Três coisas: um gol de cabeça, 12 pontos numa fase de grupos e uma eliminação decidida no saldo. Tudo se explica daí.
O Mirassol encerrou sua primeira participação em uma competição internacional da mesma forma que começou — com intensidade suficiente para incomodar, mas sem a margem fina que separa quem avança de quem volta para casa. Na última rodada do Grupo G, disputada nesta terça-feira (26), a derrota por 1 a 0 para o Lanús em La Fortaleza, Buenos Aires, foi matematicamente irrelevante para a classificação, mas reveladora do quanto o clube ainda precisa crescer no plano continental. A LDU, que venceu o Always Ready por 3 a 2 no mesmo horário, ficou com a liderança da chave graças ao saldo de gols superior — ambos os times terminaram com 12 pontos.
O gol que o Maião vai lembrar por décadas
Há algo de quase cinematográfico em como o primeiro capítulo foi escrito. No dia 8 de abril, sob o calor do interior paulista — aquele calor seco de São Paulo que não pede licença, como o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira —, Reinaldo cobrou um escanteio e João Vitor desviou de cabeça para o fundo da rede de Losada. Antes disso, um gol havia sido marcado e anulado pelo VAR no início do segundo tempo, o que tornou o momento ainda mais carregado de tensão narrativa. Quando a bola entrou pela segunda vez, o Estádio José Maria de Campos Maia registrou o primeiro gol do Mirassol em jogos internacionais na história do clube. Um detalhe: o time paulista foi o único representante brasileiro a estrear jogando em casa naquela rodada, vantagem que Rafael Guanaes soube explorar ao construir uma vitória por 1 a 0 que abriu a campanha com autoridade.
Doze pontos que revelam o que o Leão Caipira construiu no Grupo G
Quatro vitórias, quatro derrotas e um saldo de gols que não acompanhou a pontuação — esse é o retrato bruto de uma fase de grupos que o Mirassol encerrou na segunda colocação. O número 12 é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e fonte de frustração: igualou a LDU em pontos, mas a Liga de Quito teve desempenho superior nas redes, o que bastou para garantir a liderança do grupo e a vaga direta nas oitavas. Na análise do SportNavo, o que chama atenção não é o empate aritmético, mas a consistência tática que permitiu ao clube do interior paulista acumular tantos pontos em sua primeira Libertadores — algo que equipes com muito mais tradição continental já falharam em fazer.
A campanha, contudo, também expôs as limitações estruturais do grupo. Na derrota desta terça em Buenos Aires, o Lanús dominou a posse de bola sem diferença expressiva nos percentuais, mas foi consideravelmente mais eficiente na conversão das jogadas em finalizações. O gol de Agustín Medina — após escanteio, com Walter Bou dominando na área e rolando para o meia bater cruzado — ilustrou um padrão que se repetiu ao longo da fase: o Mirassol pecou na pressing alta e na conexão entre os setores, ficando vulnerável a transições organizadas dos adversários. A dificuldade em concatenar linhas de passe consistentes foi o calcanhar de Aquiles de Guanaes durante toda a campanha.
O que o Mirassol perde e o que leva na bagagem
A eliminação significa que o clube não avança ao playoff da fase de oitavas e encerra sua participação na Libertadores 2026. O Lanús, por sua vez, ficou com nove pontos e carimba vaga no playoff da Copa Sul-Americana como terceiro colocado do grupo — o que dá uma dimensão precisa do nível competitivo que o Mirassol enfrentou e, em grande parte, correspondeu.
O que o Leão Caipira carrega de volta para São José do Rio Preto é mais difícil de quantificar, mas não menos real. A manutenção do técnico Rafael Guanaes e da base que surpreendeu no Brasileirão — terminando em quarto lugar e conquistando a vaga direta na Libertadores — foi a aposta da diretoria para esta temporada, mesmo diante de perdas importantes no elenco. Essa continuidade permitiu ao clube apresentar uma identidade reconhecível: transição rápida, organização defensiva e bolas paradas como arma ofensiva, como ficou evidente no gol histórico de João Vitor. A experiência de jogar em La Fortaleza, enfrentar o gegenpressing do Lanús de Mauricio Pellegrino e administrar a pressão de uma rodada decisiva contra a LDU em Quito são ativos que não aparecem em nenhuma tabela de classificação.
A herança para o futebol do interior
Nenhum clube do interior paulista havia chegado até aqui com essa consistência. O Mirassol não é Corinthians, não é São Paulo, não tem a infraestrutura dos grandes centros — e ainda assim terminou com 12 pontos em um grupo que incluía um campeão equatoriano e um clube argentino com história continental. Segundo o técnico Rafael Guanaes, a manutenção da identidade tática foi prioridade desde o início da temporada, e os resultados na Libertadores validaram essa escolha mesmo diante das limitações de elenco.
O Mirassol retorna agora ao foco exclusivo no Brasileirão Série A de 2026, onde a campanha seguirá sendo o principal termômetro do projeto. A próxima rodada do campeonato nacional será a oportunidade imediata de o clube canalizar a experiência continental em resultados domésticos — e de provar que a passagem pela Libertadores foi um ponto de inflexão, não apenas um episódio isolado na história do Leão Caipira.










