Cinco acusações de estupro. Um visto negado. Um julgamento marcado para 2027. Três coisas definem o momento de Thomas Partey nesta Copa do Mundo — e as três pesam mais do que qualquer bola que ele vai tocar em Boston.
O número que antecedeu tudo — cinco acusações e uma cronologia que não para de crescer
A investigação começou em fevereiro de 2022, quando a Polícia Metropolitana de Londres recebeu a primeira denúncia. Em julho de 2025, o indiciamento formal veio: cinco crimes de estupro envolvendo duas mulheres e uma acusação de agressão sexual contra uma terceira, todos supostamente cometidos entre abril de 2021 e junho de 2022 — período em que Partey defendia o Arsenal na Premier League. Em fevereiro de 2026, mais duas acusações foram adicionadas ao processo. O jogador, em todas as ocasiões, se declarou inocente. Libertado sob fiança, ele tem como condição não contatar as mulheres que o acusaram. O julgamento, que chegou a ser marcado para novembro de 2026, pode ser adiado para o início de 2027.
Para efeito de comparação — e o dado incomoda — Partey acumula hoje mais acusações criminais formais do que gols marcados pela seleção de Gana em toda a fase de grupos das últimas duas Copas do Mundo somadas. Não é uma comparação esportiva. É uma medida de proporção do problema que o futebol ganês escolheu ignorar ao convocá-lo.
O Canadá fecha a porta e Gana descobre a Copa sem seu vice-capitão
O aeroporto de Toronto nunca viu Thomas Partey. Em 10 de junho, o Departamento de Imigração, Refugiados e Cidadania do Canadá negou o visto de residência temporária ao jogador — na mesma data em que a delegação de Gana embarcava para os Estados Unidos. A decisão foi direta: Partey foi considerado inadmissível em razão das acusações criminais que enfrenta no Reino Unido. O que agravou ainda mais a situação, segundo o jornal The Athletic, foi a descoberta de que o formulário de solicitação de visto apresentado em 21 de maio indicava que o atleta não havia sido acusado de nenhum crime em qualquer país. A advogada do jogador confirmou em audiência que as acusações não constavam no material enviado às autoridades canadenses.
A Fifa, questionada, emitiu comunicado confirmando a situação e lavou as mãos com precisão cirúrgica:
"A Fifa confirma que o jogador Thomas Partey não poderá viajar da concentração da seleção de Gana em Boston, nos Estados Unidos, ao Canadá para seu primeiro jogo contra o Panamá, já que sua solicitação de visto foi negada pelo governo canadense. Como em eventos anteriores da Fifa, o governo anfitrião determina em última instância quem recebe um visto e tem permissão para entrar no país."Gana venceu o Panamá por 1 a 0 sem o vice-capitão — mas a ausência foi notada. O time jogou, o resultado veio, e a pergunta que ficou no ar foi mais pesada do que o placar: o que acontece quando ele aparecer?
A resposta chegou antes mesmo do apito inicial do segundo jogo. No amistoso preparatório contra o País de Gales, em Cardiff, Partey foi recebido com uma chuva de vaias durante os 45 minutos em que esteve em campo. O técnico Carlos Queiroz — que o manteve na convocação mesmo sob pressão — saiu em defesa pública do jogador:
"Até onde eu sei, na Inglaterra, em Portugal, ou em qualquer lugar, ainda vivemos com a presunção de inocência, até que um tribunal tome uma decisão. Mas hoje somos condenados mesmo antes de termos a oportunidade de nos defendermos."A declaração foi corajosa. E também politicamente arriscada.
O julgamento paralelo que a Copa não consegue pausar
Boston, terça-feira. O calor úmido da costa leste dos EUA e um jogo que, em condições normais, seria apenas mais um duelo de grupo. Mas Gana x Inglaterra — na Copa do Mundo — carrega um subtexto que a Fifa não consegue controlar: Partey vai a campo justamente contra o país onde o processo criminal tramita. Declan Rice e Bukayo Saka, ex-companheiros de Arsenal, estarão do outro lado. A Federação Inglesa de Futebol deixou a critério de cada jogador a decisão de cumprimentar ou não Partey no protocolo pré-jogo — o que, por si só, já é uma declaração política. Thomas Tuchel, técnico da Inglaterra, tentou desviar:
"Em algum momento deve ser permitido que um time enviado para uma Copa do Mundo seja apenas um time de futebol."
Mas não é. E não vai ser. Partey — que assinou com o Villarreal em agosto de 2025, após o Arsenal não renovar seu contrato no fim da temporada passada — chega ao confronto mais simbólico de sua carreira carregando um peso que nenhuma preparação tática resolve. O clube espanhol, segundo apurado em matéria do SportNavo, ainda não se manifestou publicamente sobre o futuro do jogador no elenco após o desfecho do julgamento. O contrato existe. A situação jurídica também.
O que está em jogo agora vai além de Gana avançar ou não no Grupo L — onde também estão Croácia e Panamá. O julgamento de Partey, previsto para o início de 2027, vai determinar não só o futuro de um jogador de 32 anos, mas o precedente que o futebol mundial vai ou não criar para casos semelhantes. Gana enfrenta a Croácia na terceira rodada da fase de grupos, com data ainda a ser confirmada pela Fifa — e Partey, desta vez, deve estar disponível para entrar em campo.








