O NRG Stadium, em Houston, estava tomado pela tensão quando o árbitro Andrés Matonte apitou para a cobrança de pênalti nas quartas de final da Copa América de 2024. O primeiro cobrador se posicionou. Deu três passos curtos, escolheu a cavadinha — e viu a bola bater no travessão do goleiro Alexander Domínguez. Quem estava diante do ponto de cal era Lionel Messi, e o erro foi o 33º pênalti desperdiçado de sua carreira, segundo dados do Sofascore.
Os 33 erros de Messi distribuídos por 17 anos de carreira
O levantamento é cirúrgico: dos 33 pênaltis perdidos, 25 foram defendidos por goleiros adversários, 5 foram para fora da meta e 3 acertaram a trave. O primeiro erro documentado remonta à Copa do Rei de 2007/08, contra o Villarreal, ainda nos tempos de Barcelona. O intervalo de tempo — 2007 a 2024 — revela que o problema não é pontual nem resultado de queda física. É um padrão que atravessa gerações de goleiros, clubes e competições.
Em Copas do Mundo, o recorte é ainda mais severo. Com bola rolando, Messi cobrou três pênaltis em Mundiais e converteu apenas um — justamente o gol contra a Arábia Saudita na fase de grupos do Qatar, em 2022. Os outros dois resultaram em defesas: Hannes Halldorsson, da Islândia, segurou o chute na estreia da Argentina na Rússia 2018, sustentando o empate por 1 a 1; e Wojciech Szczęsny defendeu a cobrança contra a Polônia no mesmo Mundial do Qatar, antes de a Argentina virar para 2 a 0. O aproveitamento em Copas, portanto, é de 33% — um terço.
Depois do erro contra a Polônia, Messi foi direto ao ponto no vestiário:
"Fiquei com muita raiva, porque o gol poderia ter mudado tudo, deixado o jogo mais liberado. Mas o time em vez de sentir se saiu melhor. Eu senti o apoio do time e o apoio das pessoas."A declaração revela consciência do peso do erro — e também a capacidade de processar a falha sem que ela contamine o coletivo. Mas o padrão técnico persiste independentemente da resiliência mental.

A cavadinha contra o Equador e o que ela revela sobre a tomada de decisão sob pressão
A cobrança de 4 de julho de 2024 merece análise separada. Messi havia batido cruzado nos últimos pênaltis — e Domínguez pulou para esse lado. A leitura do craque foi correta: o goleiro estava comprometido. A execução, não. O próprio Messi explicou o raciocínio depois do jogo:
"Tenho muita bronca porque fui convencido de cobrar dessa forma. Eu tinha batido cruzado os últimos, e o goleiro pulou para esse lado. Quis apenas dar um toque, mas saiu alta."
Tecnicamente, a cavadinha exige controle de força e ângulo de contato com a bola em uma fração de segundo de altíssima pressão. O problema não está na escolha da batida — é uma cobrança válida, usada com sucesso por outros cobradores — mas na execução com a adrenalina do momento decisivo. A bola acertou o travessão, não o ângulo inferior que a cavadinha bem executada exige. A Argentina foi salva por Emiliano Martínez, que defendeu duas cobranças equatorianas, e avançou à semifinal da Copa América mesmo com o erro do camisa 10.
Ao longo da carreira, os erros de Messi têm uma distribuição técnica que aponta para dois padrões dominantes: a tendência de bater no centro-baixo da meta (facilitando defesas de goleiros que estudam seu histórico) e a escolha, em momentos de alta pressão, de variações que fogem do seu chute mais eficiente — o cruzado forte no canto esquerdo inferior. A lista da CNN Brasil, em matéria do SportNavo compilada com dados do Sofascore, mostra que goleiros como Szczęsny (Polônia 2022), Ter Stegen (amistoso contra a Alemanha em 2012) e o próprio Alisson (amistoso Brasil x Argentina em 2019) defenderam cobranças que seguiam padrões previsíveis.
Messi, CR7 e Neymar — o que os números dizem sobre os três maiores cobradores de sua geração
O aproveitamento de 78% de Messi contrasta diretamente com os 83% de Cristiano Ronaldo e os 83% de Neymar, segundo dados do Transfermarkt. A diferença de cinco pontos percentuais pode parecer marginal em termos absolutos, mas em uma carreira com mais de 160 cobranças tentadas representa estatisticamente algo entre 8 e 10 gols a mais que Messi deixou de converter.
Cristiano Ronaldo construiu sua eficiência nos pênaltis a partir de um ritual técnico rigoroso: a pausa antes do chute, o corpo levemente inclinado para trás e o chute forte no canto escolhido com antecedência. A variação existe, mas é controlada. Neymar, por sua vez, combina velocidade de execução com mudança de direção no último instante — o que dificulta a leitura do goleiro. Messi oscila entre a potência cruzada e tentativas de variação que, sob pressão máxima, aumentam a margem de erro técnico.
Há um dado que contextualiza a discussão sem minimizá-la: Messi chegou a 170 cobranças tentadas ao longo da carreira — volume que poucos jogadores de linha atingem. Mais cobranças significam, matematicamente, mais erros absolutos. Mas o percentual de conversão permanece abaixo dos dois principais rivais históricos, e os erros em Copas do Mundo — os momentos de maior exposição — seguem sendo o ponto mais frágil do dossiê técnico do maior jogador de sua geração.
Com 37 anos completados em junho de 2024 e o Inter Miami como clube atual, Messi ainda pode ser chamado a cobrar pênaltis decisivos. O histórico diz que o erro é estatisticamente mais provável do que em CR7 ou Neymar — e que a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, pode ser o último capítulo dessa conta em aberto.








