— Esse Olise, você sabe quem é?
— O cara que disse que não conhecia o melhor jogador do Brasil?
— O mesmo. Fez hat-trick ontem. Mbappé não marcou.
A cena que circulou nas redes sociais dias antes do amistoso — Michael Olise afirmando desconhecer o principal nome da seleção brasileira para a Copa do Mundo — ainda estava fresca quando o atacante de 22 anos entrou em campo no Stade Pierre-Mauroy, em Lille, nesta segunda-feira, 8 de junho. O que veio a seguir foi uma resposta de 90 minutos: três gols, vitória por 3 a 1 sobre a Irlanda do Norte e o encerramento da preparação francesa em território europeu com uma afirmação tática que vai além da polêmica.
Como Olise construiu os três gols que mudaram o debate na França
O primeiro gol, aos 42 minutos do primeiro tempo, nasceu de uma combinação entre Upamecano, Doué e Ousmane Dembélé. O cruzamento do ponta desviou na marcação e sobrou limpo para Olise completar. Simples na descrição, mas revelador na leitura posicional: o atacante estava exatamente onde a bola ia cair. Aos 3 minutos do segundo tempo, ele ampliou após disputa aérea de Theo Hernández — sobra no pé direito, chute de primeira, sem chance para o goleiro. Aos 28, depois de a Irlanda do Norte descontar por Patrick Kelly, Olise recebeu aberto pela direita, cortou para o meio e acertou o ângulo para fechar o hat-trick.
Os três gols têm características distintas: um de oportunismo, um de potência e um de qualidade técnica individual. Essa variedade é exatamente o que Didier Deschamps precisava ver antes de embarcar para os Estados Unidos. O técnico havia deixado Antoine Griezmann no banco — uma aposta que já havia rendido frutos em preparativos anteriores — e escalou um time misto que testou combinações para o torneio.
O que o gol anulado de Mbappé revela sobre a hierarquia ofensiva francesa
Kylian Mbappé, que disputará sua terceira Copa do Mundo aos 27 anos, chegou a balançar as redes aos 19 minutos, mas o lance foi invalidado por impedimento. Não marcou no tempo regulamentar. A ausência de gol do camisa 10 não apaga o que foi documentado nos treinos — em uma sessão recente, ele recuperou a bola, usou um toque de bicicleta para superar Aurélien Tchouaméni e finalizou com precisão, em sequência que circulou dentro do acampamento francês. O jornalista Steven Sandor, que acompanha a evolução do futebol há décadas, colocou em perspectiva a presença física de Mbappé em campo:
"Ele é o jogador mais aterrorizante do mundo quando corre em direção a um defensor. Se ele está em velocidade contra um ou dois zagueiros centrais, é o único outro jogador na minha memória capaz de aterrorizar um defensor num duelo individual como Thierry Henry fazia."
A comparação com Henry não é casual. O ex-atacante é o maior artilheiro da história da seleção francesa, com 51 gols. Mbappé acumula números que o colocam nessa trajetória, mas a Copa de 2022 — perdida nos pênaltis para a Argentina de Lionel Messi, mesmo após Mbappé marcar três vezes na final — deixou uma lacuna que só um título pode preencher. A pressão não diminuiu com a chegada ao Real Madrid: o PSG conquistou duas Champions League após a saída do atacante, e o clube espanhol ainda não entregou o nível exigido.
O que ainda precisa ser respondido antes da estreia contra o Senegal
A vitória sobre a Irlanda do Norte encerrou uma preparação que incluiu uma atuação apagada contra a Costa do Marfim. A França chega ao torneio invicta por uma sequência consistente, mas a questão que o amistoso desta segunda-feira não resolveu completamente é sobre a coexistência entre Mbappé e Olise como protagonistas ofensivos — e não apenas como um principal e um coadjuvante.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da preparação francesa, Deschamps tem alternado entre esquemas que privilegiam a velocidade nas pontas e outros que pedem mais construção pelo meio. O hat-trick de Olise reforça o argumento de que o atacante do Bayern de Munique pode ser titular, e não apenas opção, quando a França precisar de um jogador capaz de criar e finalizar com a mesma eficiência.
A Shireen Ahmed, colaboradora sênior da CBC Sports, resumiu o peso simbólico desta Copa para a França e para Mbappé:
"Quando penso em alguém que considero uma lenda, penso em integridade, penso em caráter — e penso em Kylian Mbappé."
O grupo da França inclui Senegal, Uruguai e outro adversário ainda a confirmar. A estreia está marcada para terça-feira, 16 de junho, no Estádio MetLife, em Nova Jersey. Olise sobe ao avião com três gols nas pernas e uma polêmica resolvida em campo. Mbappé sobe com a responsabilidade de uma Copa que, aos 27 anos, pode ser a última em que ele é o favorito absoluto.
No vestiário do Stade Pierre-Mauroy, enquanto os jogadores saíam em fila, Olise foi o último a apagar a luz.








