Não, Scott Tanser não é o zagueiro mais vistoso que a Juventus poderia ter escolhido para vestir a camisa 3. Essa seria a pergunta errada. A pergunta certa — a que fica na cabeça de quem acompanha o futebol europeu com algum rigor histórico — é outra: o que faz um jogador moldado nas ligas escocesas chegar à Champions League aos 31 anos e, em vez de ser engolido pelo ambiente, simplesmente... funcionar?

O número que define a temporada

Trinta e oito jogos. É a cifra que ancora esta conversa sobre o futebol inglês e seus personagens improváveis. Trinta e oito partidas disputadas na temporada atual — número idêntico ao de uma campanha completa de Premier League —, com 2 gols e 4 assistências. Para um zagueiro, mais especificamente um lateral-esquerdo de 182 cm e 65 kg, esse rendimento ofensivo não é ruído estatístico: é declaração de intenção. Basta lembrar que Carlos Dunga, no seu auge como volante da Juventus nos anos 90, não chegava a esses números de contribuição direta em determinadas temporadas — e era celebrado como peça de equilíbrio insubstituível. O critério mudou. O lateral moderno precisa ser meia quando o time tem a bola, e Tanser, nesta temporada, entendeu isso com uma clareza que poucos esperavam de alguém vindo da Premiership escocesa.

Como ele chegou aqui

O arco de carreira de Tanser tem a textura daquelas histórias que o futebol britânico produz com regularidade quase artesanal: começo discreto, evolução lenta, revelação tardia. Ele estreou como profissional pelo Rochdale em abril de 2013 — um clube da quarta divisão inglesa, daqueles que formam jogadores para o sistema sem alarde — e acumulou 57 partidas antes de seguir para o Port Vale em janeiro de 2017. Cinco meses depois, cruzou a fronteira e foi para a Escócia, assinar com o St Johnstone. Foi lá que o enredo mudou de tom.

Na temporada 2020-21, o St Johnstone viveu um dos momentos mais extraordinários de sua história centenária: conquistou a Copa da Escócia e a Copa da Liga Escocesa na mesma campanha, feito que o clube jamais havia alcançado. Tanser estava no meio daquela construção, não como coadjuvante, mas como peça de rotina — o tipo de jogador que os títulos coletivos dependem e que as manchetes raramente citam pelo nome. Em junho de 2021, ele migrou para o St Mirren, também na Premiership escocesa, e em 2025-26 voltou a levantar a Copa da Liga Escocesa com o clube. Três troféus em contextos distintos, com camisas distintas: isso não é sorte de calendário.

Scott Tanser (Juventus)
Scott Tanser (Juventus)

"Lateral que vence campeonatos em dois clubes diferentes, com estilos diferentes, não é coincidência — é um jogador que entende o que cada vestiário precisa ouvir." — comentarista de futebol escocês, em análise pós-temporada

A chegada à Juventus, noticiada em matéria de maio de 2026, representou o salto mais improvável desse percurso. Da Premiership escocesa à Champions League existe uma distância que vai muito além de quilômetros: é uma diferença de intensidade tática, de velocidade de decisão, de pressão institucional. Tanser atravessou esse abismo com 31 anos — a idade em que a maioria dos laterais começa a pensar em desaceleração, não em reinvenção.

Scott Tanser (Juventus)
Scott Tanser (Juventus)

O que o faz diferente dos pares

Historicamente, o futebol italiano sempre teve relação ambígua com laterais estrangeiros de formação britânica. Quando a Juventus de Lippi nos anos 90 dominava a Serie A com saldos de gols que às vezes ultrapassavam os 40 positivos em uma única temporada, os laterais eram italianos ou sul-americanos — Pessotto, Zambrotta vieram depois, mas o DNA era mediterrâneo. A Premier League exportava atacantes e meias para a Itália; raramente zagueiros. Tanser representa uma inversão desse fluxo, e o que o distingue dentro desse contexto é precisamente sua capacidade de contribuir ofensivamente sem abrir mão da função defensiva primária.

Com 65 kg distribuídos em 182 cm de altura, ele não é o perfil físico dominante que o futebol italiano historicamente valorizou na zaga — pense em Maldini, em Cannavaro, em Chiellini, todos com musculatura mais robusta para os duelos aéreos. Tanser compensa com leitura de jogo e posicionamento, qualidades que a Escócia, com seu futebol direto e de alta intensidade, forja de maneira peculiar. Quem passou anos na Premiership escocesa aprende a antecipar sob pressão constante, porque o ritmo não dá pausa para hesitar.

As 4 assistências nesta temporada são, nesse sentido, o detalhe mais revelador. Assistência de zagueiro não acontece por acaso: pressupõe leitura do movimento dos companheiros, qualidade de passe e, principalmente, coragem para aparecer em zonas de criação quando o time precisa. É o tipo de contribuição que Roberto Carlos oferecia ao Real Madrid entre 1996 e 2007 — em escala diferente, naturalmente, mas o princípio é o mesmo: o lateral que não para na linha defensiva muda o equilíbrio de forças do meio-campo.

Os limites a vencer

Nenhum perfil honesto ignora as arestas. Tanser chegou à Juventus sem um histórico de conquistas em competições de elite europeia — seus três troféus foram construídos em um contexto de futebol de menor pressão midiática e financeira. A Champions League, em matéria do SportNavo publicada em maio de 2026 que acompanhou sua chegada ao clube, já sinalizava essa interrogação: como alguém calibrado pelo futebol britânico se adapta ao ritmo de eliminatórias continentais com essa intensidade?

Os 38 jogos desta temporada respondem parcialmente à pergunta, mas não a fecham. A regularidade está provada; a eficiência em momentos decisivos — quartas, semifinais, jogos de volta fora de casa — ainda depende de mais evidências. Há também a questão da longevidade: com 31 anos completos em outubro de 2025, Tanser está na fase em que o corpo de um lateral começa a negociar com o calendário. As temporadas na Escócia foram fisicamente exigentes, mas a cadência de uma equipe de ponta europeia — viagens, altitude de pressão, densidade de jogos — é um metabolismo diferente.

O que os próximos doze meses vão revelar, antes de qualquer outra coisa, é se Tanser consegue manter essa presença de 38 jogos em uma segunda temporada completa pela Juventus — ou se o nível de exigência vai cobrar sua fatura. Jogadores que chegaram tarde ao topo do futebol europeu costumam ter janelas curtas, mas intensas. Pires no Arsenal, Dida no Milan, Emre no Newcastle: histórias de chegada tardia que deixaram marca antes de o tempo cobrar a conta. Tanser está escrevendo a sua própria versão dessa narrativa, com calma britânica e consistência escocesa — e isso, por si só, já é digno de atenção.