Dois metros de vantagem numa corrida de cem metros rasos.
Essa é a distância real entre Palmeiras e Flamengo nos rankings globais de 2026 — não um abismo, mas tampouco um empate técnico. A narrativa que circula nas redes sociais trata as duas posições como equivalentes, como se estar no top 10 da IFFHS e no top 50 da Brand Finance fosse a mesma coisa para os dois clubes. Os dados, porém, contam histórias distintas quando examinados separadamente.
O que a IFFHS mede e por que o Palmeiras leva vantagem
O ranking da Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS) considera o desempenho dos clubes masculinos entre 1º de novembro de 2024 e 31 de outubro de 2025. O sistema de pontuação é direto: vitórias na primeira divisão nacional valem quatro pontos, empates dois. Na Copa Libertadores, o peso dobra — vitórias rendem 14 pontos, empates 12. O Paris Saint-Germain lidera com 567 pontos, seguido por Real Madrid (511) e Chelsea (484).
O Palmeiras aparece em oitavo com 378 pontos, empatado numericamente com o Arsenal. O Flamengo fecha o top 10 com 374 pontos — quatro a menos que o rival. A diferença parece irrisória, mas ela reflete um período em que o Palmeiras sustentou consistência nos dois fronts: Brasileirão e Libertadores. O clube alviverde terminou a fase de grupos da Libertadores de 2025 com aproveitamento acima de 70%, e o sistema de pontuação da IFFHS penaliza qualquer oscilação na competição continental de forma amplificada.
"A gestão eficaz da marca é fundamental para o sucesso de um clube, aumentando receitas por meio de patrocínios, merchandising e engajamento dos torcedores", analisa Eduardo Chaves, managing director da Brand Finance Brasil.
O que a tabela da IFFHS não evidencia diretamente é que tanto Palmeiras quanto Arsenal somaram 378 pontos — o que significa que o clube brasileiro competiu de igual para igual com uma das franquias mais ricas da Premier League no período avaliado. Para o futebol sul-americano, isso tem peso histórico.
O Flamengo vence onde o Palmeiras recua — no valor de marca
Aqui a narrativa se inverte. No ranking anual da Brand Finance, que avalia o valor das marcas dos clubes de futebol, o Flamengo retornou ao top 50 global após um ano de ausência, alcançando a 44ª posição com US$ 121,2 milhões — crescimento de 21% em relação ao ciclo anterior. O clube carioca é o único fora da Europa na lista. O Palmeiras, por sua vez, registrou queda de 12% no mesmo período, caindo para US$ 74,9 milhões e ficando de fora do ranking global das 50 marcas mais valiosas.
A Brand Finance aponta um motivo concreto para a valorização rubro-negra: a participação na primeira edição da Copa do Mundo de Clubes da FIFA, incluindo vitória sobre o Chelsea — que acabou sendo o campeão do torneio — na fase de grupos. Esse resultado gerou exposição global que o Palmeiras, ausente da competição naquele formato, simplesmente não teve acesso. É como comparar um artista que lança um álbum com distribuição internacional a outro que só circula no mercado doméstico — por mais qualidade que o segundo tenha, o alcance é estruturalmente diferente.
Entre os demais clubes brasileiros na Brand Finance, o Botafogo foi o que mais cresceu proporcionalmente: aumento de 96%, chegando a US$ 24,5 milhões. O Fluminense manteve valor estável em US$ 30,6 milhões. O Cruzeiro cresceu 28%, atingindo US$ 17,4 milhões. O valor total das marcas dos clubes brasileiros cresceu 9% entre 2024 e 2025, segundo o estudo.
Dois rankings, duas lógicas — e o que isso revela sobre o futebol brasileiro
A leitura conjunta dos dois rankings expõe uma tensão estrutural no futebol brasileiro que o SportNavo tem acompanhado ao longo desta temporada: o desempenho esportivo e o valor comercial não caminham necessariamente juntos, e os clubes que entendem essa diferença tomam decisões mais inteligentes de investimento.
O Palmeiras, com Abel Ferreira no comando desde 2020, construiu uma máquina de resultados que se reflete diretamente na pontuação da IFFHS. Seis títulos do Brasileirão nos últimos anos, duas Libertadores (2020 e 2021), consistência que poucos clubes no mundo conseguem replicar por tanto tempo. Esse histórico acumulado explica os 378 pontos no ranking esportivo.
O Flamengo, por outro lado, operou em outra frequência no mesmo período. A participação no Mundial de Clubes da FIFA — com o resultado histórico contra o Chelsea — funcionou como um catalisador de marca que não tem equivalente direto em pontos IFFHS. O rubro-negro também se beneficia da estrutura de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e da ampliação do mercado, fatores que a Brand Finance aponta explicitamente como variáveis de crescimento.

A diferença de US$ 46,3 milhões no valor de marca entre os dois clubes (US$ 121,2 mi para o Flamengo contra US$ 74,9 mi para o Palmeiras) não é acidental — ela é o resultado de estratégias deliberadas de posicionamento global que o Flamengo perseguiu com mais agressividade nos últimos 24 meses. A queda de 12% do Palmeiras na Brand Finance tampouco é catastrófica; é um sinal de que o clube priorizou o ciclo esportivo em detrimento da exposição comercial internacional.
Nenhum dos dois modelos é superior em abstrato. Um clube que lidera o ranking esportivo global e outro que lidera o ranking de marcas entre os brasileiros — essa divisão diz muito sobre onde cada um apostou suas fichas. O Palmeiras volta à Libertadores em 2026 com o status de favorito regional consolidado. O Flamengo entra na temporada com o maior valor de marca do futebol brasileiro e a memória recente de ter batido o futuro campeão mundial na fase de grupos.
Nas arquibancadas do Allianz Parque e do Maracanã, dois times que já somam mais de 750 pontos IFFHS entre si — mais do que o Inter de Milão e o Bayern de Munique juntos no mesmo ranking — preparam mais um capítulo de uma rivalidade que, pela primeira vez na história, tem peso comprovado em escala global.










