A Arena MRV ainda processava os dois primeiros gols quando, aos 36 minutos do segundo tempo, uma bola sobrou na entrada da área. O chute veio forte, no ângulo, sem hesitação. Só então o nome apareceu no placar: Cissé, 19 anos, fechando o 3 a 1 sobre o Mirassol e encerrando, ao menos provisoriamente, a história mais incômoda da semana no Atlético Mineiro.

O peso de sair de campo em três minutos

Antes de falar do gol, é preciso falar do constrangimento. Na partida contra o Ceará pela Copa do Brasil, Cissé foi expulso com apenas três minutos de jogo — um dos inícios mais desastrosos que um atacante jovem pode ter em uma competição eliminatória. O argumento de quem o defende é que jovens erram, que a pressão pesa, que a expulsão foi precipitada. Tudo verdade. Mas a expulsão aconteceu, o Galo jogou com dez durante quase toda a partida, e o atacante ficou devendo uma resposta.

Respostas no futebol se dão em campo. E a resposta de Cissé veio no sábado (16), pela 16ª rodada do Brasileirão, diante de um Mirassol que havia empatado ainda no primeiro tempo — Willian Machado cabeceou firme após escanteio de Reinaldo, aos 40 minutos, para deixar tudo igual. O empate durou pouco, mas o recado do adversário era claro: o jogo não seria fácil.

Da expulsão ao golaço — o que Cissé mostrou contra o Mirassol

O Atlético construiu a vitória em três momentos distintos. Minda abriu o placar aos 17 minutos do primeiro tempo com uma pedalada e um chute de força que não deixou saída para o goleiro Walter. Maycon converteu pênalti sofrido por Renan Lodi — derrubado por Denilson após tabela com Bernard — aos 15 minutos do segundo tempo. E Cissé fechou o placar com um chute de fora da área que, tecnicamente, foi o mais elaborado dos três.

O dado que contextualiza a importância do gol: com 21 pontos em 16 rodadas, o Atlético acumula mais pontos do que o Mirassol somou em toda a sua campanha até aqui — o adversário permanece com 13, dentro da zona de rebaixamento. Para um time que ainda busca consistência ofensiva, ter um atacante de 19 anos capaz de decidir partidas com chutes de fora da área é um ativo que vai além do placar deste sábado.

Na avaliação do SportNavo, o que diferencia este gol de Cissé de uma simples reabilitação estatística é o contexto emocional. Jogadores jovens que voltam após punição disciplinar costumam jogar tensos, com excesso de cautela ou, ao contrário, com agressividade desnecessária para provar algo. Cissé fez o oposto: esperou o momento certo, recebeu a bola em posição favorável e finalizou com a frieza de quem não estava tentando se redimir — estava simplesmente jogando futebol.

O que o Galo decide agora com Cissé no radar tático

O contra-argumento mais razoável sobre o futuro do atacante é que um gol isolado não resolve o debate sobre quem deve ocupar a referência ofensiva do Atlético. A lógica tem fundamento: a equipe mineira ainda busca regularidade no setor, e um jovem com histórico recente de expulsão precoce não pode ser tratado como solução definitiva após uma única boa atuação.

O problema com esse argumento é que ele ignora o que os números já indicam. Cissé tem 19 anos e já acumula participações diretas em gols em competições distintas nesta temporada de 2026. Para efeito de comparação, levou ao Mirassol 16 rodadas para chegar a 13 pontos — o mesmo número de rodadas que Cissé precisou para consolidar sua presença no elenco atleticano como opção real de ataque, não apenas como reserva de emergência.

A decisão tática que se impõe agora para a comissão técnica do Galo é objetiva: Cissé precisa de sequência. Não de elogios, não de declarações de confiança em entrevista coletiva — de minutos em campo, de partidas consecutivas, de erros permitidos dentro de um processo de crescimento monitorado. O talento para finalizar de fora da área já ficou registrado. A questão é se o clube vai transformar esse talento em regularidade ou vai tratá-lo como carta na manga para momentos específicos.

O Atlético volta a campo na quinta-feira (21), quando recebe o Cienciano na Arena MRV pela Copa Sul-Americana, às 19h. É mais uma oportunidade de sequência para Cissé — e, desta vez, sem o risco de sair de campo nos primeiros três minutos.