Resistiu. Depois de anos construindo carreira em rotas pouco convencionais — da Bulgária ao Nordeste brasileiro —, Cauly chegou ao São Paulo por empréstimo e se tornou, na temporada 2026, um dos meias mais utilizados da equipe no Brasileirão Série A.
Onde ele está no jogo global
O meia de Porto Seguro está longe do centro das atenções do mercado europeu — e isso, paradoxalmente, é parte do que o torna relevante agora.
Meia armador de 30 anos, 175 cm e 68 kg, Cauly Oliveira Souza não é o nome que aparece nas manchetes de transferências milionárias. Mas no contexto do Brasileirão Série A 2026, onde a consistência vale mais do que o flash, ele entrega o que poucos meias da sua faixa etária conseguem: presença constante e participação direta em jogadas de gol.
Na temporada atual, são 38 partidas disputadas — número que revela confiança irrestrita da comissão técnica. Quatro gols e seis assistências completam o quadro de um jogador que opera como distribuidor e finalizador ao mesmo tempo, algo raro em meias que chegam ao São Paulo por empréstimo sem período de adaptação garantido.
O que os números dizem na comparação
Os dados desta temporada colocam Cauly em patamar competitivo entre os meias da Série A.
Dez participações diretas em gols (4 marcados + 6 assistências) em 38 jogos resultam em uma média de 0,26 participações por partida. Para um meia que não é o centroavante nem o ponta titular da equipe, o número é expressivo dentro do futebol brasileiro, onde a média de meias-armadores na Série A costuma gicar entre 0,15 e 0,22 participações por jogo em temporadas completas.

Em matéria do SportNavo publicada com base nos dados disponíveis, é possível traçar um paralelo com a temporada 2023 pelo Bahia, quando Cauly registrou 4 gols e 7 assistências em 30 jogos na Série A — uma média de 0,37 participações por partida, seu melhor índice registrado no futebol brasileiro. A queda relativa na temporada atual reflete, em parte, o processo de adaptação a um novo sistema tático.
No campo das estatísticas avançadas, o xG (gols esperados, métrica que calcula a probabilidade de um chute resultar em gol com base na posição e contexto) de Cauly ao longo da carreira indica que ele costuma converter acima do esperado em finalizações de média distância — o que, em linguagem simples, significa que ele chuta bem quando decide chutar, sem desperdiçar tentativas de baixa probabilidade.
Onde ele se distingue dos rivais
A passagem pela Europa separa Cauly da maioria dos meias que disputam a Série A sem experiência internacional.
Entre 2021 e 2022, o meia atuou pelo Ludogorets, da Bulgária, em três competições simultâneas: a Primeira Liga búlgara, a UEFA Europa League e a UEFA Champions League. Em 2022, foram 7 jogos na Europa League com 1 gol e 2 assistências, além de 5 partidas na fase de grupos da Champions. Poucos meias que hoje atuam no Brasileirão carregam na bagagem jogos em fase de grupos de Champions League.
Essa experiência moldou um perfil diferente: Cauly não se desorganiza sob pressão alta, lê o jogo com mais calma do que a média e raramente perde a bola em situações de marcação intensa — características que fazem sentido quando se considera que ele enfrentou defesas organizadas no padrão europeu durante dois anos.
No Bahia, entre 2023 e 2024, manteve produção consistente em quatro competições diferentes por temporada — Série A, Campeonato Baiano, Copa do Nordeste e Copa do Brasil —, o que demonstra capacidade de render em ritmo de calendário denso, exigência central do futebol brasileiro.
A trajetória que aponta o teto
Nascido em Porto Seguro em 15 de setembro de 1995, Cauly completou 30 anos no início desta temporada — idade em que meias armadores costumam atingir o pico de leitura de jogo, compensando eventual perda de velocidade com inteligência posicional.
Ao longo de 201 jogos na carreira profissional, acumula 38 gols e 16 assistências em competições nacionais e internacionais. O número de gols é alto para um meia de criação, indicando que ele não se limita ao papel de assistente — finaliza quando a situação permite.
O contrato de empréstimo junto ao São Paulo mantém o vínculo definitivo com o Bahia, o que coloca Cauly em uma posição financeira e esportiva delicada para os próximos 12 meses. Se o desempenho na temporada 2026 justificar uma proposta de compra definitiva, o São Paulo terá de negociar com o Bahia um valor de transferência compatível com o mercado atual para meias experientes com passagem europeia — perfil que no Brasil costuma movimentar entre R$ 8 milhões e R$ 15 milhões em transações internas, dependendo do tempo de contrato restante e das cláusulas de rescisão previamente acordadas.
Cenário alternativo: retorno ao Bahia ao fim do empréstimo, com Cauly reintegrado a um elenco que já conhece seu padrão de jogo. A terceira via — proposta de clube estrangeiro — depende de visibilidade que o Brasileirão ainda oferece de forma limitada para jogadores de 30 anos sem contrato de longa duração.
O que os 38 jogos desta temporada já provaram é que Cauly não está no São Paulo para preencher lacuna. Está para jogar. E, por enquanto, está jogando.












