É uma esteira rolante inclinada para cima. Quem paga, avança. Mas o chão se move na direção contrária, e a distância do topo não diminui na mesma velocidade que os pés se movem. Essa é a geometria do Regime Centralizado de Execuções do Corinthians — e entendê-la exige mais do que contabilidade básica.

O que é o RCE e por que ele importa para o futuro do clube

O Regime Centralizado de Execuções é o mecanismo judicial pelo qual o Corinthians organiza o pagamento de dívidas processadas em diferentes instâncias do Judiciário. Aprovado em janeiro de 2026, o plano consolidou 32 processos envolvendo 23 credores distintos num único instrumento de quitação, com parcelas calculadas sobre percentual das receitas recorrentes mensais. A lógica é racional: em vez de execuções dispersas que poderiam bloquear ativos e travar a operação do clube, cria-se uma fila ordenada e previsível. O problema é que a fila tem juros.

Segundo a Diretoria Financeira do clube, os pagamentos passaram a ser realizados a partir de março de 2026, com base nas receitas do mês anterior. A arquitetura do acordo é sólida no papel. Na prática, ela enfrenta um adversário que não negocia: a taxa Selic.

R$ 5,2 milhões pagos — e a dívida subiu mesmo assim

Em abril de 2025, o levantamento inicial apresentado pela diretoria apontava R$ 190,8 milhões em passivos vinculados ao RCE. Cinco meses depois, em setembro, o número já havia subido para R$ 192,7 milhões — sem que qualquer pagamento relevante tivesse sido efetuado. Quando o plano foi homologado e os depósitos começaram, a dívida corrigida já alcançava R$ 227,9 milhões.

A primeira parcela, de R$ 2,5 milhões, foi depositada em março de 2026 e derrubou o saldo para R$ 225,3 milhões. No mês seguinte, a Selic fez o passivo voltar a R$ 227,6 milhões. A segunda parcela, de R$ 2,6 milhões, reduziu o total para os atuais R$ 224,9 milhões. O balanço líquido de dois meses de pagamentos é uma redução de aproximadamente R$ 3 milhões sobre uma dívida que cresceu quase R$ 34 milhões em relação ao levantamento original.

"O crescimento ocorreu principalmente devido à atualização monetária pela taxa Selic", sustenta a Diretoria Financeira do Corinthians em comunicado aos credores.

O maior credor individual é o empresário Giuliano Pacheco Bertolucci, com R$ 76,9 milhões a receber — sozinho, ele concentra mais de um terço de todo o passivo do RCE. Na sequência aparece a Talents Sports Ltda, com R$ 24,9 milhões. A lista inclui agências de intermediação e fornecedores do mercado esportivo, formando um mosaico de credores que já questionaram publicamente os cálculos apresentados pelo clube em 2025.

A Selic como coadjuvante que define o enredo

A taxa básica de juros brasileira, atualmente em patamar elevado dentro do ciclo de aperto monetário iniciado pelo Banco Central em 2024, funciona como um multiplicador silencioso sobre dívidas corrigidas por ela. Para um passivo da magnitude do RCE corintiano, cada ponto percentual da Selic representa, em termos brutos, cerca de R$ 2,2 milhões ao ano em acréscimo. Com a taxa rodando acima de 13% ao ano no período de referência, o crescimento mensal do passivo supera com folga o valor das parcelas depositadas até agora.

"Os números refletem apenas a atualização legal das pendências", argumenta a direção financeira do clube, em resposta aos credores que contestaram os cálculos.

A afirmação é tecnicamente correta. E é exatamente aí que reside o nó estrutural do problema: a legalidade do mecanismo não atenua seu efeito econômico. O clube precisa aumentar o volume das parcelas — o que depende diretamente do crescimento das receitas recorrentes — ou conviver com um passivo que se expande mais rápido do que os pagamentos o comprimem. O Brasileirão de 2026, com seus direitos de transmissão e bilheteria, é a principal variável dessa equação. Enquanto a Selic não recuar e as receitas não crescerem, a esteira continua inclinada.