Há algo profundamente irônico na situação de Eduardo Camavinga. Aos 23 anos, o jovem meio-campista conquistou praticamente tudo o que um jogador pode sonhar no Real Madrid – Champions League, LaLiga, títulos que o colocam entre a elite mundial. No entanto, quando se trata da seleção francesa, sua posição está longe de ser incontestável, parafraseando o L'Équipe. É a cruel realidade de pertencer a uma geração dourada que transformou a profundeur de banc em um problema de luxo.

A matemática implacável do meio-campo francês

Durante minha passagem por Barcelona, testemunhei de perto como a abundância de talentos pode se tornar um fardo. A França de Didier Deschamps enfrenta hoje dilema similar ao que o Barça viveu na era Guardiola: ter jogadores de altíssimo nível disputando as mesmas posições. Camavinga compete diretamente com Aurélien Tchouaméni – seu companheiro no Real Madrid e aparentemente mais consolidado na hierarquia de Deschamps –, mas também precisa superar nomes como Adrien Rabiot e a jovem promessa Warren Zaïre-Emery.

O que torna a situação ainda mais complexa é a versatilidade tática que Deschamps busca. No amistoso contra o Brasil, Camavinga permaneceu no banco, entrando apenas aos 64 minutos contra a Colômbia – um sinal claro de que sua posição está em xeque. Sua ausência na Data FIFA de novembro, mesmo sem estar lesionado, confirma essa tendência preocupante para suas ambições mundialistas.

O perfil que Deschamps busca

Analisando o modus operandi do técnico francês, percebo uma preferência por jogadores que ofereçam não apenas qualidade técnica, mas também consistência defensiva e experiência em momentos decisivos. Tchouaméni, por exemplo, consolidou-se como o anchor natural do meio-campo francês, oferecendo aquela estabilidade que Deschamps tanto valoriza desde os tempos vitoriosos de 2018.

Camavinga, apesar de sua evidente classe e capacidade de transição ofensiva, ainda carrega a pecha da inconsistência que assombra muitos jovens talentos. Seu cartão amarelo dez minutos após entrar contra a Colômbia simboliza perfeitamente essa questão: momentos de brilho intercalados com decisões questionáveis. Na Inglaterra, aprendi que os técnicos de seleção valorizam mais a previsibilidade do que o flair individual – uma lição que Camavinga precisa internalizar rapidamente.

A janela de oportunidade que se estreita

Com a Copa do Mundo de 2026 se aproximando, o tempo trabalha contra o meio-campista do Real Madrid. Paradoxalmente, uma eventual não-convocação pode beneficiar seu clube, considerando a série de lesões que assolou a Casa Blanca nesta temporada. No entanto, do ponto de vista individual, perder uma Copa do Mundo aos 23 anos seria um revés significativo em sua carreira.

A situação de Camavinga ilustra perfeitamente os dilemas da moderna gestão de seleções. Em tempos de squad management e rotações constantes, nem sempre os mais talentosos garantem suas vagas. É a democracia meritocrática do futebol contemporâneo, onde a consistência e a adequação tática superam, muitas vezes, o puro talento individual. Para o jovem franco-angolano, resta provar que pode ser mais do que uma promessa – precisa se tornar uma certeza.