Errou. Mas a pergunta relevante não é se o árbitro errou — é por quê a mesma tecnologia, aplicada a lances estruturalmente semelhantes, produz conclusões opostas em quatro jogos diferentes do Botafogo no Brasileirão. A CBF divulgou os diálogos da cabine do VAR em partidas contra São Paulo, Mirassol, Flamengo e Grêmio. O conjunto dos áudios, longe de pacificar o debate, revela um padrão de insegurança interpretativa que compromete a legitimidade do recurso tecnológico mais caro da arbitragem brasileira.
A narrativa da transparência e o que os áudios realmente mostram
Circula no ambiente do futebol brasileiro a ideia de que a divulgação dos áudios do VAR representa um avanço institucional da CBF — um gesto de abertura e accountability. A leitura é sedutora, mas parcial. Quando se examina o conteúdo dos diálogos publicados, o que emerge não é clareza procedimental, mas a exposição de um processo decisório fragmentado, marcado por hesitações e pela construção narrativa feita durante a análise, não antes dela.
No jogo entre Botafogo e São Paulo, que terminou 2 a 2 no Nilton Santos, o árbitro Davi de Oliveira Lacerda marcou pênalti ao entender que Alan Franco havia trançado a perna de Cuiabano. O árbitro de vídeo Rodrigo D'Alonso Ferreira discordou e recomendou revisão. Na cabine, Lacerda pediu outros ângulos e reverteu a decisão. O próprio diálogo registra a lógica da inversão:
"Ele vem arrastando o pé e se joga", declarou Rodrigo D'Alonso Ferreira, árbitro de vídeo, descrevendo o movimento de Cuiabano antes de recomendar a anulação do pênalti inicialmente marcado.
A sequência é sintomática: o árbitro de campo construiu sua interpretação a partir do que viu a olho nu; a cabine construiu uma narrativa alternativa com auxílio de câmeras; e o árbitro de campo, ao ouvir essa narrativa, abandonou a própria convicção. Seria injusto chamar isso de colapso institucional — mas é um colapso em escala doméstica, repetido quatro vezes nas mesmas semanas.
Quando o VAR convence e quando ele contradiz — os critérios do Brasileirão
O contraste entre os quatro casos divulgados é o dado mais revelador do conjunto. Na vitória do Botafogo sobre o Mirassol por 3 a 2, pela nona rodada, o árbitro Wilton Pereira Sampaio (Fifa-GO) foi ao monitor após recomendação do VAR Gilberto Rodrigues Castro e confirmou o pênalti sobre Cristian Medina, convertido por Alex Telles para desempatar o jogo que estava 1 a 1.
"Wilton, quem toca a bola e tem a prioridade é o jogador da equipe branca com preto, tá? E depois o goleiro chega atrasado", orientou Gilberto Rodrigues Castro durante a análise, numa frase que evidencia o papel ativo da cabine na construção da decisão final.
No clássico contra o Grêmio, também no Nilton Santos, o VAR Rodrigo Guarizo recomendou revisão de um pênalti marcado sobre Savarino — e os auxiliares de vídeo construíram, durante a análise, a interpretação de que o contato era lateral e parte da disputa física. O árbitro de campo Felipe Fernandes de Lima foi ao monitor e ouviu: "Felipe, você vai ver que é lateralizado, a bola está passando e quem muda a direção para ir na bola é o atacante, e não o defensor." A penalidade foi anulada. Já no clássico contra o Flamengo, vencido pelo Rubro-Negro por 3 a 0, o árbitro de vídeo Rodolpho Toski Marques classificou o contato entre Allan e Luiz Araújo como "insignificante", sem recomendar revisão — o pênalti não foi marcado.
A avaliação do SportNavo sobre o conjunto dos quatro casos aponta para um problema de critério, não de tecnologia. O VAR, como ferramenta, funciona. O protocolo de aplicação, contudo, delega ao árbitro de vídeo uma margem interpretativa que varia caso a caso, sem parâmetro público e auditável.
O custo institucional de uma arbitragem sem parâmetro explícito
A Comissão de Arbitragem da CBF opera sob um modelo em que os critérios de intervenção do VAR — o chamado "erro claro e óbvio" — permanecem sem definição operacional publicada e acessível. Pesquisa da IFAB (International Football Association Board), entidade que regula as leis do jogo, já identificou que a subjetividade na aplicação do protocolo VAR é o principal vetor de desconfiança pública no recurso, em relatório publicado em 2024. No Brasil, onde o futebol movimenta cerca de R$ 6 bilhões por ano em receitas de clubes da Série A, segundo dados da Itaú Asset Management divulgados no Anuário do Futebol Brasileiro de 2025, a falta de parâmetro explícito tem custo econômico direto: afeta a percepção de justiça competitiva e, por extensão, o valor das cotas de transmissão e patrocínio.
Os quatro áudios divulgados pela CBF revelam árbitros de vídeo que constroem argumentos ao vivo, enquanto revisam imagens, e árbitros de campo que frequentemente se rendem a essa construção narrativa. O padrão não é exclusivamente brasileiro — mas a ausência de um protocolo escrito e público para definir o que constitui "contato insignificante", "tranco lateral" ou "simulação" transforma cada divulgação de áudio em um novo episódio de controvérsia, em vez de um instrumento pedagógico.
A CBF tem nas mãos uma decisão mais relevante do que qualquer lance revisado: tornar públicos os critérios objetivos que orientam a cabine do VAR. Enquanto essa publicação não ocorre, cada áudio divulgado é, ao mesmo tempo, um gesto de transparência e uma confissão de improviso. O Botafogo volta a campo no próximo compromisso do Brasileirão com 100% de probabilidade de enfrentar, mais uma vez, a mesma arbitragem — e o mesmo protocolo opaco que produziu quatro decisões em quatro jogos, com quatro lógicas distintas.









