12 anos. Esse é o tempo que Raphinha acumula convocações pela Seleção Brasileira sem uma conquista expressiva de nível internacional. Não há título de Copa América, não há Copa do Mundo. O número virou combustível para Neto disparar uma das críticas mais diretas da pré-Copa: por que os mesmos nomes continuam na titularidade?

A pergunta que Neto jogou no ventilador

Em vídeo divulgado pela Rádio Craque Neto no dia 8 de junho, o ex-atacante foi sem rodeios ao questionar a escalação de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo 2026. O alvo: Vinicius Jr, Raphinha e Casemiro — três nomes que carregam prestígio de clube, mas um currículo coletivo pela Seleção que não inclui nenhuma taça.

"Por que não pode tirar o Vinicius Jr e colocar o Luiz Henrique, Rayan ou Endrick? O que Raphinha ganhou em 12 anos de seleção? O Vinicius Jr? O Casemiro que já vai para sua terceira Copa do Mundo. O que esses caras ganharam? Coloca a molecada e se prepara para Copa de 2030", disse Neto.

A declaração veio logo após o amistoso contra o Egito, última rodagem do Brasil antes da estreia no Mundial. No jogo, os três veteranos tiveram atuação discreta no primeiro tempo. Endrick, que entrou no segundo tempo, marcou um dos gols da vitória brasileira — e deu argumento concreto para quem defende a rotação.

O que os números dizem sobre o desempenho recente dos titulares

Aqui é onde a análise fica interessante — e um pouco incômoda para o argumento puramente sentimental de Neto. Vinicius Jr terminou a temporada 2025/2026 pelo Real Madrid com um xG (expected goals) acumulado de 18.3 e 11 assistências esperadas (xA), números que o colocam entre os cinco atacantes mais produtivos da Europa. O problema é que esses dados são de clube. Na Seleção, o contexto tático muda radicalmente.

O Brasil de Ancelotti opera com um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) médio de 8.1 nos últimos quatro jogos — um valor mediano, que indica uma pressão moderada, nem intensa como o Liverpool de Klopp, nem passiva. Nesse sistema, Vinicius atua mais como referência de profundidade do que como gerador de jogo. O número de progressive passes recebidos por ele cai quase 40% em relação ao contexto do Real Madrid, o que naturalmente comprime seu xG para a faixa de 0.4 por jogo pela Seleção neste ciclo.

Raphinha, por sua vez, acumula 7 gols e 9 assistências pelo Barcelona em 2025/2026 — temporada excelente de clube. Mas sua taxa de conversão de chances criadas para a Seleção ficou abaixo de 0.3 xA por 90 minutos nos últimos cinco jogos, um dado que não sustenta com facilidade a titularidade inabalável.

A pergunta que Neto jogou no ventilador Neto cobra o que Vinicius, Raphinha e Ca
A pergunta que Neto jogou no ventilador Neto cobra o que Vinicius, Raphinha e Ca
  • Vinicius Jr — xG médio pela Seleção neste ciclo: ~0.4/jogo | xG pelo Real Madrid 2025/26: 18.3 na temporada
  • Raphinha — xA pela Seleção nos últimos 5 jogos: <0.3/90min | Assistências pelo Barcelona 2025/26: 9
  • Casemiro — Terceira Copa do Mundo, nenhum título com a Seleção em competição oficial de patamar máximo
  • Endrick — Gol marcado contra o Egito saindo do banco; pressão defensiva alta e ações progressivas acima da média entre os substitutos

Não há tragédia: há contabilidade. Os números de clube são brilhantes; os de Seleção, mais modestos. E é exatamente nessa lacuna que o argumento de Neto encontra algum respaldo factual — mesmo que a solução que ele propõe seja mais emocional do que tática.

Experiência versus juventude — o Brasil já viu esse filme antes

O debate não é novo. Em 2006, Parreira manteve Ronaldo Fenômeno como titular mesmo com queda clara de rendimento, priorizando o histórico. O Brasil caiu nas quartas para a França. Em 2014, Felipão apostou em Hulk e Fred como referências ofensivas em detrimento de jovens que surgiam — e o resultado foi o 7 a 1 contra a Alemanha, no Mineirão. A história da Seleção tem exemplos suficientes para sustentar tanto o lado da experiência quanto o da renovação.

O que diferencia 2026 é a qualidade objetiva da camada jovem disponível. Luiz Henrique, pelo Botafogo e agora na Europa, desenvolveu um perfil de atacante com alta taxa de defensive actions (pressão e recuperação de bola), algo que Ancelotti valoriza em transições. Rayan, aos 18 anos, chega com dados de progressive passes acima da média para sua faixa etária. Endrick, em sequência de gols pelo Real Madrid, não é mais uma aposta — é uma realidade com métricas que sustentam o argumento.

Neto reconheceu essa possibilidade com uma condicional que revela mais do que parece:

"Se eles ganharem a próxima Copa do Mundo, aí a gente cala a boca, eu calo a boca e está tudo certo. O que esses caras ganharam? Vamos ver."

A frase é honesta. Neto não pede a cabeça de ninguém — pede resultado. E coloca o ônus exatamente onde deve estar: no campo.

Ancelotti entre a pressão da opinião pública e a lógica de Copa

Ancelotti não é técnico que muda escalação por pressão de rádio. Seu histórico no Real Madrid, no Bayern e no Napoli mostra um treinador que confia em grupos estabelecidos e faz ajustes pontuais — não revoluções táticas motivadas por ruído externo. A pergunta real não é se Neto vai convencê-lo a tirar Vinicius. A pergunta é se o desempenho no primeiro tempo contra o Egito — registrado pelo SportNavo como abaixo do esperado para os três veteranos — vai gerar algum movimento interno de rotação já na estreia.

A Copa do Mundo de 2026 começa com o Brasil enfrentando seu primeiro adversário da fase de grupos nos próximos dias. Se Vinicius, Raphinha e Casemiro entregarem performances de clube com a camisa da Seleção, o debate some. Se repetirem o apagão do primeiro tempo contra o Egito, Ancelotti vai precisar de respostas — e Endrick, Luiz Henrique e Rayan vão estar lá, com xG acumulado e paciência para usar.

O hexacampeonato não se ganha na rádio.