"Esta pode ser uma Copa do Mundo contra o cansaço." A frase é de Marquinhos, capitão da Seleção Brasileira, dita logo após a conquista da Champions League pelo Paris Saint-Germain. Não foi retórica. Foi diagnóstico.
O formato que nenhuma geração anterior enfrentou
A Copa do Mundo de 2026 tem uma arquitetura inédita: 39 dias de torneio e até 8 jogos para o time que erguer o troféu. Para efeito de comparação, o Brasil campeão em 2002 disputou 7 partidas em 25 dias. A equipe de 1970, considerada por muitos a melhor da história, também jogou 6 vezes no México. Agora, uma eventual seleção finalista precisará repetir o esforço físico de 2002 e ainda adicionar mais um jogo ao final, num calendário 56% mais longo.
A aritmética do desgaste não é abstrata. Seria injusto chamar de revolução estrutural — mas é uma revolução em escala fisiológica. Cada rodada eliminatória exige recuperação muscular de 72 a 96 horas em condições ideais. Com jogos a cada quatro ou cinco dias, esse intervalo raramente será respeitado, sobretudo nas fases finais do torneio.
Carlo Ancelotti carrega uma memória histórica precisa sobre o tema. O técnico italiano tem convicção de que um dos fatores determinantes para a Itália não conquistar o título em 1994 foi o fato de a Azzurra ter passado quarenta dias no calor sufocante de Nova Jersey, na costa leste dos Estados Unidos. Enquanto isso, o Brasil de Romário e Bebeto se preparava em São Francisco, na costa oeste, com temperaturas significativamente mais amenas. A Itália chegou à final contra o Brasil exausta, e perdeu nos pênaltis após 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação.
Vinicius Júnior e a conta que não fecha antes de junho
Quantos jogos um atleta de elite consegue disputar em alta intensidade antes que o corpo comece a cobrar a fatura?
Vinicius Júnior chegou à Copa do Mundo 2026 com 53 partidas disputadas na temporada europeia, o maior número entre todos os brasileiros convocados. O atacante do Real Madrid acumulou esse volume entre La Liga, Champions League e demais competições, praticamente sem pausas desde agosto de 2025. Para situar historicamente: Ronaldo Fenômeno, em 2002, vinha de uma temporada de recuperação após lesões graves e chegou ao Japão e Coreia do Sul relativamente preservado — o que contribuiu para seus 8 gols no torneio, artilharia isolada daquela Copa.
O próprio Marquinhos chegou em condição física diferente. Por causa de lesões durante a temporada, o zagueiro disputou apenas 31 jogos pelo PSG — número consideravelmente menor que o de Vinicius. Paradoxalmente, o capitão chega mais descansado do que a principal estrela da equipe.
A preparação em curso no CT de Columbia Park, em Morristown, Nova Jersey, tenta mitigar esse desequilíbrio. Na quinta-feira, 4 de junho, a comissão técnica programou dois treinos: o primeiro às 11h (horário de Brasília) e o segundo às 18h. O termômetro marcava 30 graus no campo do Red Bulls durante os trabalhos vespertinos — e a previsão para a sexta-feira, quando o grupo se desloca para Cleveland, era de 32 graus. O amistoso contra o Egito, marcado para o sábado, 6 de junho, às 19h em Cleveland, será o último teste antes da estreia oficial, e a temperatura local pode chegar a 38 graus.
O que Ancelotti sabe e o que ainda não tem resposta
Ancelotti não é ingênuo diante do problema. Sua convicção declarada é a de que a Seleção precisa se adaptar ao calor e ao cansaço agora, durante a preparação, porque não haverá tempo para ajustes no meio do torneio. A lógica é a mesma que aplicou em suas campanhas pela Champions League com Real Madrid, Milan e PSG: equipes que chegam aos estágios finais de competições longas precisam de elenco profundo e rotatividade inteligente, não apenas de onze titulares excepcionais.
O jornalista Mauro Cezar, em análise publicada em seu canal, levantou uma comparação histórica pertinente ao comparar o ambiente de convocação atual com o de Weggis, em 2006, quando a Seleção Brasileira chegou à Alemanha cercada de festa e expectativa excessiva, mas foi eliminada nas quartas de final pela França de Zidane, com derrota por 1 a 0.
"Não é porque tem um Ancelotti várias vezes campeão por clubes que vai dar certo. Não basta isso. O Filipão foi campeão do mundo com o Brasil e depois tomou de sete", afirmou o comentarista, ressalvando que ainda vê o Brasil com condições de fazer uma boa campanha se houver seriedade e concentração.
A questão logística também preocupa. Ancelotti chegou a manifestar preferência por sediar os jogos da fase de grupos na costa oeste, o que seria possível caso o sorteio colocasse o Brasil no Grupo G, com partidas em Seattle. Isso não aconteceu: a estreia está marcada para 13 de junho, em Nova Jersey, contra Marrocos, às 19h — na mesma costa leste que sufocou os italianos em 1994. A previsão climática para aquela região em meados de junho indica temperaturas entre 28 e 35 graus com umidade elevada.
Conforme registrado pelo SportNavo, Wesley e Fabinho foram os escolhidos pela comissão técnica para a entrevista coletiva desta quinta-feira no hotel The Ridge, em Morristown — sinal de que Ancelotti quer ampliar o protagonismo de peças do elenco que chegam com menor desgaste físico acumulado. A gestão do elenco ao longo de 39 dias será, possivelmente, tão decisiva quanto a qualidade técnica dos titulares. O Brasil enfrenta o Egito no sábado, 6 de junho, em Cleveland, e estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho, em Nova Jersey, contra Marrocos.









