17 de outubro de 2024. Naquele dia, em Montevidéu, Neymar saiu de campo carregado depois de romper o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo na derrota por 2 a 0 para o Uruguai pelas Eliminatórias. Desde então, o atacante do Santos não disputou um único minuto sequer nas dez partidas que Carlo Ancelotti comandou à frente da Seleção Brasileira — e a convocação para a Copa do Mundo, marcada para ser anunciada no dia 18 de maio, se aproxima sem que o craque tenha dado qualquer resposta convincente dentro de campo.

O que os números de Neymar no Santos dizem sobre sua Copa

A temporada 2025/26 no Santos foi apresentada como o grande palco de reabilitação. Na prática, o que se viu foi um atacante em ritmo irregular, incapaz de sustentar sequências de jogos, e um time que sistematicamente desperdiça vantagens construídas. Neymar acumula apenas dois gols pelo Brasil em todo o ciclo atual para a Copa — e os disputou em quatro partidas, todas antes da lesão de outubro de 2024. Para efeito de comparação, nos ciclos anteriores, o camisa 10 chegou às convocações finais com 30 gols em 47 jogos (2014), 19 em 29 (2018) e 18 em 31 (2022). A queda de produção não é acidental: é a marca de um atleta que passou os últimos dois anos e meio lutando contra o próprio corpo.

O que os números de Neymar no Santos dizem sobre sua Copa Neymar zerou na era An
O que os números de Neymar no Santos dizem sobre sua Copa Neymar zerou na era An

O contexto do Brasileirão 2026 também não favorece a narrativa de ressurgimento. Um levantamento recente mostrou que o Santos é um dos apenas dois clubes da Série A que deram mais minutos a atletas formados internamente do que a estrangeiros — dado que soa positivo para a base, mas que também evidencia o nível técnico médio do elenco santista, muito abaixo dos rivais que investiram pesado em importações. O Internacional, por exemplo, destinou 49,69% de sua minutagem a estrangeiros neste Brasileirão. Jogar bem num Santos em reconstrução, rodeado de jovens e jogadores de nível médio, tem peso diferente de brilhar numa equipe competitiva da Premier League ou da La Liga.

Ancelotti e o padrão europeu que Neymar não alcança

Carlo Ancelotti não esconde seus critérios. O técnico italiano prioriza jogadores em alto nível competitivo, preferencialmente nas principais ligas europeias, e as convocações do ciclo atual confirmam essa lógica. Igor Thiago, vice-artilheiro da Premier League com a camisa do Brentford nesta temporada, é o exemplo mais emblemático: formado no Cruzeiro, passou pela Bulgária e pela Bélgica antes de explodir na liga mais competitiva do planeta — e foi chamado por Ancelotti sem hesitação. Raphinha no Barcelona, Vinícius Jr. no Real Madrid e Rodrygo — antes de sua lesão — representam exatamente o perfil que o treinador busca: atletas protagonistas em ambientes de alta exigência semanal.

O SportNavo mapeou as convocações do ciclo e identificou que São Paulo e Fluminense foram os clubes formadores com mais atletas chamados — quatro cada —, mas o que chama atenção é a diversidade de rotas. Casemiro e Bremer saíram do Tricolor paulista; Fabinho e João Pedro passaram pela base do Flu. Não há um caminho único, mas há um denominador comum: todos estão jogando, e jogando bem, quando são convocados. Neymar, aos 34 anos, não preenche esse requisito básico neste momento.

Quem garante que um Neymar abaixo do pico ainda vale mais do que um Igor Thiago em estado de graça?

O legado real e o peso da decisão de 18 de maio

Os números históricos de Neymar pela Seleção são inegociáveis: 79 gols em 128 partidas, maior artilheiro pelos critérios da Fifa, atrás apenas de Pelé na contagem da CBF. Nos dois primeiros ciclos de Copa, ele foi determinante — 38% dos seus gols com a amarelinha vieram no período que antecedeu o Mundial de 2014, e sua melhor média, de 0,65 gol por jogo, foi registrada no ciclo para a Rússia. Mas esses números pertencem a outro Neymar, construído numa sequência de temporadas sem interrupções graves. O atual chegou a acumular mais de 200 dias fora dos gramados entre 2018 e 2022 por lesões, e o joelho operado em outubro passado representa mais um capítulo nessa história de fragmentação física.

Quem não tem cão caça com gato — mas o Brasil de 2026 tem cães. Raphinha chegou ao Barcelona como peça central do esquema de Hansi Flick; Vinícius Jr. foi decisivo no Real Madrid até o fim da temporada 2025/26 na La Liga; e Igor Thiago encerrou a Premier League entre os artilheiros. Ancelotti não precisa apostar num atleta em fase de recuperação quando tem opções em plena forma. O técnico anunciará os 26 convocados no dia 18 de maio, e a Seleção se reúne na Granja Comary, em Teresópolis, a partir de 27 de maio para iniciar a preparação. Se Neymar não estiver nessa lista, não será por ingratidão — será porque os números desta temporada simplesmente não deixaram outra saída.

"A maioria dos jogadores da seleção principal atua na Europa, então o jogador é revelado no Brasil, vai para outro país e continua a sua carreira, concorrendo com mais estrangeiros ainda", afirmou Henrique Teixeira, técnico sub-20 do Atlético-MG, ao contextualizar o desenvolvimento dos talentos brasileiros.
"A pressão e a necessidade de resultados geralmente levam os clubes a buscar jogadores que possam trazer resultados imediatos", explicou o empresário Guilherme Momensohn sobre a lógica que também se aplica às convocações da Seleção em momento decisivo.