O êxodo silencioso da Red Bull Racing começou em pleno apogeu. Enquanto Max Verstappen colecionava vitórias consecutivas entre 2022 e 2023, estabelecendo recordes históricos na Fórmula 1, a equipe de Milton Keynes perdia sistematicamente peças-chave de sua engrenagem técnica. Rob Marshall, Adrian Newey e, mais recentemente, GP Lambiase - figuras centrais no sucesso dos últimos anos - deixaram a organização em circunstâncias que variam entre oportunidades externas e tensões internas.

A saída de Rob Marshall em março de 2023 representou o primeiro grande abalo na estrutura técnica da Red Bull. O engenheiro-chefe, responsável por supervisionar o desenvolvimento aerodinâmico do RB19 - carro que dominou a temporada com 21 vitórias em 22 corridas - migrou para a McLaren após 15 anos de Red Bull. Marshall havia sido promovido internamente em 2006, quando ainda era um jovem engenheiro de 32 anos, e sua ascensão exemplifica a filosofia de desenvolvimento interno que a equipe mantém desde a era Dietrich Mateschitz.

Newey e o impacto na aerodinâmica

A perda mais impactante veio em maio de 2024, quando Adrian Newey anunciou sua saída após 19 anos na Red Bull. O designer britânico, considerado um gênio da aerodinâmica moderna, foi o arquiteto dos carros que conquistaram seis títulos de construtores para a equipe. Newey, que recebia aproximadamente £10 milhões anuais, deixou a Red Bull em meio a especulações sobre tensões com a administração, particularmente após as controvérsias envolvendo Christian Horner no início de 2024.

Para substituir o irreplazível Newey, a Red Bull promoveu Pierre Waché ao cargo de diretor técnico principal. O engenheiro francês de 49 anos já ocupava a posição de diretor técnico desde 2021 e trabalha ao lado de Newey há mais de uma década. Waché liderou o desenvolvimento do RB20, carro que garantiu o tetracampeonato mundial de Verstappen, mesmo com a ausência gradual de Newey nos últimos meses de 2024.

A filosofia de promoção interna

A estratégia da Red Bull de promover talentos internos tem raízes profundas na cultura organizacional estabelecida por Helmut Marko e Christian Horner. Ben Waterhouse, promovido a chefe de aerodinâmica em 2023, exemplifica essa abordagem. O engenheiro de 41 anos ingressou na equipe em 2006 como analista júnior e gradualmente assumiu responsabilidades maiores, supervisionando o túnel de vento de Bedford que processa dados cruciais para o desenvolvimento dos carros.

A mesma lógica se aplica a Guillaume Rocquelin, que assumiu maior protagonismo na estratégia de corrida após a saída de Hannah Schmitz para a Ferrari em 2023. Rocquelin, conhecido como "Rocky" no paddock, trabalha na Red Bull desde 2015 e desenvolveu expertise em análise de dados de telemetria, especializando-se em degradação de pneus e janelas de pit stop.

Newey e o impacto na aerodinâmica Red Bull promove talentos internos após
Newey e o impacto na aerodinâmica Red Bull promove talentos internos após
"Nossa força sempre foi identificar talentos jovens e dar oportunidades para crescerem dentro da organização", explicou Christian Horner em entrevista à Sky Sports. "Não é diferente do que fazemos com pilotos na Red Bull Junior Team."

Lambiase e o desafio mais recente

A saída mais recente e talvez mais surpreendente foi a de GP Lambiase, engenheiro de corrida de Max Verstappen desde 2015. Lambiase, que se tornou uma figura icônica pelas conversas técnicas transmitidas ao vivo durante as corridas, deixou a equipe em dezembro de 2024 para assumir cargo na Mercedes. Sua parceria com Verstappen rendeu quatro títulos mundiais consecutivos entre 2021 e 2024.

Para substituir Lambiase, a Red Bull promoveu Gianluca Pisanello, engenheiro italiano de 38 anos que trabalha na equipe desde 2019. Pisanello atuava como engenheiro de performance e tinha contato direto com os dados de setup e telemetria do RB20. Sua promoção representa um teste crucial para a filosofia de desenvolvimento interno, considerando a importância da comunicação entre piloto e engenheiro durante sessões de treinos e corridas.

A Red Bull também fortaleceu seu departamento de estratégia com a promoção de Stephen Knowles a chefe de estratégia sênior. Knowles, de 45 anos, supervisionava anteriormente a análise de dados pós-corrida e desenvolveu modelos matemáticos para otimização de pit stops, área onde a equipe mantém vantagem competitiva com tempos médios de 2,4 segundos em 2024.

A temporada de 2025 será o teste definitivo para essas promoções internas. A Red Bull inicia como favorita ao título, mas enfrenta pressão crescente da McLaren e Ferrari, que investiram pesadamente em contratações externas. O RB21 representa o primeiro projeto completamente desenvolvido sem a supervisão direta de Adrian Newey, colocando Pierre Waché e sua equipe sob holofotes intensos quando a pré-temporada começar em Bahrain, no dia 26 de fevereiro.