Ora pois, quem acompanha futebol há décadas sabe que certas histórias parecem saídas de uma crônica do Nelson Rodrigues — e a gestão de Romário no América-RJ se enquadra nessa categoria. O baixinho, que aos 58 anos ainda calça as chuteiras para defender as cores do Mecão enquanto comanda o clube como presidente, acaba de implementar uma regra que faria qualquer saudosista do futebol antigo bater palmas: proibiu o uso de chuteiras coloridas no elenco. Não é de hoje que o futebol moderno se rendeu ao colorido exuberante dos equipamentos, mas Romário, fiel ao seu estilo próprio e inconfundível, decidiu nadar contra a maré da modernidade, exigindo que seus comandados usem apenas calçados pretos — salvo aqueles que possuem contratos de patrocínio com marcas esportivas.
A lei do baixinho: tradição acima da vaidade
Como um verdadeiro coronel do futebol carioca, Romário não fez apenas um 'pedido' gentil — quem conhece o temperamento do pentacampeão mundial sabe que suas palavras têm peso de decreto. A multa de 20% do salário para os transgressores da 'lei das chuteiras pretas' demonstra que o presidente não está para brincadeira, numa atitude que remonta aos tempos em que técnicos como João Saldanha ou Telê Santana impunham disciplina militar nos vestiários. Esta medida, aliás, não configura novidade na biografia administrativa de Romário: em 2009, durante uma passagem anterior como dirigente do América, o baixinho já havia adotado postura similar, chegando ao ponto de ordenar que o roupeiro pintasse de preto todas as chuteiras coloridas do elenco — uma cena que parece extraída de um filme de Cacá Diegues sobre o futebol suburbano carioca.
Entre o campo e a diretoria: o estilo Romário de comandar
O que torna essa situação ainda mais peculiar é o fato de Romário exercer simultaneamente as funções de jogador e presidente, numa dualidade que lembra os tempos heroicos do futebol amador, quando dirigentes desciam ao gramado para resolver as partidas com os próprios pés. Sua justificativa para a proibição das chuteiras coloridas é combater o que ele chama de 'estrelismo' no vestiário — uma preocupação legítima em tempos onde a vaidade individual muitas vezes sobrepuja o espírito coletivo. Quem viveu os anos dourados do futebol brasileiro, quando craques como Pelé, Garrincha e o próprio Romário brilhavam com chuteiras singelas e pretas, entende perfeitamente a filosofia por trás dessa medida: o talento deve falar mais alto que a ostentação, o futebol deve prevalecer sobre o marketing pessoal.
Um reflexo dos tempos modernos
Essa história das chuteiras revela muito sobre o abismo que separa gerações no futebol contemporâneo. Enquanto jogadores da nova safra cresceram acostumados com equipamentos multicoloridos, patrocínios individuais e redes sociais, Romário representa uma escola onde a disciplina e o coletivo eram valores inquestionáveis. No Méier, bairro que conhece como poucos o valor da simplicidade e da autenticidade, essa postura encontra eco — afinal, não é preciso ser sociólogo para perceber que o futebol de várzea sempre privilegiou a habilidade sobre a aparência. O baixinho, com sua gestão peculiar, nos transporta para uma época em que o vestiário era um templo sagrado, onde veteranos ditavam as regras e novatos aprendiam pelo exemplo, não pela rebeldia.
A trajetória de Romário como presidente-jogador do América-RJ continuará rendendo episódios curiosos, disso podemos ter certeza. Sua personalidade marcante, forjada em décadas de confrontos dentro e fora dos gramados, promete transformar cada decisão administrativa numa aula de caráter e determinação. Que venham mais histórias do baixinho — o futebol brasileiro, com toda sua riqueza folclórica e humana, agradece por personagens assim, que mantêm viva a chama da tradição num esporte cada vez mais globalizado e impessoal.

