O Maracanã estava carregado de uma expectativa que mistura saudade e cobrança — aquela tensão específica de uma torcida que quer acreditar mas ainda precisa de provas. Foi nesse ambiente, com 70 mil pares de olhos fixos no gramado, que Carlo Ancelotti descobriu, no segundo tempo contra o Chile, que tem mais peças do que imaginava para montar o quebra-cabeça da Copa do Mundo. Luiz Henrique entrou aos 19 minutos da etapa final e transformou o jogo. Lucas Paquetá veio seis minutos depois e, em menos de 60 segundos em campo, marcou o segundo gol do Brasil na vitória por 3 a 0 — a última partida da Seleção em solo brasileiro antes do Mundial.
O vestiário antes do campo — e o peso de dois anos de ausência
A história de Paquetá chegar a esse jogo começou em agosto de 2023, quando a Federação Inglesa de Futebol abriu investigação sobre suposta manipulação de apostas esportivas. Durante um ano e dois meses, o meia viu uma negociação encaminhada com o Manchester City ser cancelada, perdeu espaço na Seleção e precisou, nas suas próprias palavras, trabalhar a mente para atravessar o período. A absolvição veio em 31 de julho deste ano. A convocação, em 25 de agosto. O gol, 25 minutos depois de entrar no Maracanã — o mesmo estádio onde cresceu defendendo o Flamengo.
"Cara, acho que é uma sensação única que eu pude sentir hoje. Acho que estava escrito, voltar ao Maracanã, que é a minha casa... Poder marcar e voltar a ajudar a seleção. Muito feliz depois de tudo que passei, que suportei nesses últimos dois anos. Agora finalmente posso jogar meu futebol leve", disse Paquetá ao SporTV logo após o apito final.
Luiz Henrique carregava um peso diferente, mas igualmente real. Depois de sair do Botafogo para o Zenit, da Rússia, o atacante ficou fora dos holofotes europeus por conta do isolamento do clube russo nas competições internacionais, reflexo direto da guerra contra a Ucrânia. Rendimento mantido, visibilidade reduzida. Quando Ancelotti o chamou, a torcida já havia decidido: seu nome foi gritado nas arquibancadas antes mesmo de ele pisar no gramado. Segundo o próprio jogador, a preparação foi espiritual e afetiva — ele se ajoelhou no hotel antes da preleção e pediu para ser "o Luiz Henrique do Vale do Carangola", aquele que jogava solto com os amigos em Petrópolis.
"Pensei que tinha que ser o Luiz Henrique que saiu lá de Petrópolis, quando jogava com meus amigos. Jogava leve, jogava solto", explicou o atacante ao comentar sua postura nesta volta à Seleção.
O que Ancelotti viu em campo muda o desenho tático do Brasil
Antes das substituições, o Brasil fazia um jogo funcional, mas sem o desequilíbrio necessário para ampliar o placar além do 1 a 0. A entrada de Luiz Henrique alterou a dinâmica ofensiva de forma imediata: o atacante criou espaços em velocidade, pressionou a linha defensiva chilena e foi o autor do cruzamento que Paquetá completou de cabeça para o 2 a 0. O terceiro gol da noite, marcado por Estêvão em uma bicicleta que parou o estádio, coroou uma segunda etapa em que o Brasil produziu mais em 25 minutos do que em toda a primeira parte.
O gol de bicicleta de Estêvão foi o primeiro dele pela Seleção principal — um marco para um jogador de 18 anos que já acumula passagens por times europeus de ponta e que, conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta temporada, vem sendo monitorado por Ancelotti como titular em potencial para o Mundial. A noite contra o Chile mostrou que o jovem tem personalidade para atuar sob pressão no Maracanã, o que é uma informação tática tão relevante quanto qualquer dado de desempenho físico.
O ponto central para Ancelotti é que Paquetá e Luiz Henrique não são simplesmente opções de banco — são jogadores que mudam o padrão de jogo. Paquetá oferece construção pelo meio com mobilidade e chegada à área, algo que o Brasil perdeu durante o período de sua ausência. Luiz Henrique, por sua vez, é o pulmão da equipe em transições rápidas: acelera, carrega, distribui e obriga a defesa adversária a recuar. A dupla funcionando em conjunto cria um corredor de pressão ofensiva que o Brasil não tinha demonstrado com tanta clareza nos últimos meses.
Como essa dupla redesenha as escolhas de Ancelotti para o Mundial
A Copa do Mundo começa com o Brasil ainda sem uma identidade tática completamente consolidada — ao menos era essa a percepção até quinta-feira. O que o jogo contra o Chile revelou é que Ancelotti tem, agora, dois perfis complementares que podem operar juntos ou em rodízio dependendo do adversário. Paquetá como meia de construção libera Rodrygo e Vinicius Jr. para posições mais avançadas, enquanto Luiz Henrique pode atuar tanto como extremo quanto como segundo atacante em um 4-3-3 ou 4-2-3-1.
A questão que fica aberta — e que o próprio técnico precisará responder nas próximas semanas — é se Paquetá começa como titular ou se seu papel é de impacto imediato vindo do banco, como aconteceu contra o Chile. Há um argumento tático para cada opção: como titular, ele organiza o jogo desde o início; como reserva, ele entra quando os espaços já estão abertos e o desgaste adversário é maior. O gol em menos de um minuto em campo pesa para o segundo cenário, mas dois anos fora da Seleção pedem tempo de adaptação ao ritmo de jogo coletivo.
O Brasil volta a campo pelas Eliminatórias em setembro, contra a Bolívia, em La Paz — altitude que historicamente condiciona as escolhas táticas e exige um elenco com profundidade real. Ancelotti terá esse jogo, mais um confronto fora de casa na sequência, para fechar sua lista dos 26 convocados para o Mundial. Paquetá e Luiz Henrique entraram no Maracanã como dúvidas e saíram como certezas — e essa mudança de status, em um ciclo tão curto antes da Copa, pesa muito mais do que um placar de 3 a 0.
O Maracanã estava carregado de uma expectativa que mistura saudade e resposta — e, desta vez, o campo deu as respostas que a torcida precisava ouvir.








