Quando Gennaro Gattuso desceu as escadas do estádio em lágrimas, na noite de terça-feira (31), carregava nas costas mais que o peso de uma eliminação. A Itália, tetracampeã mundial e atual campeã europeia, ficou pela segunda vez consecutiva fora de uma Copa do Mundo, superada pela Bósnia nos pênaltis durante a repescagem europeia para o Mundial de 2026.

A derrota por 5-4 nas penalidades, após empate em 1-1 no tempo regulamentar, encerra um ciclo que começou de forma gloriosa em 2021, com a conquista da Eurocopa em Wembley, mas que agora desmorona diante das câmeras do mundo. É a primeira vez na história que a Azzurra fica ausente de duas Copas seguidas, feito que nem mesmo as gerações mais sombrias do futebol italiano conseguiram alcançar.

O peso das lágrimas de Gattuso

As imagens de Gattuso chorando no túnel do estádio ecoaram pelos principais jornais europeus como símbolo de uma nação em crise futebolística. O meio-campista, que aos 46 anos ainda sonhava com sua primeira Copa, resumiu o sentimento coletivo ao declarar que a eliminação era "difícil de digerir". Sua trajetória espelha a de uma geração inteira que viu o futebol italiano perder relevância no cenário mundial.

O peso das lágrimas de Gattuso O eclipse da Azzurra revela uma Itália p
O peso das lágrimas de Gattuso O eclipse da Azzurra revela uma Itália p

A imprensa peninsular não poupou críticas. Jornais como La Gazzetta dello Sport e Corriere dello Sport estamparam em suas capas palavras como "desastre", "fracasso" e "apocalipse" para descrever o momento vivido pela seleção. O La Repubblica chegou a classificar a eliminação como "humilhação nacional", enquanto o Tuttosport questionou diretamente a competência da comissão técnica liderada por Roberto Mancini.

Anatomia de um declínio estrutural

A ausência italiana em duas Copas consecutivas não é fruto do acaso, mas resultado de problemas sistêmicos que se acumularam na última década. Desde 2014, quando a Azzurra caiu na fase de grupos no Brasil, a seleção não consegue mais competir de igual para igual com as principais potências europeias. Os números são eloquentes: em oito anos, apenas uma classificação direta para Copa (2014) e duas eliminações em repescagens (2018 e 2026).

O envelhecimento da base de jogadores italianos na elite europeia expõe outra faceta da crise. Enquanto países como Inglaterra, França e Espanha renovaram seus plantéis com jovens talentos formados em academias modernas, a Itália continua dependendo de veteranos como Leonardo Bonucci, de 37 anos, e Marco Verratti, de 32. A Serie A, que já foi o campeonato mais competitivo do mundo nos anos 1990, hoje ocupa apenas a quarta posição no ranking da UEFA, atrás da Premier League, La Liga e Bundesliga.

Anatomia de um declínio estrutural O eclipse da Azzurra revela uma Itália p
Anatomia de um declínio estrutural O eclipse da Azzurra revela uma Itália p

Paralelos históricos e lições não aprendidas

A situação atual da Itália evoca memórias de outras potências que viveram períodos de ostracismo no futebol mundial. A Holanda ficou ausente das Copas de 1982 e 1986, mas soube se reinventar com a filosofia do futebol total. A França amargou ausências em 1990 e 1994, antes de conquistar o Mundial em casa, em 1998. O que diferencia esses casos do italiano é a capacidade de diagnóstico e mudança estrutural.

Gabriele Gravina, presidente da Federação Italiana de Futebol (FIGC), descartou renunciar ao cargo após a eliminação, mas sua permanência simboliza a resistência às transformações necessárias. O modelo de formação italiano, que produziu gerações brilhantes como a de 1982 e 2006, precisa ser repensado para competir com academias que investem pesadamente em tecnologia e metodologia de ponta.

"Difícil de digerir", resumiu Gattuso sobre a eliminação que deixa a Itália fora de sua segunda Copa consecutiva.

A eliminação diante da Bósnia, seleção que nunca disputou uma Copa do Mundo, ganha contornos ainda mais dramáticos quando analisada sob a perspectiva histórica. A Azzurra, que conquistou quatro títulos mundiais (1934, 1938, 1982, 2006) e se estabeleceu como uma das maiores tradições do futebol, agora precisa assistir de casa enquanto 48 seleções disputam o Mundial de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México. O próximo desafio será a Liga das Nações, competição que começará em setembro de 2026, quando a Itália tentará reconstruir sua credibilidade no cenário internacional.