Confesso: eu errei sobre Neymar em 2024. Quando a convocação de Carlo Ancelotti vazou com o nome do camisa 10 na lista, escrevi aqui mesmo que a presença dele seria o detalhe que diferenciaria esta seleção das equipes apagadas de 2018 e 2022. Errei. E hoje, com os dados na mesa, vejo exatamente onde a minha análise escorregou — e onde o próprio Neymar escorregou junto.
O que os números de Neymar revelam nos quatro jogos da Copa
O levantamento do FolhaStats, que analisou todos os atletas com ao menos 70 minutos em campo na campanha brasileira — mais Neymar, tratado como caso especial dado o peso da convocação —, deixa um retrato ambíguo. O atacante participou das quatro partidas do Brasil, que caiu nas oitavas de final para a Noruega, a eliminação mais precoce da Seleção desde 1990, quando a Itália de Schillaci parou o time de Taffarel em Turim. Três décadas e meia de história cobradas num único jogo.
Em termos de finalização, Neymar figurou entre os que mais chutaram do elenco, com números que, isolados, pareceriam respeitáveis. O problema está na eficiência: a maior parte das tentativas saiu de dentro da área, onde a expectativa de conversão é maior, mas o aproveitamento ficou abaixo do que se espera de um jogador do seu calibre histórico. Para fins de comparação, na Copa de 2014 — quando marcou quatro gols antes de se machucar na quartas — ele já havia batido esse volume de finalizações na metade do tempo que teve agora.
Nos passes, a fotografia é menos sombria. A participação em jogadas que resultaram em gols existe — ainda que modesta —, e a sua capacidade de acionar companheiros em espaços curtos manteve alguma funcionalidade. Contudo, quando o critério é comparação interna ao próprio elenco, ele perde para Raphinha em criação de chances e para Bruno Guimarães em consistência de distribuição.
Rayan e Matheus Cunha deixaram Neymar na sombra nos momentos decisivos
Se há uma narrativa que os dados desta Copa constroem com clareza, ela passa longe de Neymar. Endrick e a dupla Rayan e Matheus Cunha foram os nomes que mais imprimiram marca ofensiva real no torneio. Rayan, em particular, aparece como o segundo atacante que mais desarmou adversários em toda a Copa, com 4 roubadas de bola — atrás apenas de Yan Diomandé, da Costa do Marfim, com 6. Das ações de pressão alta de Rayan e Matheus Cunha saíram 4 dos 9 gols do Brasil no torneio: dois contra o Haiti e dois contra a Escócia.
Esses números são o espelho de uma mudança geracional que Neymar simboliza de forma involuntária. Na Copa de 2006, quando Ronaldo chegou ao torneio na Alemanha já com o físico comprometido e saiu sem o mesmo fôlego de 2002, havia ainda o peso de dois títulos mundiais para equilibrar a balança. Neymar chega a 2026 carregando apenas o vice de 2014 e uma trajetória de lesões que moldou um jogador diferente do que o Brasil viu explodir no Pacaembu em 2009, quando ele tinha 17 anos e destruía qualquer lateral que aparecesse.
Bruno Guimarães foi o segundo melhor desarmador do time, com 6 recuperações, atrás apenas de Douglas Santos, que liderou a equipe com 11 desarmes — segundo melhor de todas as seleções no torneio, superado apenas pelo paraguaio Cáceres, com 13. Neymar, no recorte defensivo, contribuiu marginalmente. A pressão que Rayan e Matheus Cunha faziam na saída de bola adversária não encontrava eco no lado esquerdo do ataque.
"A marcação de Rayan fez falta na jogada do primeiro gol norueguês. Endrick, cobrindo a ponta direita àquela altura, foi driblado por Schjeldrup", registrou o FolhaStats ao detalhar o lance que abriu o placar e enterrou a campanha brasileira.
O peso histórico de uma eliminação que Neymar não conseguiu evitar
A comparação mais honesta que se pode fazer não é entre Neymar 2026 e Neymar 2014. É entre o que o Brasil precisava de um camisa 10 nesta Copa e o que foi entregue. Em 1990, quando a Seleção caiu nas oitavas para a Argentina — o mesmo estágio de agora —, Maradona tinha 29 anos e foi o fator decisivo do jogo. Neymar, com 34, foi o fator mais discutido da convocação de Ancelotti, mas não o fator decisivo dentro de campo.
Alisson, que defendeu a bola 14 vezes em quatro partidas, acertou todas as 17 reposições com a mão que tentou — número impecável. Mas nas bolas longas, registrou apenas 24% de aproveitamento, o pior da seleção neste quesito, acertando 8 dos 33 lançamentos. Esse dado, aparentemente isolado, fala de uma equipe que não conseguiu criar profundidade de forma consistente — e que dependia, portanto, de um jogador criativo entre as linhas para fazer essa transição. Neymar era esse jogador. Nos quatro jogos, esse papel foi cumprido de forma parcial.
Casemiro teve o pior índice de disputas ganhas no meio: dos 14 desarmes que tentou, errou 10. Paquetá somou 5 roubadas. O sistema que deveria proteger e alimentar Neymar funcionou de forma irregular, e o atacante, por sua vez, não encontrou os espaços que precisava para ser determinante.
"Nas palavras de quem acompanhou o vestiário durante o torneio, Neymar manteve liderança no grupo, mas dentro de campo a liderança pertenceu a outros", segundo relatos apurados pela reportagem após a eliminação.
O Brasil encerra a Copa de 2026 com 9 gols marcados em quatro partidas — média de 2,25 por jogo —, mas nenhum deles com a assinatura de Neymar. A Seleção volta a campo somente no ciclo classificatório para 2030, com a primeira rodada das Eliminatórias Sul-Americanas prevista para setembro de 2026. Ancelotti terá de decidir, até lá, se o ciclo de Neymar com a amarelinha chegou ao fim — o jogador tem números para debater, mas não para silenciar os críticos.
O camisa 10 ainda existe — falta o torneio à sua altura.










