O silêncio do Wembley durou exatos nove minutos. Foi o tempo que Endrick precisou em campo para calar 80 mil ingleses e anunciar ao mundo que o Brasil havia encontrado sua nova identidade. No banco, Dorival Júnior sorria discretamente - sabia que aquele gol de um garoto de 17 anos simbolizava muito mais que uma vitória sobre a Inglaterra.
Três dias depois, no calor sufocante do Santiago Bernabéu, a mesma Seleção que saía perdendo por 2 a 0 para a Espanha conseguiu algo que parecia impossível nos últimos meses: reagir com personalidade e buscar um empate heroico nos acréscimos. Lucas Paquetá converteu o pênalti decisivo aos 95 minutos, selando um 3 a 3 que teve gosto de vitória.
A organização que faltava ao Brasil
As declarações do capitão Danilo após a vitória em Wembley revelaram o que muitos já suspeitavam. Quando questionado sobre o trabalho de Dorival, o lateral-direito foi direto ao ponto:
"O futebol às vezes é fazer aquilo que já tem inventado, digamos assim. Acho que essa seleção precisa de um pouco de organização e dentro dessa organização é que os jogadores tenham a liberdade."
A frase soou como uma indireta clara ao trabalho de Fernando Diniz, antecessor de Dorival que comandou o Brasil em seis partidas com apenas duas vitórias. O contraste entre os dois métodos ficou evidente já nos primeiros 90 minutos sob o comando do novo técnico, quando cada jogador sabia exatamente sua função tática.
Contra a Espanha, essa organização foi testada ao extremo. O time brasileiro correu atrás dos donos da casa durante todo o primeiro tempo, sofrendo com a movimentação de Dani Olmo e a precisão de Rodri. Mesmo assim, não se desorganizou completamente - algo impensável nos jogos anteriores da Seleção.

Endrick brilha no palco dos sonhos
Aos 17 anos, o atacante do Palmeiras se tornou o jogador mais jovem a balançar as redes no estádio de Wembley por clube ou seleção. O feito chamou atenção da imprensa mundial, com o "AS" espanhol destacando: "Endrick silenciou Wembley" e o "Marca" definindo: "17 anos. Wembley. E 9 minutos em campo. Três conceitos que definem a ascensão de Endrick no futebol europeu."
No Bernabéu, palco onde atuará a partir de julho pelo Real Madrid, Endrick voltou a decidir. Entrou no segundo tempo, empatou a partida após sobra de escanteio e celebrou olhando para os pais na arquibancada. O jovem revelou sua determinação após o jogo:
"A gente não vai prometer que vai ganhar todos os jogos, mas o que não vai faltar é raça, não vai faltar determinação, não vai faltar garra."
A reação que define caráter
O empate contra a Espanha teve ingredientes que há muito tempo não se via na Seleção Brasileira. Trailing por 2 a 0 no primeiro tempo, o Brasil não se entregou. Rodrygo aproveitou falha do goleiro Simón para diminuir ainda na etapa inicial, dando fôlego para a reação que viria na segunda parte.
Mesmo quando Rodri marcou seu segundo gol de pênalti aos 44 minutos do segundo tempo, colocando a Espanha novamente à frente por 3 a 2, o time de Dorival não baixou a cabeça. A pressão nos minutos finais resultou no pênalti convertido por Paquetá, em uma jogada que resumiu o novo DNA da Seleção.
Dorival avaliou o saldo das duas partidas com otimismo controlado:
"Saímos do Brasil há 10 dias e tenho certeza que poucos acreditavam naquilo que acabou acontecendo."
O teste da Copa América se aproxima
Com duas partidas e resultados positivos, Dorival Júnior estabeleceu as bases do que pretende para a Copa América. O próximo desafio será manter a evolução em solo americano, onde o Brasil enfrentará Colômbia, Paraguai e Costa Rica na fase de grupos do torneio continental.
Antes disso, a Seleção ainda terá dois amistosos de preparação: contra o México em 8 de junho e diante dos Estados Unidos quatro dias depois. Será a oportunidade de Dorival testar outras peças do quebra-cabeças e confirmar se a organização tática observada na Europa se mantém consistente em diferentes cenários de jogo.

