A última vez que um dirigente de clube brasileiro dissolveu o órgão responsável por julgá-lo — na véspera da votação que definiria seu afastamento — foi em cenário que ficou gravado como exemplo clássico de captura institucional no futebol nacional. Nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, o São Paulo Futebol Clube reviveu esse roteiro: Olten Ayres de Abreu Jr., presidente do Conselho Deliberativo, destituiu toda a Comissão de Ética do clube horas antes de a votação sobre seu afastamento ocorrer — votação que, no fim, foi cancelada.

Quem sai beneficiado com a nova Comissão de Ética

A composição da nova comissão é o dado mais revelador desta operação. Dos cinco integrantes nomeados por Ayres — José Rubens Macedo Soares Sobrinho, Luiz Braga, Caio Forjaz, Carlos Sadi e Kalil Rocha Abdala —, apenas Luiz Braga permanece da formação anterior. Segundo apuração do SportNavo, Ayres deve orientar a nova comissão a priorizar as expulsões do ex-presidente Julio Casares, do ex-diretor de futebol Carlos Belmonte e do ex-diretor administrativo Antonio Donizete (Dedé), trio que responde a investigações da Polícia Civil e do Ministério Público por supostas irregularidades. Esses três nomes são adversários políticos diretos de Ayres — o benefício da troca é, portanto, duplo: livra o presidente do Conselho do afastamento e arma o gatilho para punir os rivais.

O mecanismo que derrubou a votação antes da destituição

A sessão que analisaria o caso de Ayres já havia sido suspensa na segunda-feira, antes mesmo da destituição formal da comissão. O conselheiro Richard Magalhães, do grupo político SOMOS (antigo MSP), protocolou uma suscitação de dúvida estatutária, questionando a validade da votação com base no artigo do Estatuto utilizado para pautar a recomendação de afastamento. O vice-presidente do Conselho, João Farias, acatou o pedido e encaminhou o tema para análise jurídica. Ou seja: a votação já estava tecnicamente morta quando Ayres acionou o mecanismo mais drástico — a demissão do colegiado.

"Quando um órgão disciplinar é dissolvido às vésperas de um julgamento, não importa o argumento jurídico apresentado — a percepção pública de interferência já está consumada", avaliou um consultor de governança esportiva ouvido pela reportagem.

O argumento de Ayres e por que ele não se sustenta

Ayres alegou, em nota oficial, que a decisão decorre da "necessidade de preservação da credibilidade institucional", citando "manifestações públicas, vazamentos seletivos, antecipações de julgamento" como justificativas. O contra-argumento que ele antecipa — o de que se trata de revanchismo — é exatamente o que os dados contradizem: a comissão destituída havia emitido parecer que desconsiderou a expulsão de Ayres, recomendando apenas suspensão e solicitando abertura de inquérito policial para apurar suspeita de falsidade ideológica na formação do Conselho Consultivo. Não era um julgamento hostil — era o mais brando dos desfechos possíveis. Se a comissão fosse parcial contra Ayres, teria recomendado expulsão. Não recomendou. A tese da "falta de isenção" colapsa diante desse fato.

Num modelo de governança institucional, a métrica de independência de um órgão disciplinar pode ser medida pela taxa de concordância entre suas recomendações e os interesses do indicante — algo análogo ao que analistas de basquete chamam de Win Shares, que isola a contribuição individual do contexto coletivo. Aqui, a comissão antiga havia agido de forma autônoma ao recusar a punição máxima contra Ayres, o que, paradoxalmente, demonstrava exatamente a isenção que ele alega ter faltado.

Quem sai beneficiado com a nova Comissão de Ética Olten Ayres demite Comissão de
Quem sai beneficiado com a nova Comissão de Ética Olten Ayres demite Comissão de

O efeito cascata na disputa pelo comando do São Paulo

Harry Massis Jr., presidente da diretoria e adversário político de Ayres, havia protocolado o pedido de afastamento do líder do Conselho sob a acusação de gestão temerária na reforma estatuária do clube — processo que travou em estágio inicial. Com a nova comissão sob influência de Ayres, esse pedido dificilmente prosperará. A eleição para a presidência do clube está marcada para o fim de 2026, e Ayres nega ser candidato — mas controlar o órgão disciplinador às vésperas do pleito é uma vantagem estrutural que nenhum negacionismo verbal desfaz. O São Paulo, que já tinha no gramado uma temporada instável no Brasileirão, enfrenta agora uma crise de governança que pode contaminar decisões administrativas até dezembro.