Um artilheiro que não faz gols ainda é artilheiro. Esse é o paradoxo que define a carreira recente de Tiquinho Soares — e que a trajetória dele entre Botafogo, Santos e Mirassol trata de resolver, de forma cada vez mais penosa, rodada após rodada.

O mesmo roteiro, em três versões diferentes

No Brasileirão 2023, Tiquinho passou seis partidas sem marcar pelo Botafogo — contra Cuiabá, Palmeiras, Vasco, Bragantino, Fortaleza e Santos. Quando voltou a balançar as redes, foi de pênalti, contra o Coritiba, no Couto Pereira, na 36ª rodada. O gol parecia decisivo; o Coritiba empatou na saída de bola. Frustração com alívio, numa mesma jogada. Depois, no Campeonato Carioca de 2026, o jejum chegou a 11 partidas — três meses inteiros sem gol com a bola rolando. O técnico Tiago Nunes comemorou o fim da seca como se fosse uma conquista coletiva:

"Qualquer centroavante que vive de gols fica ansioso, impaciente. Tiquinho não é diferente. Agora, gera mais confiança para ele, e essa confiança acaba trazendo naturalidade maior. Tomara que se torne mais rotineiro", afirmou Nunes à época.

No Santos, o capítulo seguinte foi ainda mais longo. Tiquinho não marcava desde 20 de abril de 2025; voltou a fazer gol apenas em setembro, na 23ª rodada do Brasileirão, contra o Atlético-MG, quando o Peixe já jogava com um homem a menos por causa da expulsão de Zé Ivaldo. Sofreu o pênalti e converteu. Sete gols no ano, mas quase cinco meses de silêncio entre um e outro. Reserva no time de Juan Pablo Vojvoda, ele próprio reconheceu que a situação era inédita:

"Nunca tinha passado tanto tempo sem gol. Mas é isso, futebol é desse jeito, estou para ajudar, de corpo e alma. Eu não desaprendi a fazer gol, não. Se eu tiver duas oportunidades, em uma eu faço gol", disse Tiquinho após o empate com o Atlético-MG.

228 dias sem gol e o banco da Libertadores

O que estava acontecendo no Santos virou rotina no Mirassol. Emprestado ao clube paulista para a temporada de 2026, Tiquinho acumula 228 dias sem marcar — oito partidas disputadas, zero gols. O técnico Rafael Guanaes foi além do banco: em três jogos do Mirassol pela Libertadores, o centroavante foi cortado da lista de relacionados em dois, incluindo a estreia contra o Lanús. Na vitória sobre o Always Ready, o mesmo: fora da relação. A mensagem tática é clara, mesmo sem palavras.

Numa das raras vezes em que entrou em campo, contra o São Paulo pelo Brasileirão 2026, Tiquinho desperdiçou gol claro que poderia significar o empate para o Leão — situação que, segundo apuração do Bolavip Brasil, piorou ainda mais sua moral com o treinador. O Santos acompanha o empréstimo sem planos de interrompê-lo antes de dezembro, mas a diretoria santista já sinalizou internamente que o atacante não faz parte do planejamento para 2027. O clube ainda arca com parte do salário do jogador, que gira em torno de R$ 900 mil mensais, dentro do acordo firmado com o Mirassol.

O SportNavo mapeou os três jejuns consecutivos de Tiquinho — seis jogos no Botafogo (2023), 11 jogos no Carioca (2026) e agora oito partidas no Mirassol sem gol — e a progressão é evidente: cada silêncio durou mais que o anterior, e cada retorno foi menos explosivo.

O que mudou taticamente num atacante de referência

Tiquinho Soares completou 35 anos e opera num perfil de centroavante fixo, de área, que depende de cruzamentos e bolas aéreas para produzir. No Botafogo de 2023, quando foi artilheiro do Brasileirão com 18 gols, o time tinha Marçal e Damián Suárez abastecendo as laterais com regularidade — cruzamentos chegavam como chuva de verão, densos e previsíveis. Nos clubes seguintes, o suprimento secou. No Santos de Vojvoda, o sistema era mais posicional, com menos cruzamentos diretos à área; no Mirassol de Guanaes, o 4-2-3-1 exige movimentação entre linhas e pressão alta, funções que pedem um atacante com mais mobilidade do que Tiquinho demonstra agora.

O gol que ele marcou no Botafogo em fevereiro de 2024, contra o Aurora pela pré-Libertadores — num cruzamento de Damián Suárez, após rebote no goleiro Michelli —, ilustra exatamente o tipo de jogada em que ele ainda é eficiente: bola na área, posicionamento, segunda bola. Mas esse tipo de situação tem sido cada vez mais raro nos contextos em que ele está inserido. Naquele jogo, além do gol, contribuiu com duas assistências na goleada por 6 a 0, e ele mesmo celebrou: "Sempre prometi raça e entrega." A raça segue. A entrega, aparentemente, também. O que falta é o sistema que o coloque no lugar certo.

O que resta para o centroavante até dezembro

A janela de empréstimo ao Mirassol vai até dezembro de 2026. Com 228 dias sem gol e crescente exclusão das listas de relacionados, Tiquinho tem um período curto para reverter a avaliação do Santos sobre seu valor de mercado. A diretoria santista enxerga o empréstimo como vitrine — ainda que limitada — para tentar uma negociação definitiva ao fim do ano. Sem gols e sem minutos, a vitrine permanece apagada.

O Mirassol tem pela frente mais rodadas do Brasileirão 2026 e, dependendo dos resultados, pode avançar na Libertadores — competição da qual Tiquinho tem sido sistematicamente excluído. Se Guanaes mantiver a postura atual, o atacante sequer terá palco continental para se reapresentar. O próximo jogo do Mirassol pelo campeonato nacional acontece ainda neste mês, e a pressão sobre o centroavante — que já foi o melhor do Brasil na posição em 2023 — não vai diminuir com o calendário.

O mesmo roteiro, em três versões diferentes Quanto tempo falta para Tiquinho Soa
O mesmo roteiro, em três versões diferentes Quanto tempo falta para Tiquinho Soa

Num canto do vestiário, chuteiras já gastas e 228 dias de silêncio. Do lado de fora, a área pequena esperando por um homem que já sabe exatamente o que fazer lá dentro — quando alguém lembrar de colocá-lo em campo.