Diz-se que a Copa do Mundo revela o que os amistosos escondem. Na tarde desta segunda-feira (8), em Lille, aconteceu o inverso: um amistoso expôs, com clareza incômoda, o que a seleção francesa preferiria guardar para depois do embarque para os Estados Unidos. A vitória por 3 a 1 sobre a Irlanda do Norte no Stade Pierre-Mauroy foi construída inteiramente por Michael Olise — e o silêncio de Kylian Mbappé ao longo dos 90 minutos foi tão eloquente quanto os três gols do camisa 11 do Bayern de Munique.

A noite em que Mbappé virou coadjuvante em Lille

Há uma cena no filme Whiplash em que o maestro Fletcher humilha o baterista principal trocando-o por um substituto que simplesmente toca melhor. A metáfora é cruel, mas serviu para descrever o que aconteceu diante de 50 mil torcedores na Decathlon Arena. Mbappé, o suposto regente ofensivo dos Bleus, teve um gol anulado por impedimento aos 19 minutos, desperdiçou passes açucarados de Doué, Olise e Theo Hernández e deixou o campo acumulando um festival de chances mal aproveitadas — incluindo uma cabeçada mandada para fora quando o placar já estava em 2 a 1. O atacante do Real Madrid segue a um gol de alcançar Olivier Giroud na artilharia histórica da França, com 57 tentos, e Giroud acompanhou a partida das tribunas sem ter o recorde ameaçado.

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Não foi apenas imprecisão técnica. Mbappé mostrou dificuldade para se movimentar entre as linhas compactas do 5-4-1 norte-irlandês, perdendo duelos de velocidade que costumam ser sua assinatura. Deschamps o manteve em campo até o apito final, mas a mensagem tática foi escrita por outro jogador.

Como Olise construiu o hat-trick que salvou a despedida

O primeiro gol chegou aos 42 minutos do primeiro tempo, quando a impaciência da torcida já começava a tomar forma nas arquibancadas. Upamecano lançou Doué pela esquerda, o cruzamento rasteiro encontrou Dembélé, a zaga bloqueou o chute e a bola sobrou limpa para Olise completar com o gol aberto. Simples, mas necessário — a França havia batido na retranca norte-irlandesa por mais de 40 minutos sem conseguir furar o bloqueio.

Na volta do intervalo, bastaram três minutos para o segundo. Após jogada iniciada por Theo Hernández, Olise aproveitou o rebote da defesa e encheu o pé de canhota para fazer 2 a 0. A Irlanda do Norte descontou aos 18 minutos da etapa final, quando Shea Charles ganhou a disputa com Upamecano e cruzou rasteiro para Patrick Kelly empurrar para as redes — gol que trouxe algum suspense e expôs a fragilidade defensiva francesa na saída de bola. A resposta veio aos 28 minutos, com a obra-prima da tarde: Olise recebeu aberto pela direita, puxou para o pé esquerdo e acertou uma finalização colocada no ângulo, sem chances para o goleiro. Aplaudido de pé, deixou o gramado substituído por Akliouche.

A retranca norte-irlandesa e o que ela revelou sobre os Bleus

A Irlanda do Norte não veio para jogar futebol em Lille. Postada em um ferrolho no esquema 5-4-1, a equipe abdicou da posse e apostou na compactação para frustrar os franceses. A estratégia funcionou por mais de 40 minutos no primeiro tempo e voltou a incomodar após o gol de Kelly na segunda etapa. O ponto mais preocupante, analisado em matéria do SportNavo antes do confronto, já apontava para a dificuldade dos Bleus em criar contra blocos baixos sem que Mbappé estivesse em dia — e o jogo confirmou o diagnóstico com precisão cirúrgica.

Dembélé, Doué e Saliba foram novidades na escalação titular em relação ao amistoso anterior, quando a França havia sido derrotada pela Costa do Marfim por 2 a 1 na quinta-feira (4). Saliba, aliás, se recuperava de lesão sofrida na final da Liga dos Campeões contra o PSG. A rotação mostrou que Deschamps ainda experimenta combinações, mas a dependência de Olise para resolver jogos difíceis é um padrão que não pode ser ignorado às vésperas do Mundial.

O efeito cascata para a estreia contra o Senegal

A França chega ao Grupo I da Copa do Mundo com Senegal, Iraque e Noruega como adversários. A estreia está marcada para a próxima terça-feira (16), às 16h (horário de Brasília), em Nova Jersey, contra uma seleção senegalesa que combina fisicalidade com qualidade técnica — perfil que pode explorar exatamente as fragilidades expostas contra a Irlanda do Norte. Se Mbappé não recuperar a eficiência que o tornou o jogador mais caro do mundo, a França corre o risco de chegar às fases eliminatórias dependendo de um único jogador para criar e finalizar.

Olise, aos 23 anos, está em momento extraordinário pelo Bayern de Munique nesta temporada 2025/2026, mas transformar um meia-atacante em salvador recorrente é uma aposta de risco alto em torneio de 64 seleções. O hat-trick desta segunda foi um alívio para a torcida francesa reunida em Lille — e, ao mesmo tempo, um alerta que Deschamps precisará responder nos próximos dias de preparação. Vale acompanhar de perto a escalação que o técnico escolherá para a estreia contra o Senegal: ela dirá muito sobre o que o treinador aprendeu com estas duas semanas de amistosos.