Todo mundo sabe que a Copa do Mundo transborda para as ruas. O que ninguém parece ter resolvido, em nenhuma das últimas edições, é o que acontece quando esse transbordamento vira tragédia. Na última segunda-feira, 22 de junho, uma praça pública em Amã, capital da Jordânia, concentrava milhares de torcedores para acompanhar a partida entre a seleção local e a Argélia, pelo Grupo J do Mundial de 2026. O jogo terminou 2 a 1 para os argelinos, com eliminação jordaniana confirmada. Mas antes do apito final, um tumulto de causas ainda sob investigação deixou nove pessoas hospitalizadas — uma delas faleceu posteriormente em decorrência dos ferimentos.

O que aconteceu em Amã e o que ainda não se sabe

O porta-voz da Diretoria de Segurança Pública da Jordânia, Amer al Sartawi, confirmou os fatos em declaração oficial:

"Equipes de emergência foram acionadas e transportaram nove pessoas para o hospital. Uma delas faleceu posteriormente em decorrência dos ferimentos. As demais encontram-se em condição estável."

As circunstâncias que desencadearam o tumulto seguem sob apuração. Não se sabe ainda se houve falha estrutural no espaço, superlotação, confronto entre grupos de torcedores ou colapso de algum elemento físico do evento. Essa ausência de diagnóstico imediato — essa zona cinzenta entre o fato e sua causa — é, em si, um dado revelador sobre o nível de preparação dos eventos de exibição pública no contexto da Copa. Nas demais cidades jordanianas que sediaram transmissões similares, como Jerash, Petra e Aqaba, não foram registradas ocorrências de segurança equivalentes, o que sugere que o problema em Amã pode ter raízes específicas na organização local.

Uma lacuna que acompanha os Mundiais há décadas

Para quem acompanha a história dos grandes eventos esportivos, o episódio em Amã não é anomalia — é recorrência. Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, a FIFA registrou ao menos seis incidentes graves em zonas de exibição pública fora dos estádios, a maioria em países que assistiam às partidas em praças e parques. Na Copa de 2006, na Alemanha — considerada até hoje um modelo de organização —, as chamadas Fan Fests foram regulamentadas com capacidade máxima, controle de acesso e presença obrigatória de equipes médicas a cada 500 espectadores. Esse protocolo, desenvolvido pela FIFA em parceria com autoridades alemãs, reduziu a zero as mortes em zonas de transmissão naquele torneio, que reuniu mais de 18 milhões de pessoas nos eventos públicos ao longo das quatro semanas de competição.

O contraste com o que se viu em Amã em 2026 é perturbador. A Jordânia — um país que não é sede oficial do Mundial, mas que organizou eventos públicos de transmissão em múltiplas cidades — aparentemente não dispunha de protocolos equivalentes. A ausência de dados sobre capacidade do espaço, número de agentes de segurança presentes e plano de evacuação é, conforme registrado pelo SportNavo no acompanhamento dos episódios desta Copa, um padrão que se repete em países periféricos ao evento.

O que aconteceu em Amã e o que ainda não se sabe Morte em praça pública na Jordâ
O que aconteceu em Amã e o que ainda não se sabe Morte em praça pública na Jordâ

O custo invisível das transmissões ao ar livre

Há uma dimensão econômica nessa discussão que costuma ser ignorada. Eventos de Fan Fest com padrão FIFA custam, em média, entre 800 mil e 1,2 milhão de dólares por cidade, incluindo infraestrutura de som, telões, cercamento perimetral, brigadas de emergência e segurança privada. Para países como a Jordânia — cujo PIB per capita em 2025 era de aproximadamente 4.300 dólares, segundo o Banco Mundial —, replicar esse modelo em múltiplas cidades sem financiamento externo é operacionalmente inviável. O resultado são eventos improvisados, em espaços públicos sem adaptação, com multidões que a infraestrutura local não foi projetada para receber.

A FIFA arrecadou aproximadamente 7,5 bilhões de dólares com a Copa de 2022, no Catar. A projeção para 2026, com 48 seleções e três países-sede — Estados Unidos, Canadá e México —, supera os 11 bilhões. Desse montante, qual fração é destinada a protocolos de segurança para transmissões públicas em países participantes sem sede? A resposta, até agora, é: nenhuma fração formalizada. A entidade regula os estádios com rigor milimétrico — e deixa as praças à própria sorte.

O que a morte em Amã projeta para os próximos eventos

A Jordânia ainda tem um jogo a disputar nesta Copa: no próximo sábado, 27 de junho, às 23h (horário de Brasília), a seleção jordaniana enfrenta a Argentina — em partida que encerra sua participação no torneio. Com a eliminação já confirmada após a derrota para a Argélia, o jogo tem caráter protocolar dentro de campo. Fora dele, porém, a pressão sobre as autoridades jordanianas para garantir segurança nas transmissões públicas — especialmente diante de um adversário do porte da Argentina, que mobiliza torcedores em todo o mundo árabe — é agora de outra ordem. A morte de um torcedor em Amã deixou um passivo político e moral que nenhum placar consegue apagar.

O episódio deveria forçar a FIFA a incluir, ainda nesta Copa, um protocolo emergencial de certificação mínima para eventos públicos de transmissão em países participantes — com exigências de capacidade máxima, acesso controlado e presença de equipes de saúde. Não como gesto simbólico, mas como condição para o uso da marca do torneio nesses espaços. Enquanto isso não acontece, cada praça que liga um telão durante um jogo da Copa funciona — como funcionou em Amã na noite de segunda-feira — sem rede de proteção.