Confesso: eu achei, durante meses, que o maior problema de Raphinha na Seleção era de confiança. Que o técnico não apostava nele de verdade. Hoje, às portas do MetLife Stadium em East Rutherford, Nova Jersey, com o calor úmido de junho colando na pele e a bandeira verde-amarela tremendo no vento frio do estádio, percebo que o problema é muito mais concreto — e muito mais tático.

A Copa do Mundo começa neste sábado (13) para o Brasil com um quebra-cabeça que Carlo Ancelotti ainda não resolveu completamente: onde encaixar Raphinha num ataque que perdeu Neymar por lesão e pode não contar com Vinícius Júnior em plenas condições? A resposta a essa pergunta vai moldar o estilo do Brasil no torneio — e talvez decidir se o país encerra ou não 24 anos de jejum mundial.

O problema que começa na ponta esquerda

A posição natural de Raphinha é a ponta direita. Lá, ele arranca em velocidade, cruza com precisão e chuta de fora da área com perigo real. Mas no Barcelona, ao longo da temporada 2025/2026, o treinador Hansi Flick foi migrando o atacante para o lado esquerdo — e o resultado surpreendeu. Partindo daquele setor, Raphinha ganhou liberdade para cortar em direção ao gol, aparecer mais vezes na área e finalizar com mais frequência. Os números subiram. A influência cresceu.

O problema é que, na Seleção Brasileira, a ponta esquerda tem dono registrado: Vinícius Júnior. O atacante do Real Madrid é a peça central do projeto de Ancelotti — o mesmo Ancelotti que o treinou no clube espanhol e que o conhece melhor do que qualquer outro técnico no mundo. Vini Jr. não abre mão da faixa esquerda, e Ancelotti não cogita tirá-lo de lá quando ele está disponível.

Mas e quando Vini não está? Ou quando está em dúvida? Aí o quebra-cabeça vira um dilema de verdade.

O que Ancelotti pode fazer com Raphinha sem Neymar em campo

A escalação confirmada pela ESPN para a estreia contra Marrocos coloca Raphinha na ponta direita: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Lucas Paquetá, Matheus Cunha, Raphinha e Vinícius Jr. Ou seja, com Vini Jr. disponível, o dilema se resolve — Raphinha vai para a direita, seu lado de origem, e o time encontra um equilíbrio razoável.

Mas o cenário muda radicalmente se Vini Jr. sair de cena. Segundo análise do jornal catalão Sport, Ancelotti tem testado Raphinha numa função mais centralizada, atuando como um falso 9 ou como meia avançado, recebendo entre as linhas e participando da construção. A adaptação exige que o atacante receba sob pressão e tome decisões mais rápidas — algo que seu repertório técnico permite, mas que ainda não é seu habitat natural.

Neymar, por sua vez, está no banco neste sábado — mas não jogará. O camisa 10 do Santos sofreu uma lesão grau dois na panturrilha direita no dia 17 de maio, num jogo contra o Coritiba pelo Brasileirão. Desde que se apresentou à delegação, em 27 de maio, não treinou com o grupo. Neste sábado, enquanto os titulares seguiam o cronograma de dia de jogo, Neymar fez fisioterapia. Ele vai ao MetLife Stadium, vai sentar no banco de tênis ao lado dos companheiros — e vai assistir.

"Está trabalhando duro para estar em forma. A expectativa é que possa estar com o grupo na próxima semana. Quando o convocamos, não convocamos apenas pelas qualidades inquestionáveis, mas também pela experiência que pode ser importante para os mais jovens", disse Ancelotti em coletiva na sexta-feira (12), no próprio MetLife Stadium.

A frase de Ancelotti entrega algo importante: Neymar, neste momento, é também uma liderança de vestiário. Na véspera da estreia, o próprio jogador publicou nas redes sociais: "Amanhã é o dia. Prontos para os desafios. Vamos, Brasil." Uma mensagem curta, mas que chegou ao grupo.

O que as evidências apontam para o papel de Raphinha no torneio

Então, afinal, onde Raphinha rende mais nesta Seleção?

A resposta honesta, baseada nos dados desta temporada pelo Barcelona e nos testes de Ancelotti, é: pela direita, quando Vini Jr. está na esquerda. O triângulo ofensivo funciona melhor quando cada um ocupa seu território de origem. O risco de deslocar Raphinha para funções mais centrais é perder a explosão direta que ele oferece quando arranca em velocidade pela faixa.

Mas há um cenário em que o falso 9 faz sentido — e ele pode aparecer ao longo do torneio. Se o Brasil precisar de mais posse e menos verticalidade em alguma fase eliminatória, Raphinha centralizado, com Rodrygo ou outro atacante pela direita, cria uma linha ofensiva diferente e menos previsível.

A comentarista e ex-jogadora Alline Calandrini, em entrevista ao Lance!, elogiou a estrutura defensiva montada por Ancelotti, mas o ponto de atenção ofensivo permanece. Ela destacou a dupla Marquinhos e Gabriel Magalhães como um dos grandes trunfos do Brasil:

O problema que começa na ponta esquerda Onde Raphinha rende mais e por que isso
O problema que começa na ponta esquerda Onde Raphinha rende mais e por que isso
"Temos os dois melhores zagueiros do mundo, não à toa chegaram a uma decisão de Champions League. Marquinhos tem uma liderança, um futebol, enquanto Gabriel Magalhães reúne imposição física e também muita qualidade. Estamos muito bem servidos nessa dupla", afirmou Alline.

A defesa, ao menos, não preocupa. O ataque — seria injusto chamar de crise, porque o elenco é talentoso demais para isso, mas é uma instabilidade em escala de Copa do Mundo — ainda depende de respostas que só o campo vai dar.

O MetLife Stadium, inaugurado em 2010 e com capacidade para 82,5 mil espectadores, já viu o Brasil jogar cinco vezes — três vitórias, um empate, uma derrota. Foi lá que Neymar estreou pela Seleção, em agosto de 2010, contra os Estados Unidos. Foi lá que o Brasil disputou seu milésimo jogo, em 2012, contra a Colômbia. Agora, o mesmo estádio vai receber a estreia do Brasil nesta Copa e, em julho, a grande final. O gramado foi trocado especialmente para o torneio — a FIFA exigiu grama natural no lugar do sintético que causava lesões nos jogadores da NFL.

O presidente Lula mandou recado em vídeo nas redes sociais neste sábado, pedindo que Ancelotti oriente os jogadores a mostrar "garra e alma". A mensagem chegou. Agora, às 19h (horário de Brasília), com o calor de 31°C e a umidade pesada de Nova Jersey pressionando os pulmões, Raphinha entra em campo pela direita — e Ancelotti começa a responder, na prática, a pergunta que perseguiu sua convocação desde o início. O segundo jogo do Brasil, contra o Haiti, pode ser a primeira vez em que o técnico italiano precisa dar uma resposta diferente.