A lesão de Raphinha no amistoso entre Brasil e França, disputado em Massachusetts na semana passada, reacendeu o debate sobre o desgaste físico dos jogadores nas datas FIFA. O atacante do Barcelona sofreu uma lesão no músculo posterior da coxa direita e ficará afastado por cinco semanas, período que inclui confrontos decisivos da temporada europeia.
O presidente do Barcelona, Joan Laporta, não poupou críticas à entidade máxima do futebol mundial após receber o diagnóstico médico.
"É uma vergonha", declarou Laporta sobre a lesão sofrida por Raphinha durante a convocação da seleção brasileira.
A revolta do dirigente catalão tem fundamentos econômicos sólidos. Raphinha custou 58 milhões de euros aos cofres do Barcelona em 2022 e se tornou peça fundamental no esquema de Xavi. Nesta temporada, o brasileiro já acumula 12 gols e 8 assistências em 34 jogos, sendo responsável direto por 31% dos gols da equipe na La Liga.
O calendário sufocante que prejudica clubes
A situação de Raphinha ilustra um problema estrutural que afeta principalmente os grandes clubes europeus. Segundo dados da FIFPro, sindicato mundial dos jogadores, atletas de elite disputam em média 60 jogos por temporada, número que pode chegar a 70 para aqueles regularmente convocados por suas seleções nacionais.
O Barcelona enfrenta agora um dilema financeiro e esportivo. Com Raphinha fora por cinco semanas, a equipe catalã precisará buscar alternativas para os confrontos contra Real Madrid no El Clásico, além dos jogos decisivos da Champions League. A ausência do brasileiro pode custar caro: cada ponto perdido na La Liga representa aproximadamente 2,3 milhões de euros em premiação da UEFA.
Carlo Ancelotti também sente os efeitos dessa política de convocações. O técnico da seleção brasileira pretendia utilizar os amistosos contra França e Croácia para dar entrosamento ao time titular, já que eram apenas a nona e décima partidas sob seu comando. Com Raphinha lesionado, o treinador italiano perde uma de suas principais opções ofensivas a cinco meses da Copa do Mundo de 2026.
Números revelam impacto das lesões em datas FIFA
Levantamento realizado pelo CIES Football Observatory mostra que 23% das lesões de jogadores de clubes europeus acontecem durante períodos de convocação para seleções nacionais. O dado é ainda mais alarmante quando consideramos que as datas FIFA representam apenas 8% do calendário anual do futebol.
O caso de Alisson, goleiro do Liverpool, exemplifica outro aspecto dessa problemática. Lesionado desde março por problema muscular na coxa direita, o brasileiro deve retornar apenas no fim da temporada europeia, segundo o técnico Arne Slot. A ausência prolongada do arqueiro custou ao Liverpool pontos importantes na Premier League e na Champions League.
Os clubes ingleses são os mais vocais nessa discussão. Manchester City, Liverpool e Arsenal já manifestaram publicamente sua insatisfação com o calendário da FIFA. Os Citizens, por exemplo, calculam que perdas por lesões de jogadores convocados custaram 15 milhões de libras na temporada passada em termos de premiações não conquistadas.
Copa de 2026 intensifica pressão sobre atletas
A proximidade da Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, adiciona uma camada extra de complexidade ao problema. Ancelotti anunciará no dia 18 de maio a lista com os 26 convocados do Brasil, mas já lida com um plantel reduzido por lesões de jogadores-chave.
A expansão do Mundial para 48 seleções também significa mais jogos e maior desgaste físico. FIFA estima que a competição terá 104 partidas, contra 64 da edição atual. Para jogadores de clubes europeus que disputam Champions League, Copa do Mundo e campeonatos nacionais, a carga pode ultrapassar 80 jogos anuais.
Especialistas em medicina esportiva alertam que o limite físico dos atletas está sendo testado. Dr. Jan Ekstrand, consultor médico da UEFA, aponta que o risco de lesões musculares aumenta 34% quando jogadores disputam mais de 55 partidas por temporada.
Busca por soluções divide entidades
A FIFA defende que amistosos internacionais são fundamentais para o desenvolvimento técnico das seleções, especialmente em anos de Copa do Mundo. A entidade argumenta que reduziu de 12 para 6 o número de datas FIFA anuais nas últimas duas décadas, demonstrando preocupação com o calendário.
Por outro lado, a European Club Association (ECA) propõe limitação no número de convocações por jogador durante a temporada. A sugestão prevê máximo de 10 jogos por seleção anual, incluindo competições oficiais e amistosos. A proposta encontra resistência de federações sul-americanas e africanas, que dependem das datas FIFA para preparação adequada.
O Barcelona volta a campo no sábado contra o Atlético de Madrid, no Camp Nou, já sem poder contar com Raphinha. A ausência do brasileiro nos próximos cinco jogos pode definir tanto o título da La Liga quanto a classificação catalã nas oitavas da Champions League.

