Se o futebol brasileiro precisasse eleger um único técnico que personifica a transição entre a era da improvisação tática e a profissionalização do cargo, o nome seria Carlos Alberto Parreira. Essa resposta não é sentimental — está nos números: 117 jogos à frente da Seleção Brasileira, com 64 vitórias, 39 empates e apenas 14 derrotas, além de participações em sete Copas do Mundo por cinco seleções diferentes. O problema é que, nesta quarta-feira, 17 de junho de 2026, esse nome voltou às manchetes não por conquistas, mas pela internação do treinador de 83 anos no Hospital Samaritano Barra, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, onde segue em tratamento contra um linfoma de Hodgkin diagnosticado antes de fevereiro deste ano.

A internação de Parreira e o silêncio que fala por si

O Hospital Samaritano Barra confirmou a internação em nota oficial, mas se limitou ao mínimo exigido pela legislação vigente:

"Por manter o compromisso com a privacidade e a confidencialidade de seus pacientes, não divulga informações sobre estado de saúde, obedecendo o que dispõe a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)."

Familiares e representantes do técnico não se pronunciaram até o momento sobre os motivos específicos da internação. O tratamento quimioterápico contra o linfoma de Hodgkin — câncer que afeta o sistema linfático — está em curso desde fevereiro de 2026. A CBF havia divulgado nota em nome da família informando que Parreira "vem apresentando excelente resposta" ao tratamento. O linfoma de Hodgkin tem incidência de três casos por 100 mil habitantes no Brasil e, embora curável em muitos casos, exige ciclos intensos de quimioterapia intravenosa e, eventualmente, radioterapia.

O precedente de 1994 e o que Parreira construiu diferente de todos

Para entender o peso histórico desse momento, é preciso voltar a um episódio que a nova geração de técnicos brasileiros ainda estuda. Em 1994, nos Estados Unidos, Parreira entregou ao Brasil o tetracampeonato mundial com uma proposta tática que contrariava a tradição do futebol-arte: organização defensiva, disciplina posicional e aproveitamento máximo de jogadores como Mazinho e Mauro Silva no meio-campo. A decisão foi duramente criticada pela imprensa da época, mas o resultado — 1 a 0 sobre a Itália na final, nos pênaltis — encerrou 24 anos de jejum.

Parreira não chegou ao cargo em 1994 como estreante. Antes, havia dirigido Kuwait, Emirados Árabes e Arábia Saudita, acumulando dez passagens por seleções estrangeiras — um currículo que, à época, era praticamente inédito para um treinador brasileiro. A distância entre sua experiência internacional e a de qualquer outro técnico nacional do período era comparável à que separa Belém de Porto Alegre: dois mundos no mesmo mapa. Esse repertório foi decisivo para que ele construísse uma comissão técnica que incluía Zagallo como coordenador, numa parceria que havia começado ainda em 1970, quando Parreira era preparador físico da seleção campeã no México.

"O Zagallo era o meu melhor amigo no futebol. Meu mestre. Foi um cara que me ajudou, me protegeu e me ensinou tudo que aprendi no futebol. Foi um privilégio meu ter ele ao meu lado por tantos anos", disse Parreira ao ser informado da morte do amigo, no início de 2024, em entrevista à TV Globo — aparição que revelou ao público sua aparência debilitada.

O linfoma de Hodgkin e o que a doença representa para o futebol brasileiro

A nota divulgada pela CBF em nome da família, quando o tratamento foi tornado público, foi assinada pelo presidente Ednaldo Rodrigues com os seguintes termos:

"O presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, em nome de todos os torcedores brasileiros, deseja pronta recuperação ao professor Parreira."

O uso do título "professor" não é acidental. Parreira foi o técnico que, antes de qualquer outro no Brasil, tratou o cargo como disciplina acadêmica — com análise de adversários, preparação física periodizada e reuniões táticas sistemáticas. Esse modelo, hoje padrão em qualquer clube da Série A do Brasileirão, foi introduzido por ele décadas antes de virar protocolo. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente sobre a profissionalização das comissões técnicas no futebol nacional, o impacto dessa geração de treinadores nos anos 1990 já havia sido mapeado como divisor de águas estrutural.

O que a nova geração herda de um técnico de 83 anos internado em 2026

Técnicos como Dorival Júnior, Tite e Fernando Diniz cresceram assistindo Parreira trabalhar. Todos eles, em entrevistas ao longo dos anos, citaram o tetracampeonato de 1994 como referência de gestão de grupo sob pressão máxima. A capacidade de Parreira de blindar a seleção da cobrança pública — especialmente diante de uma imprensa que queria Romário como protagonista absoluto e encontrou um time equilibrado — é estudada até hoje em cursos de treinadores da CBF.

Parreira também conquistou o Campeonato Brasileiro de 1984 pelo Fluminense e a Copa do Brasil de 2002 pelo Corinthians, dois títulos nacionais que reforçam que sua competência não se restringia ao futebol de seleção. Aos 83 anos, internado no Rio de Janeiro enquanto o Brasil se prepara para a Copa do Mundo de 2026, ele representa uma geração que construiu o alicerce sobre o qual o futebol brasileiro atual tenta se sustentar.

O Hospital Samaritano Barra, referência no tratamento oncológico no Rio de Janeiro, segue sem divulgar informações sobre o quadro clínico atual. A família, por ora, mantém silêncio. O que resta é a imagem registrada no velório de Zagallo, em janeiro de 2024: Parreira de pé, emocionado, despedindo-se do parceiro de uma vida inteira no futebol — magro, cabelos ralos, mas presente. Ainda presente.