A última vez que a Colômbia chegou a dois jogos numa Copa do Mundo sem sofrer mais de um gol foi em 2014, no Brasil, quando José Pékerman montou uma equipe que chegou às quartas antes de ser eliminada pelo país-sede. Doze anos depois, em Guadalajara, Néstor Lorenzo refez esse feito — e desta vez com um lateral-direito artilheiro como protagonista inesperado da história.

Daniel Muñoz, lateral do Crystal Palace, marcou pela segunda partida consecutiva na Copa do Mundo 2026. O gol que liquidou a resistência da República Democrática do Congo saiu aos 76 minutos, numa jogada em que o colombiano cortou da direita, encontrou espaço na entrada da área e chutou. A bola desviou em Steve Kapuadi, enganou o goleiro Lionel Mpasi e entrou no ângulo da trave mais próxima. Colômbia 1 a 0, passagem garantida para as oitavas de final.

A muralha que Lorenzo construiu jogo a jogo

O número que define a Colômbia nesta Copa não está no ataque — está atrás. Dois jogos disputados, dois resultados em 1 a 0, e apenas um gol sofrido no total: o de Fayzullaev, pelo Uzbequistão, na estreia no Estádio Azteca, em 17 de junho, diante de mais de 80 mil pessoas. Contra o Congo, em Guadalajara, o goleiro Camilo Vargas trabalhou pouco. Uma defesa em cima de Nathanael Mbuku na reta final, um mergulho no canto num chute de fora da área — e pronto. O colombiano ficou quase em modo contemplativo enquanto Mpasi, do outro lado, fazia milagres.

O técnico Néstor Lorenzo montou uma estrutura que prioriza o controle do espaço entre as linhas. Sua equipe pressiona alto quando tem a bola, recua em bloco médio quando perde, e raramente deixa o corredor central descoberto. Contra o Uzbequistão, a disciplina tática foi testada quando os asiáticos reagiram no segundo tempo, mas a defesa colombiana segurou. Contra o Congo, a prova foi diferente — e mais reveladora.

"Os meninos fizeram um jogo brilhante. Deveríamos ter marcado mais. Com essas equipes, você precisa encontrar os espaços entre as linhas. Se não, se você joga de forma estruturada, elas pressionam e golpeiam no contra-ataque", disse Lorenzo após a partida.

Mpasi e a noite em que o goleiro foi mais que o adversário

O calor de Guadalajara pesava diferente nesta terça-feira. Mais de 90% do Estádio Guadalajara estava pintado de amarelo — era quase impossível encontrar um assento sem uma camisa da Colômbia. E mesmo assim, por 75 minutos, o homem que mais apareceu em campo vestia verde e preto: Lionel Mpasi, 31 anos, goleiro do Le Havre, que transformou a partida numa demonstração particular de resistência.

Mpasi bloqueou chutes de James Rodríguez, desviou finalizações de Luis Díaz, se jogou em bolas cruzadas que pareciam destinadas ao gol. A Copa 2026 já tem mostrado que goleiros veteranos e experientes estão roubando a cena — Vozinha, de Cabo Verde, parou a Espanha; Eloy Room, de Curaçao, igualou o recorde de 15 defesas numa partida. Mpasi entrou nesse grupo com autoridade. O técnico do Congo, Sébastien Desabre, não escondeu o orgulho.

"Nosso goleiro foi excelente hoje. Mas não estou surpreso. Ele vem jogando bem por nós", declarou Desabre na zona mista.

Luis Díaz, aliás, saiu de campo com a frustração estampada no rosto. Duas vezes o atacante do Liverpool colocou a bola na rede — duas vezes o bandeirinha levantou a bandeira do impedimento. Na segunda anulação, Díaz socou o gramado antes de se levantar. Reparemos no detalhe: mesmo com dois gols cancelados e um goleiro em estado de graça, a Colômbia não perdeu a compostura defensiva em nenhum momento. Isso diz muito sobre o que Lorenzo construiu.

A muralha que Lorenzo construiu jogo a jogo Muñoz marca duas vezes seguidas e a
A muralha que Lorenzo construiu jogo a jogo Muñoz marca duas vezes seguidas e a

O lateral que virou artilheiro e o que isso revela do sistema

Há algo quase paradoxal em Muñoz ser o destaque ofensivo colombiano nesta Copa. Lateral-direito do Crystal Palace na Premier League 2025/2026, ele é convocado por Lorenzo justamente pela disciplina posicional — por saber quando subir e quando ficar. E é exatamente essa leitura que o coloca na posição certa na hora certa para marcar.

Contra o Uzbequistão, foi Díaz quem abriu espaço com um passe preciso para Muñoz chegar na área e concluir. Contra o Congo, o lateral cortou para dentro sozinho porque a defesa adversária estava distraída com uma jogada de pressão na área — e o espaço apareceu como presente. Dois gols em dois jogos, quinto gol na carreira internacional. Muñoz aparece entre os artilheiros da Copa, ao lado de nomes como Harry Kane e Cristiano Ronaldo — o que, em qualquer outro contexto, soaria como piada.

A Colômbia chegou a Guadalajara como vice-campeã da Copa América, com a pressão de um grupo K que inclui Portugal. Venceu o Uzbequistão por 3 a 1 na estreia — com gols de Muñoz, Díaz e Jaminton Campaz — e superou o Congo por 1 a 0. Seis pontos em dois jogos. Primeiro lugar isolado no grupo, à frente de Portugal, que tem quatro pontos após golear o Uzbequistão por 5 a 0.

O que esperar da Colômbia nas oitavas e o jogo que ainda define tudo

O cenário para a última rodada do Grupo K é direto. Conforme apurado em matéria do SportNavo, um empate contra Portugal no sábado (20h30, horário de Brasília) garante à Colômbia a liderança do grupo e um confronto nas oitavas contra o melhor terceiro colocado, em Kansas City. Uma derrota significaria o segundo lugar e um duelo contra o vice-líder do grupo da Inglaterra, em Toronto.

Lorenzo tem escolhas a fazer. Poupar titulares para o mata-mata ou manter o ritmo contra uma Portugal que ainda pode precisar dos três pontos? A resposta deve aparecer na escalação divulgada na véspera. Mas uma coisa já está clara: a defesa colombiana — que sofreu apenas um gol em 180 minutos de Copa — não é coincidência. É construção. E quem quiser entender o que pode acontecer nas oitavas, o jogo de sábado contra Portugal é obrigatório.