Um zagueiro que não defende como o esperado de um zagueiro — e é exatamente por isso que o Milos Kerkez se tornou insubstituível no Liverpool. O paradoxo não é falha de conceito: é, na verdade, a essência de um jogador que aprendeu a habitar as fronteiras da posição com uma maturidade que não combina com os seus 22 anos.

Onde ele está no jogo global

A Premier League da temporada 2026/27 já apresentou ao mundo uma geração de laterais que não se contentam mais com a função puramente defensiva. Kerkez é o caso mais eloquente dessa tendência — e o mais improvável. Nascido em Vrbas, em 7 de novembro de 2003, com raízes sérvias e passaporte húngaro, ele representa algo que o futebol europeu raramente consegue fabricar em laboratório: um lateral com instinto ofensivo genuíno e disciplina tática suficiente para não destruir o equilíbrio da equipe ao avançar.

Para entender o peso do que Kerkez representa hoje, é útil recuar aos anos 90. Quando Roberto Carlos chegou ao Real Madrid em 1996, a discussão sobre o lateral que ataca era tratada como excentricidade brasileira. A Bundesliga dos anos 2000 respondeu com Andreas Brehme e depois com Philipp Lahm — este último, um lateral que entendia o jogo melhor do que muitos meias-atacantes de sua época. O que Kerkez oferece ao Liverpool em 2026 é algo que orbita essa tradição, mas com uma identidade própria: ele não é apenas um lateral que sobe; ele é um lateral que cria.

O que os números dizem na comparação

A temporada 2024/25 foi, até aqui, o pico estatístico da carreira do húngaro: 38 jogos, 2 gols e 5 assistências em uma única campanha. Para contextualizar, Ashley Cole — talvez o lateral-esquerdo mais completo que a Premier League produziu — raramente ultrapassava 3 assistências por temporada no Chelsea de José Mourinho entre 2004 e 2007. Não se trata de equiparar trajetórias; trata-se de perceber que o padrão de contribuição ofensiva de Kerkez já coloca sua produção em território de comparação legítima com os melhores da posição na história recente do futebol inglês.

Os números de carreira disponíveis indicam 116 jogos no total, com 4 gols e 8 assistências distribuídas ao longo das temporadas. Isso significa que boa parte de sua produção ofensiva está concentrada nos últimos dois anos — o que é, em si, um dado relevante: não estamos diante de um jogador que teve um pico isolado, mas de alguém em curva ascendente consistente. Conforme registrado pelo SportNavo em maio de 2026, Kerkez havia se consolidado como peça-chave do esquema tático do Liverpool, o que os números posteriores da temporada 2025/26 — 28 jogos com 2 gols e contribuições em jogadas decisivas — apenas confirmaram.

Os dados que importam na comparação com pares contemporâneos

  • Temporada 2024/25: 38 jogos, 2 gols, 5 assistências — o melhor rendimento individual de sua carreira
  • Temporada 2025/26: 28 jogos, 2 gols já contabilizados, com a temporada ainda em curso
  • Carreira total: 116 jogos, 4 gols, 8 assistências — com produção claramente acelerada nos últimos dois anos

Onde ele se distingue dos rivais

A posição de lateral-esquerdo na Premier League contemporânea está em crise de identidade — no bom sentido. Os clubes não sabem mais se querem um defensor que ataca ou um atacante que defende. O Liverpool, ao apostar em Kerkez com a camisa 6, fez uma escolha deliberada: quer os dois, e quer que a contradição seja resolvida dentro de campo, jogo a jogo. Não há tragédia: há contabilidade.

Milos Kerkez (Liverpool)
Milos Kerkez (Liverpool)

O que diferencia Kerkez de laterais como Trent Alexander-Arnold — que migrou definitivamente para o meio-campo — é que o húngaro mantém o equilíbrio entre as duas funções sem sacrificar uma pela outra. Ele tem 180 cm e 71 kg, medidas que não sugerem um atleta construído para duelos aéreos, mas que revelam um corpo ágil, capaz de recuperar posição após sobreposições sem comprometer a linha defensiva. É a morfologia de um lateral moderno, não de um zagueiro adaptado.

Há também o componente seleção. Kerkez estreou pela Hungria em 23 de setembro de 2022, atuando os 90 minutos na vitória por 1 a 0 sobre a Alemanha, em Leipzig — resultado que qualquer lateral europeu usaria como cartão de visitas pelo resto da vida. Ele tinha 18 anos. A expulsão em novembro de 2023, durante a qualificação para a Euro 2024 contra a Bulgária, foi o único tropeço de imagem em uma trajetória internacional quase impecável. O próprio Dominik Szoboszlai, companheiro de seleção, brincou que Kerkez havia sido "instruído em três línguas distintas para não fazer nada estúpido" naquele jogo — e fez mesmo assim. Nenhum lateral de 19 anos com personalidade assim costuma se tornar jogador mediano.

A trajetória que aponta o teto

A história do futebol europeu está cheia de laterais que chegaram cedo, brilharam rápido e desapareceram antes dos 26 anos — seja por lesão, por estagnação tática ou por transferências mal calculadas. Kerkez, ao chegar ao Liverpool ainda jovem e encontrar espaço para se firmar como titular, escapou do pior desses cenários. A pergunta que o mercado começa a fazer não é mais se ele é bom o suficiente, mas até onde vai o seu teto.

Para responder com honestidade, é preciso olhar para os ciclos históricos de hegemonia dos grandes clubes ingleses. O Liverpool que dominou a Europa entre 1977 e 1984 foi construído sobre uma filosofia de papéis bem definidos e execução coletiva. O Liverpool que voltou a vencer a Champions em 2019 fez o mesmo, com Alexander-Arnold e Andy Robertson como os laterais mais influentes de suas respectivas posições no continente. Robertson tinha 25 anos quando a Champions foi conquistada. Kerkez tem 22 agora — e já entrega números comparáveis ao escocês em seus primeiros anos de Anfield.

O próximo ciclo de 12 meses será definitivo para entender se Kerkez é um jogador de alto nível ou um jogador de elite histórica. A diferença, no futebol europeu, raramente está no talento — está na consistência sob pressão máxima, na capacidade de manter os números quando o adversário já o conhece de cor. Se a temporada 2025/26 fechar com produção semelhante à de 2024/25, a conversa muda de patamar. E há poucos motivos, olhando para o arco de carreira disponível, para acreditar que ela não vai fechar assim.