A última vez que um técnico com passagem recente pelo Botafogo enfrentou o clube em jogo eliminatório com a obrigação de vencer foi em 2017, quando Jair Ventura deixou o clube para assumir o Santos e o reencontrou nas semifinais da Copa do Brasil — e perdeu. Nesta quinta-feira (14), às 18h, na Arena Condá, em Chapecó, Chapecoense e Botafogo atualizam esse tipo de enredo com um personagem central: Fábio Matias, que em 2024 comandou o Alvinegro por 10 jogos de forma interina e saiu com oito vitórias no currículo. Agora ele está do outro lado, com um gol de desvantagem e um elenco que acumula 27 gols sofridos no Brasileirão — a pior defesa da Série A.
Quando Matias era solução no Botafogo e o que ele carrega para Chapecó
Em 2024, o aproveitamento de Fábio Matias à frente do Botafogo interino foi de 80% — oito vitórias em dez jogos, números que poucos técnicos efetivos conseguem sustentar por uma sequência semelhante. Àquela altura, ele era o escudo que o clube precisava enquanto buscava um substituto permanente. A familiaridade com o estilo de jogo, a intensidade nas transições e o comportamento defensivo do elenco carioca são dados que Matias carrega na memória. A pergunta concreta é: esse conhecimento é suficiente para compensar uma desvantagem de um gol e uma Chapecoense que não vence o Botafogo desde 2016?
O retrospecto histórico entre os clubes responde com frieza: em 12 confrontos, o Botafogo venceu oito, a Chapecoense três e houve um empate. Em 2026, os times já se enfrentaram duas vezes antes desta Copa do Brasil — o Alvinegro ganhou por 4 a 1 no Brasileirão e por 1 a 0 no jogo de ida da competição, com gol de Alex Telles nos minutos finais no Estádio Nilton Santos. Não é um adversário que a Chape vem dominando. É um adversário que a Chape vem tentando não ser engolida por ele.
A Chapecoense que Matias herdou e o que ela pode oferecer
Lanterna do Brasileirão com apenas nove pontos em 45 disputados, a Chapecoense de Fábio Matias é um clube em crise estrutural, não apenas técnica. A equipe vem de empate por 1 a 1 com o Mirassol e chega à Arena Condá apostando na força do fator casa — um trunfo que, convenhamos, tem peso reduzido quando o jogo começa às 18h numa quinta-feira útil, horário que esvazia arquibancadas como o trânsito da Avenida Paulista esvazia paciência. Para avançar, a Chape precisa vencer por dois ou mais gols. Uma vitória por um gol leva aos pênaltis, graças à extinção do critério de gol fora de casa.
As principais armas ofensivas são Marcinho, Ênio e Yannick Bolasie. O retorno do zagueiro Bruno Leonardo ao time titular é a única boa notícia defensiva, já que Rafael Thyere, Kauan Faria, Bruno Matias e Robert seguem no departamento médico. Matias deve escalar Anderson; Victor Caetano, Bruno Leonardo, Eduardo Doma; Everton, Camilo, João Vítor, Bruno Pacheco; Marcinho, Ênio e Bolasie. É um time que depende de inspiração pontual para criar perigo — e que historicamente não sustenta pressão por 90 minutos seguidos.
"A Copa do Brasil surge como um alento para os catarinenses", segundo análise do SBT Sports, que define a condição da Chapecoense como de "crise técnica" que "fragiliza o trabalho do técnico Fábio Matias".
O Botafogo de Franclim Carvalho e a vantagem que ele não precisa desperdiçar
Quem argumenta que o Botafogo está vulnerável cita a crise administrativa em torno da SAF e o caos institucional que ronca nos bastidores do Nilton Santos. O argumento tem substância fora de campo. Dentro dele, os números de Franclim Carvalho contam outra história: em dez jogos sob seu comando, o time acumula cinco vitórias, quatro empates e apenas uma derrota. A Copa do Brasil tem sido o ambiente mais confortável — o Botafogo se classificou antecipadamente na Copa Sul-Americana antes mesmo desta rodada.
Para o jogo desta quinta, o técnico Franclim Carvalho conta com os retornos de Vitinho e Júnior Santos, mas perde Matheus Martins (estiramento), e nem Ferraresi nem Mateo Ponte viajaram com o grupo. A escalação mais provável é Neto; Vitinho, Alexander Barboza, Bastos e Alex Telles; Medina, Danilo e Edenílson; Júnior Santos, Arthur Cabral e Kadir. A disputa no meio-campo — com Newton, Edenílson, Medina, Danilo e Montoro brigando por posições — é um dos trunfos táticos do Alvinegro: profundidade real no setor mais importante do campo.
"Nos últimos dez jogos, o Alvinegro soma apenas uma derrota. Nas Copas, contudo, o Botafogo tem se saído muito bem", destaca o SBT Sports ao traçar o perfil do clube carioca para este confronto.
O que o conhecimento de Matias sobre o Botafogo realmente vale nesta noite
Há um argumento sedutor circulando: Fábio Matias conhece o Botafogo por dentro, sabe como o time se posiciona, onde estão as fragilidades defensivas e como pressionar as transições. Esse argumento merece ser levado a sério — mas também precisa ser relativizado com dados. O elenco do Botafogo em 2026 não é o mesmo de 2024. Alex Telles, Arthur Cabral e Cristian Medina chegaram depois. Franclim Carvalho imprimiu dinâmicas diferentes das que Matias utilizou. O conhecimento de um técnico sobre um adversário tem validade, mas ela diminui conforme o elenco e o sistema mudam.
Mais relevante do que o fator Matias é a equação matemática do confronto: a Chapecoense precisa marcar dois gols contra uma equipe que sofreu apenas um gol nos últimos dois jogos contra ela própria, enquanto a defesa catarinense já cedeu 27 na Série A. A arbitragem fica a cargo de Davi de Oliveira Lacerda (ES), com VAR de Daiane Muniz (SP). Classificado, o Botafogo avança às oitavas de final da Copa do Brasil — e Fábio Matias, eliminado ou não, segue com uma missão mais urgente: tirar a Chapecoense da lanterna do Brasileirão antes que a temporada se torne irreversível.
Na Arena Condá, às 18h, Matias vai cruzar os braços na beira do campo diante de um adversário que ele próprio ajudou a construir. Oito vitórias em dez jogos pelo Botafogo em 2024 — e agora, do outro lado da linha, a conta chega para ser paga.









