Confesso: quando o apito final soou no empate de 1 a 1 entre Portugal e República Democrática do Congo, escrevi nos meus rascunhos que Cristiano Ronaldo talvez estivesse, pela primeira vez em vinte anos de Copa do Mundo, jogando acima de suas condições reais. Quarenta e um anos, uma seleção que evoluiu ao seu redor, e um centroavante que não tocava na bola por minutos a fio. Errei. Errei feio. E a goleada de 5 a 0 sobre o Uzbequistão, nesta terça-feira (23), no NRG Stadium de Houston, foi a correção mais eloquente que um jogador poderia me dar.

A pressão que antecedeu os gols de Ronaldo contra o Uzbequistão

O ambiente em torno de Portugal nos dias que separaram a estreia da segunda rodada lembrou, guardadas as proporções, o que se viveu na Itália de 1994 depois que Roberto Baggio desperdiçou chances no empate com a República da Irlanda. A imprensa portuguesa e internacional colocou CR7 no banco dos réus: sua titularidade foi questionada, seu ritmo comparado desfavoravelmente ao de Lionel Messi (cinco gols no torneio até então) e Kylian Mbappé (quatro gols), e a irmã do craque, Katia Aveiro, chegou a criticar Bruno Fernandes publicamente nas redes sociais por supostamente ignorar o camisa 7 nas jogadas. O próprio Ronaldo acumulava um jejum de oito meses sem marcar pela seleção — quatro jogos sem gol, o pior período dele com a camisa das quinas em dois anos.

Quem acompanhou o ciclo de Ronaldo Nazário na Copa de 2002 sabe como funciona essa dinâmica: o craque chega pressionado, o entorno ferve, e aí o jogador decide que o melhor argumento é o gol. CR7 tem esse mesmo gene. Aos cinco minutos do primeiro tempo, Vitinha cruzou rasteiro pela direita e o camisa 7 apareceu na primeira trave para cabecear com precisão — 1 a 0, e o NRG Stadium explodiu num coro de Siuuu que ecoou até o segundo anel do estádio. O gol que quebrou o jejum também inaugurou o recorde: Ronaldo se tornava, naquele instante, o único jogador da história a marcar em seis edições diferentes de Copa do Mundo — 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026.

O doblete que reescreveu a artilharia portuguesa nos Mundiais

Nuno Mendes ampliou para 2 a 0 aos 16 minutos com uma cobrança de falta caprichada, após Pedro Neto ser derrubado na entrada da área. O Uzbequistão até chegou a marcar um golaço de fora da área com Ganiev aos 28 minutos, mas o VAR anulou por falta de Fayzullaev em João Cancelo no início da jogada. A proteção tecnológica manteve o placar intacto para o segundo gol de Ronaldo, que veio aos 38 minutos numa jogada de manual: erro na saída de bola uzbeque, Bruno Fernandes puxando o contra-ataque com velocidade e servindo CR7 livre dentro da área para fazer 3 a 0. Com esse gol, Ronaldo chegava a dez tentos em Copas do Mundo, superando Eusébio — que marcou nove gols na única Copa que disputou, em 1966, liderando a artilharia do torneio — como o maior artilheiro de Portugal na história do Mundial.

A pressão que antecedeu os gols de Ronaldo contra o Uzbequistão Ronaldo marca 2,
A pressão que antecedeu os gols de Ronaldo contra o Uzbequistão Ronaldo marca 2,

No segundo tempo, Khusanov marcou contra aos 13 minutos após uma finalização de letra de Ronaldo que desviou duas vezes antes de entrar, e Rafael Leão fechou a goleada em 5 a 0 com um belo gol assistido por Bruno Fernandes. A estatística do primeiro tempo já dizia tudo sobre o domínio português: 8 finalizações contra apenas 3 do adversário, com 65% de posse de bola.

"Gosto desta situação" — a frase é do equatoriano Ángelo Preciado, falando sobre jogar sob pressão, mas poderia ter sido dita por Ronaldo ao longo desta semana. Jogadores que constroem carreiras sobre a adversidade não fogem do escrutínio; eles o transformam em combustível.

Os recordes de Ronaldo e o que ainda está em aberto nesta Copa

Três marcas foram quebradas ou estabelecidas num único jogo. Primeiro: único jogador a marcar em seis Copas. Segundo: com 41 anos e 138 dias, Ronaldo é agora o segundo jogador mais velho a balançar as redes num Mundial, atrás apenas de Roger Milla, que tinha 42 anos e 39 dias quando marcou o gol de consolação de Camarões na goleada sofrida para a Rússia por 6 a 1 na Copa de 1994 — uma partida que eu vi ao vivo numa televisão de bar em Barcelona e que ainda me parece irreal. Terceiro: artilheiro isolado de Portugal em Copas, com dez gols, dois a mais que a lenda Eusébio.

Há, porém, uma lacuna curiosa na biografia mundialista de CR7: em seis participações e dez gols, ele nunca marcou numa partida de mata-mata. Todos os seus tentos vieram na fase de grupos. Esse dado, levantado em matéria do SportNavo antes do torneio, ganha agora uma dimensão diferente — porque Portugal terminou a segunda rodada com quatro pontos e enfrenta a Colômbia, líder do Grupo K com seis pontos, no sábado (27), às 20h30, no Hard Rock Stadium. Uma vitória lusitana garantiria a classificação e colocaria Ronaldo diante, potencialmente, do primeiro gol de mata-mata de sua história em Copas.

Existe ainda a possibilidade de Ronaldo igualar Gabriel Batistuta no seleto clube dos jogadores com hat-tricks em edições diferentes de Copa — o argentino marcou três gols contra a Grécia em 1994 e contra a Jamaica em 1998. CR7 quase chegou lá contra o Uzbequistão: nos acréscimos do primeiro tempo, recebeu rasteiro e tentou de cobertura, mas Khusanov tirou em cima da linha. A cobra morta, como dizem no Texas, ainda morde. Portugal e Colômbia se encontram no sábado — vale gravar o jogo, porque Ronaldo, com esse estado de espírito, raramente decepciona quando a parede de ferro está do outro lado.