Como dois clubes que somados não chegam a 5% da receita do Mirassol e do Juventude conseguiram o que gigantes com décadas de história ainda não aprenderam? A pergunta parece simples, mas a resposta exige olhar para além dos números brutos que o futebol brasileiro celebrou em 2025.

O relatório Convocados 2026, produzido por Convocados e OutField com patrocínio da Galapagos Capital, registrou que os clubes da Série A movimentaram R$ 14,3 bilhões no ano passado — alta real de 32% em relação a 2024. Um número que impressiona, mas que, nas palavras do economista Cesar Grafietti, responsável pelo estudo, esconde uma armadilha:

"Os valores não recorrentes elevaram os números de 2025, mas não são garantia de previsibilidade a longo prazo."
Dos R$ 14,3 bilhões, R$ 3,9 bilhões vieram de negociações de jogadores — alta de 63% nesse segmento — e R$ 1,6 bilhão de premiações, parte delas turbinada pelos R$ 863 milhões distribuídos aos quatro clubes brasileiros que disputaram a Copa do Mundo de Clubes.

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O que Mirassol fez em seu primeiro ano na elite que outros não fizeram em décadas

Há um paralelo europeu que ajuda a entender o fenômeno. O que para o Atalanta de Bergamo foi a ascensão metódica de Gian Piero Gasperini — construída com formação própria, gestão salarial rigorosa e expansão gradual de receitas comerciais — para o Mirassol foi o acesso à Série A em 2025, tratado não como chegada, mas como plataforma. O clube do interior paulista terminou sua estreia na elite nacional na 4ª colocação, garantiu vaga na Copa Libertadores deste ano e avançou às oitavas de final da competição. Resultado esportivo notável. Mas o que o relatório Convocados 2026 ressalta é o resultado financeiro: EBITDA positivo nas duas métricas utilizadas, posição de aplicador líquido — ou seja, mais caixa do que dívidas — e demonstrações financeiras sem ressalvas. O relatório não apontou nenhum ponto de atenção nas finanças do clube. Nenhum.

Isso é raro no futebol brasileiro, onde a lógica histórica, descrita pelo próprio Grafietti, é a de que

"tenho mais dinheiro, vou gastar mais — o que falta é a compreensão de que não se pode correr riscos de quebrar."
O Mirassol fez o caminho inverso: cresceu a receita pelo acesso à Série A e manteve a estrutura de gastos compatível com o novo patamar, sem a euforia que costuma acompanhar promoções no futebol sul-americano.

Juventude rebaixado e ainda com as contas no azul

O caso do Juventude é, se possível, ainda mais revelador — porque o clube de Caxias do Sul conseguiu manter saúde financeira mesmo após o rebaixamento para a Série B em 2025. O relatório aponta desempenho operacional positivo nas duas métricas de EBITDA, dívida líquida negativa (mais caixa do que dívidas) e demonstrações financeiras sem ressalvas. O único ponto de atenção identificado pelo estudo é a estagnação das receitas, consequência natural da queda de divisão. Mesmo assim, o cenário é de equilíbrio — algo que clubes tradicionais com orçamentos dez vezes maiores raramente apresentam após um rebaixamento.

O que Mirassol fez em seu primeiro ano na elite que outros não fizeram em década
O que Mirassol fez em seu primeiro ano na elite que outros não fizeram em década

A comparação com o São Paulo, terceiro clube citado positivamente no relatório, ilustra a diferença de estágio. O Tricolor do Morumbi fechou 2025 com superávit de R$ 56 milhões e reduziu a dívida total em R$ 110 milhões — avanço real para um clube que carregava passivos históricos. Mas o relatório ainda aponta ressalvas nas demonstrações financeiras, EBITDA recorrente negativo e dependência de transferências de atletas. O balanço oficial sequer foi aprovado pelo Conselho de imediato. Mirassol e Juventude não têm nenhum desses problemas.

O modelo que o futebol brasileiro ainda precisa aprender a escalar

Flamengo e Palmeiras, com R$ 2 bilhões e R$ 1,7 bilhão de receita respectivamente em 2025, são citados por Grafietti como exemplos de outra escala: clubes com poder de negociação suficiente para tornar a venda de jogadores uma receita previsível, não um evento isolado.

"Não dá pra vender R$ 500 milhões em jogador todo ano, mas, se você conseguir fazer uma maquininha de formação e fazer R$ 200, 300 milhões todo ano, já ganha mais previsibilidade. Transferir é parte do negócio"
, afirma o economista. Mirassol e Juventude ainda não operam nessa escala — mas demonstram domínio da etapa anterior, que é não gastar mais do que entra.

O economista aponta o caminho estrutural para o crescimento sustentável: ampliar receitas sob gestão direta do clube — bilheteria, sócio-torcedor e relações comerciais — antes de depender de fatores externos como premiações e transferências. Dos R$ 14,3 bilhões movimentados em 2026, uma parcela expressiva ainda vem de entradas extraordinárias. O desafio, segundo o relatório, é converter esse crescimento em caixa recorrente. Mirassol e Juventude, cada um ao seu modo, já entenderam a primeira metade dessa equação. O Mirassol terminou 2025 com EBITDA positivo e classificação para a Libertadores. O Juventude terminou rebaixado — e ainda assim com mais caixa do que dívidas. Esse número, sozinho, diz tudo: 32% de crescimento geral, e os dois clubes que mais equilibraram as contas não figuram nem entre os dez maiores orçamentos da Série A.