Não, Cristiano Ronaldo não é o maior artilheiro da história das Copas do Mundo — ainda. Com oito gols em cinco edições do torneio, ele está a quatro de Miroslav Klose, o alemão que encerrou sua carreira em 2014 com 16 tentos e uma Copa levantada no Maracanã. A pergunta que realmente importa, agora que o técnico Roberto Martínez confirmou o nome do camisa 7 entre os 26 convocados de Portugal na manhã desta terça-feira, 19 de maio, é outra: um homem de 41 anos, vindo da Liga Saudita, tem condições reais de fechar essa lacuna de quatro gols e reescrever o livro de recordes do maior torneio do planeta?
O que aconteceu nos bastidores antes da convocação de Ronaldo
A convocação não foi uma surpresa, mas o caminho até ela teve turbulências. Ronaldo sofreu uma lesão no Al-Nassr no final de fevereiro e precisou ficar fora dos amistosos de março, quando Portugal empatou sem gols com o México e venceu os Estados Unidos por 2 a 0. A ausência acendeu especulações, mas o jogador havia declarado em novembro de 2025 que a Copa de 2026 seria sua última — e Martínez não cogitou abrir mão do maior artilheiro da história da seleção portuguesa, dono de 143 gols com a camisa das Quinas. Recuperado, Ronaldo integra um grupo que tem jogadores espalhados pelos melhores clubes da Europa: Vitinha, João Neves, Nuno Mendes e Gonçalo Ramos no PSG; Bruno Fernandes no Manchester United; Bernardo Silva e Rúben Dias no Manchester City; Rafael Leão no Milan.
Nos corredores da federação portuguesa, segundo relatos da imprensa europeia, a discussão nunca foi se Ronaldo seria convocado, mas em que função ele atuaria. A geração atual de Portugal é tecnicamente superior à que carregou Ronaldo nas costas entre 2006 e 2018 — e isso, paradoxalmente, pode ser o fator que o libera para ser mais eficiente dentro da área, com menos responsabilidade de construção de jogo.
Os recordes que Ronaldo persegue na Copa do Mundo 2026
A marca de seis participações em Copas do Mundo é, por si só, um feito histórico. Até hoje, nenhum jogador disputou seis edições do torneio. O recorde pertence a Antonio Carbajal, goleiro mexicano que jogou de 1950 a 1966, e a Lothar Matthäus, que vestiu a camisa da Alemanha em cinco Mundiais entre 1982 e 1998 — ambos com cinco participações. Ronaldo chegará ao mesmo número de Mundiais que Matthäus, e Lionel Messi, convocado pela Argentina, deve igualar a marca também.
Mas o recorde aritmético mais tangível é o de artilharia. Klose marcou 16 gols em quatro Copas (2002, 2006, 2010 e 2014). Ronaldo tem oito em cinco edições — uma média de 1,6 gols por torneio. Para alcançar Klose, precisaria de nove gols em 2026, o que equivaleria a marcar em praticamente todas as partidas se Portugal chegar à final. A comparação com Klose é inevitável: o alemão era um centroavante puro, especializado em movimentações dentro da área, com um índice de conversão de finalizações em grandes chances que analistas modernos classificariam como excepcional em termos de xG overperformance — métrica que mede o quanto um jogador marca acima do esperado com base na qualidade das chances que recebe. Em linguagem simples: Klose transformava em gol oportunidades que a maioria dos atacantes desperdiçaria.
Portugal estreia no Grupo K em 17 de junho contra a República Democrática do Congo, em Houston. Depois enfrenta o Uzbequistão, no dia 23, na mesma cidade, e encerra a fase de grupos contra a Colômbia, em Miami, no dia 27. Antes de embarcar para os Estados Unidos, a seleção fará dois amistosos em casa: contra o Chile, em 6 de junho, e contra a Nigéria, em 10 de junho, em Leiria.
Ronaldo entre os gigantes históricos das Copas
Para entender a dimensão do que Ronaldo já fez — e do que ainda pode fazer —, convém lembrar que os maiores artilheiros da história do torneio são todos homens que jogaram em épocas muito diferentes. Pelé marcou 12 gols em quatro Copas entre 1958 e 1970, sendo três deles ainda adolescente, em 1958. Gerd Müller, o Bombardeiro da Nação, fez 14 gols em apenas dois torneios, 1970 e 1974, com uma eficiência que até hoje não foi replicada. Ronaldo Fenômeno, o brasileiro, somou 15 gols em quatro Copas e chegou perto de Klose antes de encerrar a carreira.
O que diferencia Ronaldo CR7 nessa lista é a longevidade. Nenhum dos nomes acima jogou uma Copa com mais de 38 anos. Ronaldo chegará a 2026 com 41 anos completos, uma idade em que jogadores de campo normalmente já estão há anos aposentados. Para referência histórica: quando Matthäus disputou sua quinta Copa, em 1998, tinha 37 anos e jogava como volante, posição que exige menos explosão física do que a de atacante.
A comparação mais honesta talvez seja com Stanley Matthews, o inglês que jogou futebol profissional até os 50 anos, ou com o próprio contexto do futebol saudita, que Ronaldo escolheu como palco nos últimos anos — um ambiente de menor intensidade física que, paradoxalmente, pode ter preservado seu corpo para este momento. Não há dados públicos de GPS de treinos do Al-Nassr, mas o volume de corridas de alta intensidade que Ronaldo registrou nos últimos amistosos pela seleção portuguesa sugere que ele ainda opera em patamares acima da média de jogadores de 35 anos em ligas europeias de segundo escalão.
"A Copa do Mundo de 2026 será a última da minha carreira", declarou Ronaldo em novembro de 2025, encerrando qualquer especulação sobre uma sétima participação e transformando o torneio americano em seu canto do cisne oficial.
Martínez, por sua vez, construiu uma seleção que não depende de Ronaldo para funcionar — o que é uma novidade estrutural em relação às gerações anteriores. Nos ciclos de 2006 e 2010, Portugal era literalmente Ronaldo mais dez. Hoje, com João Neves ditando o ritmo no meio, Bernardo Silva criando espaços e Gonçalo Ramos como opção de centroavante moderno, o técnico belga tem luxo de usar Ronaldo de forma cirúrgica: nos momentos em que a experiência e o faro de gol valem mais do que os 90 minutos de desgaste físico.
A estreia de Portugal contra a RD do Congo, em 17 de junho, em Houston, será o primeiro teste real. Se Ronaldo marcar naquele jogo, chegará a nove gols em Copas — a apenas sete de Klose. Se Portugal avançar até a final, ele terá no mínimo seis partidas para fechar essa conta. A matemática é possível. A história, porém, raramente segue a matemática — e é exatamente por isso que vale a pena assistir.
Se Ronaldo marcar ao menos quatro gols e Portugal chegar às semifinais, você acha que Martínez teria coragem de tirá-lo do time titular para poupar energia, mesmo com o recorde de Klose ao alcance?









