial, deixando o alemão (16) e Ronaldo Fenômeno (15) definitivamente para trás.
Nos bastidores de Dallas, um aniversário com peso diferente
A partida aconteceu a dois dias do aniversário de 39 anos de Messi, marcado para quarta-feira (24). Mas os bastidores da campanha argentina carregam uma camada mais pesada do que celebrações. Seu pai, Jorge Horacio Messi, enfrenta um problema de saúde não detalhado publicamente, e parte da família permaneceu na Argentina para acompanhar o tratamento enquanto o camisa 10 seguia com o elenco na disputa do torneio. Questionado sobre desejos para a data especial, o jogador foi direto na zona mista ao jornal Olé:
"A verdade é que eu não posso pedir mais nada, graças a Deus. Ele me deu tudo no âmbito desportivo e a única coisa que posso pedir é saúde para mim e para a minha família, para as pessoas que sempre estiveram perto de mim. E poder continuar a desfrutar de todos estes momentos."
A fala revela um jogador que, mesmo no ápice estatístico da carreira, opera com o peso de circunstâncias que vão além do futebol. E ainda assim entrou em campo e fez o que sempre fez.
Os 18 gols que redesenharam a história do torneio
A trajetória começou em 2006, na Alemanha, quando Messi tinha 18 anos e marcou contra Sérvia e Montenegro numa goleada por 6 a 0 — entrou no segundo tempo substituindo Maxi Rodríguez. Não marcou em 2010, voltou em grande estilo em 2014 no Brasil com cinco gols contra Bósnia, Irã e Nigéria (dois neste último, numa virada por 3 a 2 que classificou a Argentina em primeiro), e reduziu para apenas um tento em 2018, justamente contra a Nigéria, no único triunfo daquela campanha que terminou nas oitavas diante da França.
A edição de 2022 no Catar foi o capítulo definitivo antes deste Mundial. Sete gols em sete jogos, incluindo dois na final contra a França — um deles de pênalti no empate por 3 a 3 — e a conversão na disputa de penalidades que entregou o título à Argentina. Agora, em 2026, já somou cinco gols nas duas primeiras rodadas: hat-trick contra a Argélia (3 a 0) e mais dois diante da Áustria, garantindo a classificação antecipada do Grupo J.
No total, Messi marcou contra 12 seleções diferentes, sendo Nigéria e Argélia as mais castigadas, com três gols cada. O feito de marcar em cinco edições distintas também é inédito na história da competição.
O que separa Messi de Klose, Pelé e Ronaldo Fenômeno
A comparação entre gerações raramente é justa, mas os números forçam o exercício. Quando Ronaldo Fenômeno encerrou sua trajetória em Mundiais em 2006 com 15 gols, distribuídos nas edições de 1998, 2002 e 2006, parecia um teto quase intransponível para um atacante de área pura. O brasileiro marcou oito gols apenas em 2002 — artilheiro isolado do torneio — e dois na final contra a Alemanha, feito que definia o padrão de eficiência em decisões.
Klose foi ainda mais paciente: levou quatro Copas (2002, 2006, 2010 e 2014) para chegar a 16 gols, e sua marca resistiu por 12 anos até este torneio. Pelé, com 12 gols em quatro edições entre 1958 e 1970, construiu seu legado numa era sem transmissões globais e com formato de torneio completamente distinto — em 1958, aos 17 anos, fez seis gols incluindo hat-trick na semifinal contra a França e dois na final diante da Suécia, feito que permanece sem paralelo em termos de precocidade.
Messi chegou a 18 com uma característica que nenhum dos três possuiu na mesma proporção: constância ao longo de duas décadas. Enquanto Ronaldo Fenômeno concentrou sua produção em três torneios e Klose foi o artilheiro da consistência moderada por edição, o argentino distribuiu os gols de forma crescente — de um tento em 2006 a sete em 2022 — sem jamais depender de uma única competição para sustentar o recorde.
A Argentina volta a campo pela terceira rodada do Grupo J ainda sem adversário confirmado publicamente no calendário de jogos, mas com classificação assegurada e Messi com margem real para ampliar ainda mais a vantagem sobre Klose. Cada gol daqui para frente não compete mais com nenhum nome da história — compete apenas consigo mesmo.
Construir um recorde assim se parece menos com uma obra de engenharia e mais com aquele tipo de receita que só fica boa depois de décadas no fogo lento: a soma de ingredientes acumulados em épocas diferentes, que nenhum chef consegue replicar do zero.








